VARIEDADES

Projeto no Rio forma mais de 200 artistas do funk, mas busca patrocínio para continuar

11 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

O #estudeofunk já qualificou novos profissionais, levando-os a experiências internacionais; e pretende beneficiar 50 novos participantes em novo ciclo

Projeto Estude o Funk, no Rio, capacita novos talentos e busca apoio
Projeto Estude o Funk, no Rio, capacita novos talentos e busca apoio — Foto: @berroinc.cc

Quando se fala em Rio de Janeiro, o funk é um dos primeiros movimentos culturais que vêm à mente, ao lado do samba. Com batidas inconfundíveis, seja no ritmo acelerado do 150 BPM, seja no swing do funk melody, o gênero faz parte do imaginário e do cotidiano carioca. Preservar essa cultura, apoiar quem faz parte dela e abrir espaço para novos talentos são formas de garantir sua continuidade, e é esse o trabalho que o #estudeofunk realiza há quatro anos.

Criado pela Fundição Progresso em parceria com a Viva Brasil, o programa nasceu em 2022 como uma plataforma de formação, desenvolvimento e aceleração de carreiras voltada ao funk carioca. Desde então, mais de 200 artistas passaram pelo projeto, entre MCs, beatmakers, DJs e dançarinos. Para Taísa Machado, diretora artística, a dimensão desse trabalho está também nas chamadas “primeiras vezes” proporcionadas aos participantes.

— É desafiador trabalhar na estrada dos sonhos de jovens artistas. Digo na estrada porque o caminho para artistas da periferia é muito longo. E embora a gente tenha uma diversidade muito grande, em sua maioria, os artistas chegam aqui para viver uma infinidade de primeiras vezes. A primeira vez gravando em um estúdio de ponta, a primeira vez no palco, a primeira vez tendo suporte, infraestrutura e acesso a conhecimentos mais íntimos do mercado — explica.

O público formado pelo projeto é majoritariamente negro: 85% dos participantes são pessoas negras, além de 2% indígenas. Também há diversidade de gênero, orientação sexual e a participação de pessoas com deficiência. Esses números não aparecem apenas como estatísticas, mas ajudam a dimensionar uma riqueza cultural efervescente, que nasce de diferentes territórios e experiências, e que encontra no funk uma linguagem artística, uma possibilidade de expressão e, para muitos, até um caminho profissional.

Transformação de vida

Marcos Carvalho, de 26 anos, é artista drag queen, se apresenta como Preta Queenb Rull e foi um dos contemplados pelo #estudeofunk. Nascido e criado na Maré, o ator, cantor, compositor e dançarino soma oito anos de carreira, com oito espetáculos teatrais e nove lançamentos musicais, sendo quatro autorais e cinco em parceria com estúdio de funk. Como criador de conteúdo, já fez viagem internacional para acompanhar shows de Beyoncé, ampliando sua projeção artística:

— Fiz diversos shows no Estude o Funk e tive acesso a uma estrutura que, muitas vezes, artistas independentes e, principalmente, de favela não conseguem ter. É um espaço com estrutura profissional para criação, formação e apresentação. Foi incrível essa experiência. Acho que foi uma das melhores da minha vida.

Além de desenvolver projetos como artista visual, Marcos atua em sua comunidade, na Maré, fazendo shows anualmente para crianças do território. Com um trabalho que une funk, teatro, ancestralidade e cultura ballroom, uma de suas marcas é presença de palco e voz potentes, o que ele aprimorou no #eof.

— Tive uma aula de preparação vocal e orientações sobre como ter mais projeção, além de aula sobre história do funk com a Taísa Machado. Esses dois momentos me deixaram emocionado e motivado a continuar minha trajetória, porque pude lidar diretamente com referências bem de perto — destaca Marcos, que tem canções como “Acredite no seu axé” e “Bateu”, disponíveis nas plataformas de streamings.

Em busca de apoio

Ao longo dos ciclos, o projeto lançou cinco álbuns, dois EPs, além de singles e videoclipes que somam cerca de 500 mil visualizações no YouTube. Os trabalhos chegaram a casas de espetáculos, festivais, TVs e plataformas digitais. Agora, essa estrada está sem movimento por falta de patrocínio para viabilizar um quinto ciclo, que tornaria possível a cerca de 50 novos participantes terem acesso gratuito a tudo o que o projeto proporciona.

— É muito curioso que um projeto como esse precise pedir apoio. O funk tem sido reconhecido e cobiçado mundo afora, os dados das grandes empresas de streaming mostram que é o gênero musical brasileiro que mais cresce no mundo, e o Rio de Janeiro é o berço dessa cultura, nós temos uma das cenas mais efervescentes. Ainda assim, somos um dos únicos, senão o único projeto que busca capacitar novos artistas — afirma Taísa Machado, acrescentando uma reflexão:

— O que os gringos conseguem enxergar no funk que o Rio de Janeiro não consegue?

Para viabilizar o próximo ciclo, o #estudeofunk iniciou uma campanha de apadrinhamento voltada a empresas, marcas e pessoas físicas interessadas em contribuir para sua continuidade. O objetivo é garantir que novos MCs, DJs, beatmakers e dançarinos possam experimentar suas próprias “primeiras vezes” e encontrar, dentro do projeto, não apenas um espaço para criar, mas uma rede capaz de acompanhá-los na construção de suas carreiras.

— Pensar que outros artistas podem não ter a mesma oportunidade que eu tive me preocupa, principalmente jovens artistas que poderiam encontrar no projeto um espaço para descobrir seu potencial, aprender, criar e ocupar lugares que muitas vezes não estão disponíveis para eles. O funk também é cultura e merece ser valorizado, incentivado e preservado e projetos como este precisam ser vistos, mantidos e apoiados — reflete Marcos Carvalho.

BS20261011090001.1 – https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/10/projeto-no-rio-forma-mais-de-200-artistas-do-funk-mas-busca-patrocinio-para-continuar.ghtml

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