Quem é Maria Luiza Viotti, a embaixadora do Brasil nos EUA que teve o visto cancelado
5 de agosto, 2026
| Por: Agência O Globo
Primeira mulher a comandar a embaixada brasileira em Washington, diplomata acumula quase cinco décadas de carreira e já foi chefe de gabinete de António Guterres, na ONU
A embMaria Luiza Ribeiro Viotti atuou como chefe de gabinete de António Guterres, na ONU — Foto: José Cruz/Agência Senado/06-12-2012
Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em mais um capítulo da crise diplomática entre os dois países. Segundo um alto funcionário do Departamento de Estado, a medida foi tomada diante da falta de concessão do agrément — o consentimento diplomático necessário para a nomeação de um embaixador — ao republicano Daniel Perez, indicado pelo presidente Donald Trump para chefiar a representação americana em Brasília.
A decisão, no entanto, não significa a expulsão da diplomata do território americano. Viotti poderá permanecer em Washington enquanto os governos negociam uma solução para o impasse, que pode ser resolvido caso o Brasil dê o aval para que Perez assuma a embaixada dos EUA em Brasília.
Além disso, no contexto da revogação de visto da embaixadora, também há mais um atrito com os Estados Unidos. O país viu dois funcionários do Departamento de Estado terem o visto cancelado. Oficialmente, a missão trataria de liberdade de expressão durante o período eleitoral. Contudo, segundo o jornal americano The Washington Post, eles pretendiam questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro.
Quem é Maria Luiza Viotti
Antes da atual crise entre Brasil e Estados Unidos, Maria Luiza Viotti já era conhecida no âmbito das relações internacionais brasileiras com uma trajetória relevante da diplomacia brasileira nas últimas décadas. Atualmente com 72 anos, economista de formação e diplomata de carreira desde os anos 1970, ela representou o Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU), presidiu o Conselho de Segurança da entidade e chefiou o gabinete do secretário-geral António Guterres antes de assumir o posto considerado o mais estratégico da política externa brasileira.
Natural de Belo Horizonte, Maria Luiza Ribeiro Viotti nasceu em 1954, e ingressou na carreira diplomática em 1976, após concluir o Curso de Preparação à Carreira de Diplomata do Instituto Rio Branco (IRBr). Naquele ano, foi a única mulher entre os colegas de turma.
— Fui a única mulher na minha turma. Na turma anterior, também houve apenas uma mulher. Minha impressão é a de que nos anos seguintes cresceu o número de mulheres que ingressaram na carreira — recordou em fala registrada no documento do Itamaraty que registra a história das mulheres na diplomacia brasileira.
Enquanto iniciava a carreira no Itamaraty, formou-se em Economia pela Associação de Ensino Unificado de Brasília, em 1978. Três anos depois, concluiu o mestrado em Economia pela Universidade de Brasília (UnB). Em 1992, retornou ao Instituto Rio Branco, desta vez como professora de História das Ideias Políticas.
Nos primeiros anos da carreira, trabalhou na área de promoção comercial do Itamaraty. Segundo a própria Maria Luiza, essa experiência foi um dos momentos mais importantes da sua trajetória.
— Uma das experiências mais gratificantes foi ter participado da primeira missão comercial à China e trabalhado no seguimento de seus resultados. Tratou-se de iniciativa estratégica, de grande alcance e visão, que rompeu o círculo vicioso então prevalecente, em que não havia comércio por falta de transporte e vice-versa. A missão concluiu acordos e operações que estabeleceram as bases para um relacionamento comercial vigoroso e crescente — afirmou.
Quase uma década após iniciar sua jornada na diplomacia, Viotti assumiu seu primeiro posto no exterior. Em 1985, foi designada para a Missão Permanente do Brasil junto à ONU, em Nova York.
Quando voltou ao Brasil, ocupou diferentes funções estratégicas no Ministério das Relações Exteriores. Coordenou o gabinete do ministro das Relações Exteriores, participou da preparação da Rio-92 e, posteriormente, serviu na Embaixada do Brasil na Bolívia, onde acompanhou a etapa decisiva das negociações para a compra do gás boliviano. A experiência deu origem à tese de Altos Estudos intitulada O gás nas relações Brasil-Bolívia.
Também comandou a Divisão da América Meridional, período marcado pelo fortalecimento da integração regional e pela consolidação do Mercosul político. Mais tarde, dirigiu os departamentos de Direitos Humanos e Temas Sociais e de Organismos Internacionais do Itamaraty.
O maior reconhecimento internacional veio em 2007, quando foi escolhida para representar permanentemente o Brasil na ONU. A nomeação marcou mais um feito histórico: tornou-se a primeira mulher a exercer a função.
À frente da missão brasileira em Nova York, participou de alguns dos momentos mais importantes da política internacional da década, como a Primavera Árabe, a independência do Sudão do Sul e as discussões sobre a situação na Líbia. Quando o Brasil ocupou uma cadeira não permanente no Conselho de Segurança da ONU, entre 2010 e 2011, Viotti passou a integrar o principal órgão de decisões da organização.
Em fevereiro de 2011, alcançou outro marco histórico ao se tornar a primeira mulher brasileira a presidir o Conselho de Segurança.
— Espero que esta reforma do Conselho de Segurança ocorra rapidamente, de forma que o Brasil possa ter uma presença constante no Conselho. Essa presidência demonstrou que o Brasil tem um valor a agregar ao Conselho — declarou à época.
Após deixar a ONU, foi embaixadora do Brasil na Alemanha entre 2013 e 2016. No ano seguinte, recebeu um dos maiores reconhecimentos de sua carreira: foi escolhida pelo secretário-geral António Guterres para comandar seu gabinete na ONU, cargo que ocupou durante todo o primeiro mandato do diplomata português, entre 2017 e 2021.
Em 2023, foi indicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para assumir a Embaixada do Brasil em Washington e, após aprovação do Senado, tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo.