POLÍTICA

‘Recondo e os onze’: Mendonça e Gilmar entre o Velho e o Novo Testamento

18 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Da Lava-Jato ao Master, ministros trocam mais recados do que poderia perceber um observador desatento

Gilmar e Mendonça – Foto: Luiz Silveira/STF

Este conteúdo faz parte da newsletter Recondo e os Onze, em que Felipe Recondo traduz os movimentos do STF e seus ministros.

Funcionou como um ajuste de contas. Gilmar Mendes e André Mendonça desvelaram seus alertas e respostas na sessão da Turma do STF em que estava sendo julgado um incidente do caso Master. Um diálogo com mais mensagens e referências do que poderia perceber um observador desatento.

A começar pela paráfrase de um embate recente entre os dois. Quando André Mendonça iniciou sua divergência na terça-feira com esta frase — “Quero agradecer por este julgamento presencial que me permite pôr às claras algumas coisas que não estão tão claras” — tinha certamente na memória o que ouviu calado de Gilmar Mendes em março deste ano. Quando o STF derrubou a liminar que Mendonça concedeu para prorrogar a CPI no INSS, Gilmar Mendes disse: “Quero agradecer a ele por ter nos dado esta oportunidade de ouro de dialogarmos, inclusive, com a CPMI”.

E mesmo que este seja um detalhe entre tantas mensagens trocadas, revela a natureza deste conflito e a forma de pensar de Gilmar Mendes (já muito conhecido de quem observa o tribunal há décadas) e de André Mendonça (dos mais novos no tribunal e a ser compreendido por muitos).

O ministro Gilmar Mendes costuma, nos embates sobre esta temática — combate à corrupção —, usar como cartilha a lista de erros e vícios da Lava-Jato. Algo já notório: os diálogos entre o então juiz Sergio Moro e o Ministério Público, os vazamentos indevidos de informações, a manipulação da opinião pública e demais estratégias que levaram a Lava-Jato à derrocada.

É como um fantasma a pairar sobre as investigações de corrupção no Supremo. Como se a máscara de Sergio Moro coubesse no rosto de Mendonça, como se fosse um lava-jatista acrítico que atuará mais cedo ou mais tarde como justiceiro. Desconhecendo, talvez, críticas que Mendonça já fazia a Moro e aos procedimentos da operação desde que ainda estava anônimo na Controladoria-Geral da União.

Os alertas de Gilmar Mendes foram expressos. Como se dissesse — e como costuma repetir: o Supremo pode ter um encontro marcado com isso. Mendonça que cuide para que o Master não seja a próxima Lava-Jato.

Mas neste diálogo, do outro lado da linha, está alguém que transita entre o Velho e o Novo Testamento. Genuinamente evangélico que é, exercita os dois, em momentos diferentes, conforme a circunstância. Piedade e compreensão do Novo Testamento na relação com os colegas. Mas quando se trata de justiça recorre especialmente a um profeta do Velho Testamento: Habacuque.

Habacuque é o profeta que questiona Deus sobre a impunidade do mal e a lentidão da justiça ( “a lei se afrouxa, e o juízo nunca se manifesta”, conforme o texto bíblico). E mesmo sem resposta definitiva, declara que viverá pela fé, que confiará apesar de tudo.

Gilmar Mendes é repetitivo, minucioso e às vezes impiedoso. André Mendonça, ao lembrar-se de Habacuque, não é da vingança ou da resignação cínica, mas da confiança paciente.



BS20260618063032.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/18/recondo-e-os-onze-mendonca-e-gilmar-entre-o-velho-e-o-novo-testamento.ghtml

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