POLÍTICA

Redução da maioridade, ‘não sabia’ sobre o Bolsa Família, festas de Vorcaro: a entrevista de Lula à Globo em seis pontos

16 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

A uma semana do segundo turno, presidente defende medidas como o fim da escala 6×1, usa tom apaziguador ao falar sobre Trump e faz mea-culpa sobre erros na campanha

Presidente Lula durante sabatina da TV Globo. – Foto: Reprodução

Na primeira das entrevistas da TV Globo com os candidatos que disputam o segundo turno da eleição presidencial, na noite desta quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um mea-culpa por dificuldades na própria taxa de aprovação e, distanciando-se de posições históricas de seu partido, disse ser favorável à redução da maioridade penal.

Lula também defendeu que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) citados por suposto envolvimento com o Banco Master sejam julgados “na mesma sessão”, e criticou o diretor-geral da Polícia Federal (PF) em seu governo, Andrei Rodrigues, por ter participado de eventos com o banqueiro Daniel Vorcaro. Veja a seguir os principais pontos da entrevista:

1. Redução da maioridade para 16 anos

Questionado sobre a discussão de reduzir a maioridade penal, que se tornou um empecilho para a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública no Senado, Lula se manifestou de forma favorável à ideia. O senador governista e ex-ministro Camilo Santana (PT) apresentou uma emenda à PEC propondo diminuir a maioridade para 16 anos, no caso de crimes hediondos, o que dividiu a base do governo no Senado.

— Em todo e qualquer crime hediondo eu sou a favor de reduzir a maioridade penal (…) Eu acho que a sociedade brasileira inteira é a favor — disse Lula.

O presidente, porém, criticou a tentativa de inserir essa discussão no contexto desta PEC e afirmou discordar de uma proposta do PL, partido de Flávio Bolsonaro, de reduzir a maioridade para 14 anos.

Lula voltou a argumentar que a aprovação da PEC é necessária para ampliar a atuação do governo federal na área, com a criação de um Ministério da Segurança Pública — uma das promessas de campanha de Lula na última eleição e que não foi cumprida.

— Quero participar da segurança pública com muita força. Vamos financiar 138 presídios de segurança máxima, para evitar que os bandidos continuem comandando o crime de dentro da cadeia.

2. Crítica a diretor da PF

Durante a entrevista, Lula afirmou ter chamado o diretor-geral da PF Andrei Rodrigues para uma conversa após saber de sua participação em uma degustação de uísque promovida por Vorcaro no exterior. Embora tenha dito que Rodrigues faz “um grande trabalho” na corporação, Lula disse que “não se convenceu” com as explicações do diretor da PF para ter se encontrado com Vorcaro.

— Quando eu fiquei sabendo que ele tinha ido a Londres, eu chamei ele a atenção de que o papel de diretor da Polícia Federal não permite isso. Ele me deu uma explicação, não foi convincente para mim, ele não precisava ter ido. Aliás, ninguém precisava ter ido naquela festa — afirmou Lula.

Em mais de um momento, o presidente lamentou relatos de “orgias” e noitadas com mulheres envolvendo ministros do Supremo — em referência velada ao atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, citado em conversas no celular de Vorcaro nesse tipo de situação.

3. Desagravo a Moraes

Na entrevista, Lula voltou a defender a adoção de mandato para ministros do STF, como parte de uma “reforma ética” no tribunal, e fez um rápido desagravo ao ministro Alexandre de Moraes, alvo de um pedido de investigação na Corte que busca apurar diálogos mantidos com Vorcaro.

O presidente aproveitou para mencionar uma operação deflagrada ontem pela PF, e autorizada por Moraes, que prendeu o deputado estadual eleito Márcio Canella (União) por suposto envolvimento com facções criminosas.

— Querem cassar o Alexandre de Moraes não é pelo Banco Master apenas, é porque o Moraes prendeu o pai do Flávio Bolsonaro. E hoje a Polícia Federal esteve no Rio de Janeiro atacando uma pessoa importante no grupo do Bolsonaro, o Canella, que ia ser candidato ao Senado tendo a mãe do Flávio Bolsonaro como suplente — afirmou Lula.

O presidente minimizou o fato de ele mesmo ter se reunido com Vorcaro, e disse ser procurado por diversos banqueiros. E defendeu a continuidade de apurações envolvendo as relações de ministros do Supremo com o dono do Master, citando nomes indicados à Corte pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, como Nunes Marques e André Mendonça.

— (O ministro Dias) Toffoli também está implicado, o André Mendonça também está implicado, o Kassio está implicado. Então está todo mundo implicado, (…) a denúncia paira sobre todos — argumentou.

4. ‘Inexplicável’ não reajustar Bolsa Família

Lula também foi questionado sobre o anúncio de reajuste do Bolsa Família às vésperas do primeiro turno, mesmo depois de o governo ter enviado a proposta orçamentária do próximo ano sem essa previsão. A medida vem sendo considerada parte de um pacote de bondades oferecido por Lula de olho na reeleição, que inclui o perdão de dívidas de microempreendedores individuais e o anúncio de tarifa zero no transporte público nos fins de semana.

Na entrevista, Lula argumentou que propostas como a da tarifa zero e o fim da escala 6×1 são “medidas de governo”, e não meramente eleitoreiras. O presidente alegou que decidiu reajustar o Bolsa Família por ter tomado conhecimento, em uma reunião com ministros, de que o valor do benefício não havia sido corrigido pela inflação no atual mandato.

— Você não queira saber o que eu disse aos meus ministros quando soube disso. É inexplicável que em um governo do Lula não se pense em reajustar o salário das pessoas pela inflação. Mas aconteceu — disse.

O presidente criticou o discurso de preocupação com ajuste fiscal, e argumentou que a solução para isto é “a economia crescer”.

5. Mea-culpa sobre campanha

Com dificuldades para fazer com que a taxa de aprovação a seu governo supere a desaprovação, Lula fez um mea-culpa sobre problemas de sua campanha. O presidente reconheceu não ter conseguido convencer o eleitorado, até agora, sobre o que considera ser um legado positivo de seu atual governo na economia.

Embora tenha recorrido ao discurso de “herança maldita” em relação à situação deixada pelo governo Bolsonaro, Lula também chamou a responsabilidade para si.

— Tudo é responsabilidade minha. Eu sou o governo, se eu não conseguir ser compreendido pela sociedade não posso jogar a culpa em ninguém. O povo votou em mim com a cabeça no final do meu mandato em 2010, quando vivíamos um momento de ouro. Mas quando assumi, quase tudo estava desmontado nesse país — alegou.

6. Tom apaziguador sobre Trump

Embora a defesa da soberania nacional seja uma das principais bandeiras de sua campanha, que busca se contrapor ao governo de Donald Trump e associá-lo a Flávio Bolsonaro, Lula evitou na entrevista de ontem adotar uma postura bélica com os EUA. O presidente afirmou ter relação “civilizada” com Trump, disse que segue negociando os termos do tarifaço dos EUA e que não deseja aplicar a lei de reciprocidade contra o americano.

A entrevista desta quinta-feira marcou uma das últimas oportunidades de os candidatos à Presidência apresentarem suas propostas ao eleitorado em rede nacional nesta campanha; hoje à noite será a vez de Flávio Bolsonaro. Ambos devem se encontrar ainda nos debates da TV Band, no domingo, e no da TV Globo, na próxima sexta-feira.

BS20261016110518.1 – https://extra.globo.com/politica/noticia/2026/10/reducao-da-maioridade-nao-sabia-sobre-o-bolsa-familia-festas-de-vorcaro-a-entrevista-de-lula-a-globo-em-seis-pontos.ghtml

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