POLÍTICA

Revogação de visto de embaixadora faz crise entre Brasil e EUA atingir patamar inédito, avaliam especialistas

5 de agosto, 2026 | Por: Agência O Globo

Decisão foi anunciada como uma retaliação das autoridades americanas a demora do governo brasileiro em aceitar nome de Daniel Perez para embaixada em Brasília

A embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, durante sabatina no Senado — Foto: José Cruz/Agência Senado/06-12-2012

Anunciada nesta terça-feira, a decisão do governo dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington coloca a crise diplomática entre os dois países em patamar inédito, avaliam especialistas em Relações Internacionais e diplomatas. A revogação foi uma retaliação pela demora das autoridades brasileiras em anunciar que aceitavam o nome do deputado estadual da Flórida Daniel Perez para assumir a representação diplomática americana em Brasília, prática conhecida como agrément.

— Estamos diante de um reforço do fato de que nós estamos vivendo o pior momento das relações Brasil e Estados Unidos na história, o que já vem desde o começo dessa nova administração Trump. Houve um pequeno hiato, com a lua de mel entre Lula e Trump, mas que durou pouco — diz Carlos Gustavo Poggio, professor de ciência política e especialista em política americana. Ele classifica a decisão americana como “inédita” — O que temos dentro do Departamento de Estado é uma dinâmica bastante forte de tentar punir ou antagonizar o Brasil e, mais do que o país, o governo Lula.

Entre as últimas graves crises entre os dois países, Poggio lista a divulgação de documentos secretos pelo ex-analista da Agência de Segurança Americana (NSA) Edward Snowden, que revelaram episódios de espionagem contra autoridades brasileiras, ainda no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Outra crise foi o choque entre o governo militar de Ernesto Geisel e o governo americano do democrata Jimmy Carter devido a um acordo nuclear firmado entre Brasil e a Alemanha e também à violação de direitos humanos no Brasil. Ele avalia, no entanto, a situação atual como o pior momento da relação bilateral.

— Em certa medida, essa decisão também serve para o governo Trump sinalizar para o resto da América Latina os custos de um governo que não seja, pelo ponto de vista dos americanos, alinhado ideologicamente aos Estados Unidos — diz Poggio. Segundo ele, as crises anteriores se deram “pelo menos por motivos concretos”, diferentemente deste novo choque — A questão da espionagem foi muito pontual e sem grandes consequências.

O entendimento é compartilhado pelo professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, Maurício Santoro. Ele avalia que novos atritos devem continuar a acontecer até as eleições.

— É o pior momento desde a redemocratização. Para encontrar algo parecido teríamos que voltar aos anos 60 e todas as crise que precederam ao golpe no Brasil — avalia. Para o professor, o perfil de Perez foge do tradicional e contribui para a desconfiança do lado brasileiro — Ele é um deputado estadual sem nenhuma experiência diplomática. É um perfil bem complicado ainda mais num momento tão delicado das relações bilaterais.

O nome indicado por Trump para ocupar a embaixada no país é o do republicano Daniel Perez, presidente da Câmara dos Representantes da Flórida desde 2024. O anúncio foi feito no início de junho em um movimento que inverteu o protocolo diplomático. O costume é que o pedido de “agrément” seja feito antes do anúncio oficial. A indicação de Perez já foi aprovada em uma comissão do Senado americano, mas ainda precisa passar pelo plenário da Casa.

O embaixador Rubens Barbosa, que chefiou a representação brasileira em Washington entre 1999 e 2004, afirma que a indicação de Perez foi tratada de maneira “pouco ortodoxa” pelos americanos e avalia que outros fatores podem ter contribuído para a revogação do visto:

— Essa decisão foi motivada não só pela questão do embaixador mas também pelo cancelamento de três vistos de altas autoridades americanas: um assessor do Trump e dois do Departamento de Estado — diz Barbosa. Ele também critica declarações de integrantes do governo que indicaram que a concessão do “agrément” só ocorreria após as eleições — Se ninguém tivesse dito nada sobre o embaixador, ficava sempre a dúvida. Mas o Palácio do Planalto deixou saber que o país só iria liberar após as eleições. Isso contamina.

O embaixador refere-se à decisão do governo brasileiro de proibir a entrada dos americanos Darren Beattie, Riley M. Barnes e Samuel D. Samson no país. Beattie teve o visto revogado em março após vir à público que ele pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, em uma viagem para participar de um evento sobre minerais críticos. Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que o americano só poderia vir ao Brasil após os EUA liberarem os vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua família. Interlocutores no Itamaraty, por sua vez, atribuíram a revogação a informações falsas prestadas pelo assessor de Trump ao solicitar o visto.

As revogações de Barnes e Samson aconteceram em julho. Os dois pretendiam visitar o país com a justificativa oficial de discutir liberdade de expressão no contexto das eleições, mas, segundo o jornal americano The Washington Post, eles iriam questionar a integridade do processo eleitoral. Em abril, uma reportagem do The New York Times descreveu Samson, que ocupa o cargo de secretário-assistente adjunto do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, como nome de Trump para a “guerra cultural de Trump contra a Europa”.

Para o embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero, o governo brasileiro errou ao demorar a confirmar a aceitação de Perez. Segundo ele, o aval deveria ter sido dado em um prazo de três dias, quatro dias a partir do pedido, sem necessidade de aguardar a aprovação pelas autoridades competentes no país de origem. O pedido foi encaminhado ao governo brasileiro no final de junho.

— Não há justificativa para essa demora. Houve erro do lado brasileiro. Todos os países são soberanos para indicar quem eles querem que os represente — disse Ricupero. O diplomata acrescenta: — Não conheço nenhum precedente de revogação de visto de embaixador, embaixadora.

O professor de Relações Internacionais da Florida International University Guilherme Casarões avalia que a decisão americana não apresenta “claro fundamento legal ou clareza estratégica”.

— Parece que o único objetivo é forçar o governo Lula a aceitar rapidamente a indicação de Daniel Perez a assumir a embaixada americana em Brasília. Em certo sentido, essa decisão demonstra que os EUA estão perto de esgotar os instrumentos comerciais, políticos e diplomáticos para pressionar o Brasil.

Casarões lembra ainda de um episódio similiar ocorrido em 2015, quando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu indicou um embaixador para o Brasil pelas redes sociais. Segund ele, a estrategia foi vista como “uma provocação e uma tentativa de criar um fato consumado”.

— Entendo que, nesse caso, o problema do Brasil não era exatamente aceitar o nome de Perez, apesar de suas ligações com Trump e seu aparente desconhecimento sobre o Brasil, mas autorizar sua vinda antes das eleições, tornando-o uma figura que pudesse questionar o processo eleitoral brasileiro, na linha do que vem fazendo o bolsonarismo.



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