
Governo Lula errou em demora para dar aval a novo embaixador dos EUA no Brasil, diz Ricupero
Falta de resposta foi usada como justificativa para cancelamento de visto de embaixadora em Washington

Decisão foi anunciada como uma retaliação das autoridades americanas a demora do governo brasileiro em aceitar nome de Daniel Perez para embaixada em Brasília

Anunciada nesta terça-feira, a decisão do governo dos Estados Unidos de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington coloca a crise diplomática entre os dois países em patamar inédito, avaliam especialistas em Relações Internacionais e diplomatas. A revogação foi uma retaliação pela demora das autoridades brasileiras em anunciar que aceitavam o nome do deputado estadual da Flórida Daniel Perez para assumir a representação diplomática americana em Brasília, prática conhecida como agrément.
— Estamos diante de um reforço do fato de que nós estamos vivendo o pior momento das relações Brasil e Estados Unidos na história, o que já vem desde o começo dessa nova administração Trump. Houve um pequeno hiato, com a lua de mel entre Lula e Trump, mas que durou pouco — diz Carlos Gustavo Poggio, professor de ciência política e especialista em política americana. Ele classifica a decisão americana como “inédita” — O que temos dentro do Departamento de Estado é uma dinâmica bastante forte de tentar punir ou antagonizar o Brasil e, mais do que o país, o governo Lula.
Entre as últimas graves crises entre os dois países, Poggio lista a divulgação de documentos secretos pelo ex-analista da Agência de Segurança Americana (NSA) Edward Snowden, que revelaram episódios de espionagem contra autoridades brasileiras, ainda no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Outra crise foi o choque entre o governo militar de Ernesto Geisel e o governo americano do democrata Jimmy Carter devido a um acordo nuclear firmado entre Brasil e a Alemanha e também à violação de direitos humanos no Brasil. Ele avalia, no entanto, a situação atual como o pior momento da relação bilateral.
— Em certa medida, essa decisão também serve para o governo Trump sinalizar para o resto da América Latina os custos de um governo que não seja, pelo ponto de vista dos americanos, alinhado ideologicamente aos Estados Unidos — diz Poggio. Segundo ele, as crises anteriores se deram “pelo menos por motivos concretos”, diferentemente deste novo choque — A questão da espionagem foi muito pontual e sem grandes consequências.
O entendimento é compartilhado pelo professor de Relações Internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, Maurício Santoro. Ele avalia que novos atritos devem continuar a acontecer até as eleições.
— É o pior momento desde a redemocratização. Para encontrar algo parecido teríamos que voltar aos anos 60 e todas as crise que precederam ao golpe no Brasil — avalia. Para o professor, o perfil de Perez foge do tradicional e contribui para a desconfiança do lado brasileiro — Ele é um deputado estadual sem nenhuma experiência diplomática. É um perfil bem complicado ainda mais num momento tão delicado das relações bilaterais.
O nome indicado por Trump para ocupar a embaixada no país é o do republicano Daniel Perez, presidente da Câmara dos Representantes da Flórida desde 2024. O anúncio foi feito no início de junho em um movimento que inverteu o protocolo diplomático. O costume é que o pedido de “agrément” seja feito antes do anúncio oficial. A indicação de Perez já foi aprovada em uma comissão do Senado americano, mas ainda precisa passar pelo plenário da Casa.
O embaixador Rubens Barbosa, que chefiou a representação brasileira em Washington entre 1999 e 2004, afirma que a indicação de Perez foi tratada de maneira “pouco ortodoxa” pelos americanos e avalia que outros fatores podem ter contribuído para a revogação do visto:
— Essa decisão foi motivada não só pela questão do embaixador mas também pelo cancelamento de três vistos de altas autoridades americanas: um assessor do Trump e dois do Departamento de Estado — diz Barbosa. Ele também critica declarações de integrantes do governo que indicaram que a concessão do “agrément” só ocorreria após as eleições — Se ninguém tivesse dito nada sobre o embaixador, ficava sempre a dúvida. Mas o Palácio do Planalto deixou saber que o país só iria liberar após as eleições. Isso contamina.
O embaixador refere-se à decisão do governo brasileiro de proibir a entrada dos americanos Darren Beattie, Riley M. Barnes e Samuel D. Samson no país. Beattie teve o visto revogado em março após vir à público que ele pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, em uma viagem para participar de um evento sobre minerais críticos. Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que o americano só poderia vir ao Brasil após os EUA liberarem os vistos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e de sua família. Interlocutores no Itamaraty, por sua vez, atribuíram a revogação a informações falsas prestadas pelo assessor de Trump ao solicitar o visto.
As revogações de Barnes e Samson aconteceram em julho. Os dois pretendiam visitar o país com a justificativa oficial de discutir liberdade de expressão no contexto das eleições, mas, segundo o jornal americano The Washington Post, eles iriam questionar a integridade do processo eleitoral. Em abril, uma reportagem do The New York Times descreveu Samson, que ocupa o cargo de secretário-assistente adjunto do Escritório de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, como nome de Trump para a “guerra cultural de Trump contra a Europa”.
Para o embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero, o governo brasileiro errou ao demorar a confirmar a aceitação de Perez. Segundo ele, o aval deveria ter sido dado em um prazo de três dias, quatro dias a partir do pedido, sem necessidade de aguardar a aprovação pelas autoridades competentes no país de origem. O pedido foi encaminhado ao governo brasileiro no final de junho.
— Não há justificativa para essa demora. Houve erro do lado brasileiro. Todos os países são soberanos para indicar quem eles querem que os represente — disse Ricupero. O diplomata acrescenta: — Não conheço nenhum precedente de revogação de visto de embaixador, embaixadora.
O professor de Relações Internacionais da Florida International University Guilherme Casarões avalia que a decisão americana não apresenta “claro fundamento legal ou clareza estratégica”.
— Parece que o único objetivo é forçar o governo Lula a aceitar rapidamente a indicação de Daniel Perez a assumir a embaixada americana em Brasília. Em certo sentido, essa decisão demonstra que os EUA estão perto de esgotar os instrumentos comerciais, políticos e diplomáticos para pressionar o Brasil.
Casarões lembra ainda de um episódio similiar ocorrido em 2015, quando o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu indicou um embaixador para o Brasil pelas redes sociais. Segund ele, a estrategia foi vista como “uma provocação e uma tentativa de criar um fato consumado”.
— Entendo que, nesse caso, o problema do Brasil não era exatamente aceitar o nome de Perez, apesar de suas ligações com Trump e seu aparente desconhecimento sobre o Brasil, mas autorizar sua vinda antes das eleições, tornando-o uma figura que pudesse questionar o processo eleitoral brasileiro, na linha do que vem fazendo o bolsonarismo.
BS20260804234541.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/08/04/revogacao-de-visto-de-embaixadora-faz-crise-entre-brasil-e-eua-atingir-patamar-inedito-avaliam-especialistas.ghtml

Falta de resposta foi usada como justificativa para cancelamento de visto de embaixadora em Washington

Governo brasileiro, porém, afirmou que as justificativas apresentadas são “falsas” e atribuiu o ato a um “interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”

Departamento de Estado afirmou que a medida é uma resposta à demora do governo brasileiro em conceder o aval diplomático a indicado pra embaixada em Brasília

Com a decisão, embaixador brasileiro não voltará para Buenos Aires
