Siron Franco: ‘Quando você cria um conceito, se prende a uma camisa de força’
17 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Prestes a completar 79 anos, pintor e escultor tem seis décadas de obras revistas por mostra em Goiânia e por livro recém-lançado, que destacam séries icônicas como a dedicada ao acidente com o Césio-137
Pintor e escultor Siron Franco – Foto: @sironfranco / Instagram
A pouco mais de um mês seu aniversário de 79 anos, em 25 de julho, Siron Franco se confronta com suas seis décadas de carreira, por meio das 140 obras produzidas entre os anos 1960 e 1980 que integram a panorâmica “Expressões”, em cartaz até o dia 30 do mês que vem na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia (GO), e a recente publicação do livro “Pensamento insubordinado” (Sesc/Instituto TeArt), reunindo suas principais séries. De modo semelhante, o pintor e escultor se cerca de seu trabalho em seu ateliê formado por dois galpões em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital, onde pilhas de telas encostadas às paredes por vezes ganham retoques anos (ou décadas) depois de serem finalizadas. Dividindo-se entre o estado natal e a cidade de São Paulo, Siron dorme numa barraca modelo iglu, no centro de um dos galpões, na companhia de três cães e um gato, além de pinturas, esculturas, mapotecas repletas de desenhos e projetos. A proximidade com as obras lhe permite começar a trabalhar logo após tomar café pela manhã, ou durante a madrugada, quando costuma perder o sono.
— Meu pai me levava para o Mato Grosso, no Pantanal mesmo, e a gente dormia em barracas, mas daquelas bem menores. Gosto de dormir assim, é uma coisa meio uterina. Durmo num tatame lá dentro, prefiro do que na cama — conta Siron. — O tempo todo eu fico desenhando, pintando, gosto de ter as obras por perto para trabalhar nelas. Às vezes, o sol batendo numa tela me dá uma solução que não tinha pensado. Gasto muito pouco, então prefiro ter o meu trabalho comigo a dinheiro. Isso é o que eu guardo.
As obras que, ao longo das décadas, passaram a outras mãos fizeram do goiano um nome com forte presença em coleções particulares e acervos institucionais, a exemplo do MoMa de Nova York, a Universidade de Essex (Inglaterra), o Marco (Monterrey Museum of Contemporary Art) do México, o MAM do Rio e de São Paulo, entre outros. A mostra em cartaz em Goiânia teve origem em um recorte na coleção de seu idealizador, Leopoldo Veiga Jardim, diretor regional do Sesc/Senac Goiás, mas às 20 obras selecionadas inicialmente foram adicionadas mais uma centena, vindas de coleções privadas. A seleção passa por séries que abordam questões relacionadas à ditadura militar, aos problemas ambientais, ao feminicídio (com as célebres Madonas produzidas nos anos 1970 e 1980) ou à guerra — seja na releitura de 1986 de “Guernica” (1937), de Pablo Picasso, ou na instalação “Notícias internacionais” (2026), formada por cabeças de manequins penduradas sobre uma bacia de metal, onde repousa um bebê de plástico sobre cápsulas deflagradas.
— Todas as obras causam incômodo, provocam uma reflexão. O intuito é esse. A exposição não tem uma ordem cronológica ou uma divisão mais acadêmica, a ideia é deixar aflorar a emoção provocada pelas obras. Você olha e percebe que a arte pode transformar por completo uma vida — comenta Jardim.
Dentre os conjuntos icônicos destacados na mostra, a exemplo de “Fábulas de horror”, apresentada na 13ª Bienal de São Paulo (1975), está a “Série Césio”, que se tornou uma das mais conhecidas do artista no mundo ao denunciar os efeitos do acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido na capital goiana em setembro de 1987. Com quatro telas da coleção do editor Charles Cosac na mostra, representando as quatro vítimas fatais, a série tem a terra da cidade entre os materiais utilizados nas obras — o artista cresceu na Rua 57, no Setor Central, a mesma em que uma das cápsulas com o material radioativo foi aberta.
— Usei a terra porque, na época (da quarentena pós-acidente radiológico), ninguém queria comprar nada de Goiás. Carros com placa de Goiânia eram hostilizados fora daqui. Foi minha resposta a isso. Tenho um projeto até hoje de um memorial para o bairro, mas que nunca foi construído — ressalta o artista, dizendo que se manifesta por meio do suas obras contra questões que o afligem. — É uma catarse. Sinto que preciso pintar, como um atleta que sai para correr.
Organizado por Ángel Calvo Ulloa, o livro “Pensamento insubordinado” aborda trabalhos de Siron Franco desde os anos 1960 até a produção recente, como a que responde aos ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Com textos de Andrea Giunta, Charles Cosac, Lucia Bertazzo e Paulo Herkenhoff, além do próprio Ulloa, o projeto teve início na exposição de mesmo nome, em 2023, dividida entre a Cerrado Galeria de Arte, de Brasília (DF), e o Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC), de Goiânia.
O título da publicação vem de um texto do próprio artista sobre sua trajetória, respondendo a questionamentos sobre o trânsito por diferentes temas e estilos: “Eu nunca fiquei ligado às correntes porque as correntes só prendem; por isso tenho o pensamento insubordinado. A insubordinação pode trazer o novo”.
— Os meus professores ficavam grilados, falavam que eu não tinha personalidade. Eu entendi que eles tinham razão. Não tenho uma personalidade, quero descobrir várias outras. Quero ampliar, botar para fora outros pintores que ainda não conheço. “Pensamento insubordinado” tem a ver com isso — comenta Siron. — O Millôr (Fernandes) me ajudou muito nisso, quando dizia “Enfim, um escritor sem estilo”. Quando você cria um conceito, se prende a uma camisa de força. Quero dar oportunidade a outros seres dentro de mim.
As muitas manifestações do artista continuam surgindo diariamente no atelier, como na série inédita “Branco de medo”, iniciada na pandemia de Covid-19, com telas brancas com expressões faciais pintadas em cores claras, como se as figuras retratadas desaparecessem.
Enquanto mantém a obra em constante crescimento, o artista quer resguardar o acervo que mantém em um instituto que planeja inaugurar na capital goiana em 2027, quando vai completar 80 anos de idade:
— Já tem um imóvel, a ideia é deixar esse material lá, para o público ter acesso. Sou o caçula (de 13 irmãos) e estou chegando nos 80 anos. Mas a minha família é de dinossauros, meu pai morreu com 105 anos. Ainda tenho muito para fazer.
* Nelson Gobbi viajou a convite da organização da exposição