CULTURA

Vanguardas europeias são debatidas no curso Modernismo, do Sesc Cultural

28 de outubro, 2026 | Por: Sesc-DF

Vera Pugliese comanda encontro que traz a reflexão das correntes artísticas estrangeiras no Brasil

Foto: Divulgação/ Sesc-DF

O curso Modernismo na História da Arte Brasileira segue a jornada de rediscussão e aprofundamento estético em seu segundo encontro. No dia 31 de outubro, das 10h às 13h, no Teatro Silvio Barbato (Setor Comercial Sul), a pesquisadora Vera Pugliese (professora da Universidade de Brasília – UnB) propõe uma análise crítica sobre os mecanismos de poder que estruturaram o campo artístico do país. O ingresso é gratuito e distribuído meia hora antes no foyer do teatro. Quem participar de três encontros recebe um certificado reconhecido pelo Ministério da Cultura.

Nesse módulo, o centro das atenções recai sobre a contribuição das vanguardas europeias — como o Expressionismo, o Cubismo, o Futurismo e o Surrealismo — e de que maneira o Brasil se apropriou criticamente dessas correntes. A partir do conceito de antropofagia, difundido fortemente nas primeiras décadas do século 20, os modernistas brasileiros “deglutiram” as inovações estrangeiras para articulá-las com temas locais, a paisagem nacional e as raízes indígenas e afro-brasileiras. “O interessante é que quando nós temos o os conceitos do modernismo no Brasil se difundindo entre os anos 1920 e 1930, na Europa já havia uma retomada pela ordem após a radicalidade das vanguardas. Há uma contradição forte entre esses movimentos”, observa Vera Pugliese.  

Artistas históricos

Figuras fundamentais desse processo, os artistas Lasar Segall (1889-1957) e Anita Malfatti (1889-1964), por exemplo, trouxeram para o Brasil a carga expressiva dessas vanguardas em viagens à Europa aos Estados Unidos, tensionando tradições acadêmicas por meio de cores puras, deformações expressivas e quebras formais. Enquanto Anita atuou como o estopim de ruptura com sua exposição de 1917, Segall estabeleceu pontes profundas com o expressionismo alemão, em 1913. antes de se integrar à densidade social e à luz tropical do Brasil. “Nas diferentes ondas de recepção do modernismo no Brasil, como o Tropicalismo, houve uma emulação de brasilidade e um efeito legitimador de cada tempo, ainda que gere controvérsias. E esse projeto estético e ideológico acabou sendo usado politicamente, numa tentativa afirmar o projeto estético de um Brasil moderno e republicano. O que interessa investigar é como o Brasil deglutiu e devolveu essas contribuições ao mundo”, aponta Vera Pugliese.

O grande diferencial desta etapa do curso reside na provocação teórica proposta por Vera Pugliese a partir da pergunta: Quais foram as regras historiográficas que definiram o que virou arte oficial e o que foi relegado à periferia?

As respostas são múltiplas e complexas. Um caminho é pensar que a história da arte tradicionalmente operou por meio de filtros ideológicos e geopolíticos que elegeram determinados centros (como o eixo Rio-São Paulo e narrativas hegemônicas específicas) como os únicos detentores da modernidade e da legitimidade estética. Nesse processo de canonização, manifestações regionais, artistas marginalizados por recortes de gênero, classe, etnia ou raça, acabaram empurrados para as margens da história oficial.

Projeto Educativo

Participam do curso do Sesc Cultural 15 professores selecionados da rede Sesc de ensino (EduSesc) que integram um grupo de trabalho para aplicar os conceitos discutidos do curso de Modernismo em novas propostas metodológicas para sala de aula. O tema integra o currículo das escolas do Distrito Federal pelo fato de o projeto modernista de Brasília ser tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade. O Programa Educativo é um dos pilares do Sesc Cultural, cuja sede, na 511 Norte, entra em processo de reforma em 2027. O primeiro encontro do curso foi comandado pela historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz e reuniu uma plateia de 100 pessoas. 

SERVIÇO

O quê: Curso presencial Modernismo na História da Arte Brasileira.

Local: Teatro Silvio Barbato – Setor Comercial Sul

Horário: Dia 31.10 – encontro com Vera Pugliese das 10h às 13h.

Ingressos: gratuitos com distribuição meia hora antes no foyer do Teatro Silvio Barbato (sujeito à lotação).

PRÓXIMOS ENCONTROS

14/11 – Modernismos em Brasília (Graça Ramos)
Aborda Brasília como a consolidação prática dos conceitos modernos em formato urbano, artístico e cultural. Investiga os vínculos entre arquitetura, literatura e artes visuais na criação da capital federal como ícone de um projeto político e nacional. A análise interdisciplinar busca entender a cidade como um espaço de reinvenção das metas modernistas.

28/11 – Outros Modernismos (Renata Felinto e Naine Terena)
Propõe uma revisão crítica sobre como a população negra e os povos indígenas foram retratados no imaginário modernista nacional. Debate os atritos entre visibilidade, apropriação cultural e exclusão histórica. O encerramento usa a arte contemporânea para expandir o cânone oficial e destacar as vozes, experiências e produções que foram marginalizadas no passado.

AS PROFESSORAS-PESQUISADORAS

VERA PUGLIESE – Professora associada do Departamento de Artes Visuais da Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora do CNPq e coordenadora do Laboratório de Teoria e História da Arte. Possui doutorado e mestrado pela UnB, com pós-doutorado na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS).

GRAÇA RAMOS – Jornalista, doutora em História da Arte pela Universidade de Barcelona e mestre em Literatura pela UnB. Atua como pesquisadora, curadora e escritora com foco na produção artística e arquitetônica de Brasília e no patrimônio cultural.

RENATA FELINTO – Artista visual, pesquisadora, curadora e professora. É doutora em Artes Visuais pela Unesp com pós-doutorado na University of Pennsylvania, desenvolvendo trabalhos sobre arte, identidade, memória e diáspora africana.

NAINE TERENA – Pesquisadora, curadora, educadora e ativista do povo Terena. Atua na promoção da arte indígena contemporânea, articulando projetos sobre memória, território, direitos indígenas e perspectivas decoloniais.

Sobre o Sesc Cultural

O Sesc Cultural será um complexo de quase de 10 mil metros quadrados na Quadra 511 da Asa Norte, em Brasília, com obras previstas para iniciar em 2027 a partir da revitalização de uma estrutura abandonada por quase duas décadas. Projetado originalmente na década de 1970 por João Filgueiras Lima, o Lelé, o edifício histórico ganha nova vida por meio de um projeto de Marcelo Ferraz, arquiteto discípulo da tradição de Lina Bo Bardi, que preserva a construção original e adiciona uma expansão contemporânea em forma de cubo de concreto rosa rotacionado a 45 graus. O espaço multifuncional reunirá teatro, salas de oficinas, laboratório de arte e tecnologia, jardim de esculturas, espaços expositivos, áreas dedicadas à primeira infância, além de restaurante, cafeteria, loja e zonas de convivência.

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