Vantagem de Lula na Quaest preocupa aliados de Flávio, e campanha aposta em reação com o fim do pacote de benesses do governo
15 de julho, 2026
| Por: Agência O Globo
Levantamento mostra o presidente com 45% das intenções de voto no segundo turno, contra 37% do senador
O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro Montagem/Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil – Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira causou preocupação em aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Mais do que a manutenção da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno, integrantes do PL avaliam que o levantamento consolidou, pela primeira vez, os efeitos eleitorais de uma sequência de crises enfrentadas pela candidatura desde maio e reforçou a necessidade de ajustes na condução da campanha.
O levantamento mostrou Lula com 45% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 37% de Flávio. Outro dado que chamou a atenção do entorno do pré-candidato foi a mudança na curva de rejeição de ambos: enquanto a do petista passou de 55% em abril para 50% em julho, a de Flávio subiu de 52% para 57% no mesmo período, tornando o senador o presidenciável mais rejeitado entre os nomes testados.
Na avaliação de interlocutores de Flávio, a pesquisa sintetiza um período de turbulência vivido pela pré-campanha. Em maio, antes da revelação da relação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro no episódio envolvendo o financiamento do filme Dark Horse, a Quaest mostrava Lula e Flávio tecnicamente empatados em uma simulação de segundo turno. Desde então, porém, uma sucessão de episódios considerados prejudiciais a Flávio passou a tomar a agenda da campanha.
Primeiro veio o desgaste provocado pelo caso Dark Horse, que colocou o senador na defensiva durante semanas. Depois, a campanha passou a conviver com críticas públicas de aliados de Eduardo Bolsonaro à condução da estratégia eleitoral, questionamentos sobre a comunicação e a organização da pré-campanha, a crise aberta com Michelle Bolsonaro e, por fim, a repercussão da viagem de Flávio aos Estados Unidos em meio ao tarifaço anunciado pelo governo americano sobre produtos brasileiros.
Nos bastidores, a avaliação é que uma crise acabou se sobrepondo à outra, impedindo que a campanha conseguisse virar a página e recolocar o senador no centro da agenda política.
Embora não haja, neste momento, qualquer discussão sobre mudanças na coordenação da campanha, aliados defendem que o senador intensifique o diálogo com dirigentes partidários, parlamentares e lideranças regionais, além de ampliar a articulação política. Um interlocutor de Flávio afirma que está na hora de o pré-candidato “trabalhar mais”, ouvir os aliados e demonstrar mais “humildade” na condução da campanha.
Outro aliado faz uma avaliação similar e diz que a campanha enfrenta problemas de organização. Na avaliação dele, a estrutura precisa ser reorganizada e ter uma leitura mais realista do cenário eleitoral para conseguir reagir ao momento de desgaste apontado pela pesquisa.
Apesar do impacto da pesquisa, aliados descartam mudanças radicais na estratégia da pré-campanha, sob o argumento de que a disputa ainda atravessará diferentes fases até outubro e que há tempo para reverter parte do cenário atual. Afirmam, ainda, que diversos monitoramentos internos da campanha mostram dados mais positivos.
Um ponto, porém, reúne consenso entre o entorno do presidenciável: o desgaste provocado pela crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
A Quaest mostrou que 45% dos entrevistados consideram que a madrasta de Flávio acertou ao divulgar o vídeo em que criticou publicamente o enteado, enquanto 38% afirmaram que ela errou. Além disso, 42% disseram concordar mais com Michelle no episódio, contra apenas 18% que declararam apoiar Flávio.
Reservadamente, integrantes da campanha admitem que esse foi o episódio de maior impacto político das últimas semanas. A avaliação é que a crise atingiu principalmente o eleitorado feminino, mas também teve reflexos entre evangélicos, segmentos em que Michelle é uma das principais lideranças do campo bolsonarista.
Desde que a crise veio a público, Flávio passou a intensificar agendas voltadas a esses segmentos. Nesta quinta-feira, o senador lança o programa Brasil por Elas, uma série de propostas para mulheres e que passa a ocupar posição central na estratégia da campanha para tentar recuperar parte desse eleitorado.
Outro dado acompanhado com preocupação está relacionado aos eleitores independentes, que são alvos das duas campanhas: a aprovação a Lula nesse recorte passou de 32% em abril, antes dos desgastes sucessivos de Flávio, para 45% em julho. Já a desaprovação foi em sentido contrário e caiu de 58% a 45% no período.
Apesar do diagnóstico de que a pesquisa exige ajustes na condução da campanha, aliados demonstram confiança de que o cenário ainda pode ser revertido. O senador Izalci Lucas (PL-DF), por exemplo, afirmou acreditar que Flávio pode vencer no segundo turno porque “ ninguém aguenta mais o PT no governo”.
Apesar do ambiente de preocupação, aliados acreditam que há fatores capazes de alterar o cenário nos próximos meses. O principal deles é o fim da intensa agenda institucional do presidente Lula.
A avaliação é que a melhora recente dos índices do presidente foi impulsionada, em parte, pelas benesses distribuídas pelo governo e a sequência de inaugurações, lançamentos de programas e anúncios de investimentos promovidos pelo governo antes do início das restrições impostas pela legislação eleitoral a candidatos que ocupam cargos públicos, o chamado “defeso eleitoral”.
Nos bastidores, integrantes da campanha apostam que, com menos espaço para esse tipo de agenda, Lula poderá perder parte da exposição que contribuiu para a recuperação de sua popularidade e voltar a enfrentar uma alta da rejeição.
Integrantes da campanha atribuem parte da recuperação de Lula nas pesquisas ao conjunto de medidas econômicas anunciadas pelo governo nos últimos meses, especialmente aquelas voltadas à ampliação do crédito e da renda. Entre elas estão a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, diferentes versões do Desenrola, programas como Gás do Povo e Luz do Povo e novas linhas de crédito.
A pesquisa mostrou, por exemplo, que 35% dos entrevistados afirmaram que o Desenrola 2.0 aumentou significativamente sua renda. A expectativa agora é que, com o fim dessa vitrine institucional, a disputa passe a depender mais da campanha nas ruas e da comparação entre os candidatos do que da agenda de governo.
Outra aposta da campanha está nas disputas regionais, com uma melhora na performance de Flávio em estados considerados estratégicos. A expectativa é puxada por candidatos da base com chance de vencer em primeiro turno, como Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) em São Paulo.
Além das estratégias de recuperação, a campanha também identificou alguns dados da pesquisa que considera favoráveis ao discurso que pretende adotar nos próximos meses. Um deles é a percepção do eleitorado sobre a investigação envolvendo o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado e alvo da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF).
Segundo a Quaest, 61% dos entrevistados consideram que Jaques Wagner agiu de forma errada no caso Banco Master. Também há 37% que veem um impacto “muito negativo” na campanha de Lula. Além disso, 43% classificam o episódio como uma questão institucional do governo Lula, enquanto 35% o veem como um problema pessoal do senador.
Nos bastidores, aliados de Flávio avaliam que esses números abrem espaço para intensificar ataques ao governo durante a campanha e deslocar parte do debate sobre o Banco Master para o Palácio do Planalto, com o caso de Jaques Wagner representando um flanco para desgastar Lula, sobretudo após semanas em que o foco das discussões esteve concentrado sobre a relação de Flávio com Daniel Vorcaro.