
Vorcaro diz em depoimento ao STF que fica ‘desconfortável’ em firmar delação com a PF: ‘Tinha relação com diretor-geral’
Andrei Rodrigues nega relação de proximidade e disse que só esteve uma vez com o banqueiro
Dono do Banco Master prestou esclarecimentos o gabinete do ministro André Mendonça

O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou em depoimento ao Supremo Tribunal Federal (STF) que recebeu ameaças enquanto negociava o acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal, que acabou sendo rejeitado pela corporação. O dono do Banco Master afirmou ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso, que as ameaças eram no sentido de impedir que ele colaborasse.
— Durante esse período da colaboração, por diversas vezes, diversos interlocutores e advogados me passavam mensagens, enquanto eu estava construindo ali a colaboração. De que eu não deveria seguir nesse caminho, de que as pessoas estavam falando que eu deveria ficar quieto, porque eu tinha família, que tinha não sei o quê, que iria piorar a situação. ʺSe você continuar nisso, vai piorar a situaçãoʺ — disse Vorcaro.
O banqueiro, que está preso na Papudinha, em Brasília, afirmou que de fato a sua situação piorou enquanto negociava uma delação.
— Depois disso, meu pai foi preso, meu primo foi preso, eu tinha mais exposição. Foi criada uma narrativa, que eu vou contar para vocês agora, que não é verdade — afirmou.
Vorcaro foi preso em São Paulo, na noite do dia 17 de novembro do ano passado. Ele contou neste depoimento que no transporte para Brasília, ouviu algumas falas como “Tá vendo? Quer mexer com… querer mexer com… querer mexer com os patrões, agora sua vida vai virar um inferno.ʺ
—Nesse momento eu estava me dirigindo à Penitenciária Federal, que, me desculpe, doutor, eu sei que a decisão proferida pelo gabinete era no interesse de me resguardar, resguardar a minha vida, mas o pedido da Polícia Federal não foi para isso. O pedido foi para me deixar calado, trancafiado e isolado, inclusive dos meus advogados. Eu fiquei quase dez dias sem conseguir ter acesso até mesmo a advogados — contou.
A audiência, revelada pela colunista Bela Megale, do GLOBO, durou cerca de 1h40, ocorreu em 27 de agosto e não contou com a presença de nenhum integrante da PF. A interlocutores, Andrei Rodrigues afirmou que só esteve com Vorcaro uma vez e nega uma relação de proximidade.
No depoimento, Vorcaro alegou ter sofrido ameaças durante sua prisão porque, nos últimos dois anos, tinha uma “relação do núcleo de poder atual, incluindo a própria Polícia Federal”. Indagado pelo juiz do gabinete de Mendonça que conduziu o procedimento sobre o diretor-geral da PF, Vorcaro respondeu que teve uma “relação cordial” com Andrei, que “não chegou a ser uma amizade”.
Em outro momento, ele afirmou:
— Pelo meu entendimento, não há possibilidade de eu prestar uma colaboração cujos fatos envolvam as pessoas que estão escutando a corroboração.
Ainda no depoimento, Vorcaro afirmou que acabou construindo relações com pessoas do atual governo para se proteger de ataques que estava sofrendo. O detento afirmou que em alguns casos, “foram cruzadas linhas de moralidade, linhas de ilicitude”, e que ele pretendia delatar.
Na oitiva, o banqueiro afirmou que tem informações sobre irregularidades praticadas por pessoas que fazem parte do “atual governo”. Pessoas próximas a Vorcaro têm divulgado a ideia de que este é o motivo pelo qual a direção da PF não demonstraria interesse em firmar o acordo, sobretudo em período eleitoral.
Investigadores da PF refutam essa tese, dizendo que ele não relatou nenhum fato novo ou indicou meios de prova que justificassem a utilidade da colaboração premiada.
Integrantes da PF ainda classificaram as declarações sobre “intimidação psicológica” como “fantasias” que fazem parte de uma estratégica dele de fechar uma delação sem a presença da corporação.
Procurada, a Polícia Federal disse que não irá se pronunciar. Procurados, os advogados Daniel Bialski e Sergio Leonardo, que representam Vorcaro, afirmaram que não vão se manifestar.
Em nota, o gabinete de Mendonça disse que o depoimento aconteceu por “requerimento expresso da defesa” de Vorcaro. Segundo o texto, os advogados dele pediram a oitiva sob o pretexto de que ele “relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência”. O gabinete do ministro afirmou que não comentaria o conteúdo da audiência, que “é resguardado por sigilo legal”.
“A presença de representante do Ministério Público em audiências dessa natureza é exigência legal, e foi observada. Quanto à Polícia Federal, as normas do Conselho Nacional de Justiça consagram, como garantia de incolumidade física e psicológica do depoente, o afastamento da equipe policial responsável pela investigação nos atos em que ele é ouvido. Tratando-se de depoimento motivado por relato de graves intimidações, a não convocação de agentes policiais seguiu essa mesma diretriz de proteção, e não qualquer escolha de conveniência do gabinete”, diz a nota enviada pelo gabinete de Mendonça.
BS20260903122651.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/03/vorcaro-diz-que-recebeu-ameacas-enquanto-negociava-delacao-se-continuar-nisso-vai-piorar-a-situacao.ghtml

Andrei Rodrigues nega relação de proximidade e disse que só esteve uma vez com o banqueiro

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