Um repto à elite, os mineiros cordiais e a tragédia do futebol

 

Intelectual atípico

Oded Grajew é empresário atípico, de invulgar sensibilidade social à qual dá consequência em formulações e propostas bem fundamentadas, oportunas. Talvez melhor o descrevesse como intelectual que decidiu ou foi compelido a empreender e por isso distanciou-se, parcial e torço que provisoriamente, da original vocação.

Só o conheço de artigos bissextos na imprensa; ignoro se tem livros publicados, se os houver quero ler. Conquistou lugar destacado no ralo rol de personalidades do meio empresarial que se dedicam a pensar o Brasil, o mundo e dispõem-se a agir conforme o profícuo pensamento, como o fizeram Fernando Gasparian, Severo Gomes, Antônio Ermírio, José Midlin.

Convocação

Lembro-me de artigo que publicou faz tempo, Lula deixara o poder e a sucessora que elegeu dava mostras de que malversaria não só a herança do patrono, também o arcabouço de governabilidade erigido desde a redemocratização de 1985. Grajew percebia o desastre iminente e propôs, a conjurá-lo, um encontro entre o ex-presidente e seu antecessor Fernando Henrique, dois dos mais respeitados líderes políticos do momento; um terceiro, que como disse convocaria à lide, teria sido Itamar Franco, não nos houvesse deixado pouco antes.

Tergiversações

O intelectual-empresário propôs aos possíveis interlocutores algo como termos de referência para a troca de ideias, os quais elegantemente não revelou; chegou a afirmar que ambos concordaram em conversar; depois, silêncio sobre o encontro que não aconteceu.

Soube-se mais tarde – ele próprio teria dito, em particular – que um dos dois impusera condições, glosara a pauta, tergiversara até que a promissora ideia inviabilizasse-se. Mais não disse quando perguntado, mas há quem jure que o convidado renitente foi Lula.

Desigualdade, estupidez

Oded Grajew está de novo em cena com excelente artigo na Folha de S. Paulo, 20.03, na verdade um angustiado repto a seus pares sob o título Carta à elite econômica.

O tema dominante é a desigualdade; depois de alinhar, lamentar as estatísticas que a exibem em toda sua iniquidade e demonstrar como entrava o crescimento e produz pobreza, miséria, ele apela ao mui louvado pragmatismo do empresariado:

“É uma estupidez não construir um mercado interno muito maior.”

 

Sereno, mas duro

Afora algumas frases candentes a desafiar a “elite econômica”, o texto é sereno e infenso a partidarismos, ideologias. Mas Grajew não se furta botar o dedo na ferida que mais nos dói e infecta nestes tempos sombrios:

[…] Vocês ajudaram a eleger um presidente […] que proclamava admiração pela ditadura e tortura, assistiram calados aos desmandos dos dois primeiros anos do governo que nos conduziu à maior calamidade sanitária do mundo e de nossa história.”

A ver como respondem os destinatários ao desafio de um de seus mais ilustres (e ricos) pares.

Cordialidade mineira

Peço desculpas ao leitor e amigo Domingos Sabino Diniz, a cuja cordial mensagem atraso resposta há mais de mês.

Aproximamo-nos, Domingos e eu, graças a seu tio e meu amigo Valdimir Diniz (saudades!…), persona encantada e encantadora – e multifacetada: jornalista, poeta, ficcionista, ensaísta… e técnico em planejamento e pesquisa do Ipea, condição comum em que nos conhecemos.

E além de tudo, bom mineiro, cruzeirense como este velho escriba.

Mecânica, carne e cultura

Não por acaso frequento a Auto Escapamento Diniz na Asa Norte de Brasília, mesmo sem urgente necessidade de seus bons ofícios, só para uns dedos de prosa e desfrute do ambiente azul-estrelado, onde releio excertos da obra de meu amigo emoldurados nas paredes.

Que belo tributo! dos empresários, familiares de Valdimir, à poesia e à cultura, encontrável também em outros empreendimentos brasilienses como o Teatro-Oficina do Perdiz, de rica memória e a atual, admirável iniciativa de Luís Amorim, que espalha livros em paradas de ônibus e promove eventos (só interrompidos pela covid-19) em seu T-Bone Açougue Cultural.

Do café ao boteco

Pois escreveu-me o caríssimo Domingos, a encantar-me com sua verve e generosidade mineiras enquanto suscita lembranças do tio poeta, particularmente de nossos primeiros encontros.

Aconteceram no Ipea, trabalhos partilhados e em seguida, constatada a afinidade que nos irmanaria, conversas nos intervalos para o cafezinho amigo e cigarro que ainda não sabíamos pouco amigo, a que logo se acrescentariam demoradas tertúlias nos botecos da vida, em nossas casas, nas de amigos comuns…

Pai e mestre

Foi na casa do amigo comum Marco Aurélio Pereira que ouvi de Valdimir uma brilhante síntese, bem a seu feitio. Nada a ver com sacadas filosóficas e lucubrações sobre os destinos da nação e demais humanidade, em que às vezes nos arriscávamos; foi só anedota de conversa de botequim no generoso bar do anfitrião, no Park Way, ao qual cheguei justificando atraso de mais que meia hora: estivera retido em reunião de pais e mestres na escola de Inês, também a de nossas duas filhas.

“Você participou na qualidade de pai ou de mestre?” – provocou Ronaldo Junqueira e Valdimir atalhou-me a resposta, a lembrar de que sou pai de cinco filhas e um filho:

“Marco Antônio tem mestrado em paternidade.”

Encontro feliz

Antes, uma feliz coincidência ligar-me-ia ainda mais a Valdimir, fosse preciso (não foi) aprofundar afinidades. Por seu intermédio conheci no Ipea Maria Lúcia Casasanta, depois Bruzzi ao casar-se com o então colega de trabalho e pra sempre meu amigo Francisco Bruzzi.

Pouco mais tarde conheceria na fazenda de Chico e Lúcia sua irmã Inês Casasanta, companheira de metade da vida.

A discutir

Mas devo desculpar-me de novo com Domingos se me perco e encontro-me em digressões, embora desconfie de que gostará delas, em vez de comentar sua rica mensagem.

Generoso na avaliação do que escrevo, ele revela discordar “de alguns pontos de vista exarados” no meu texto da vez, o veiculado em 27 de fevereiro sob o mote “Os desastres inconclusos e os médicos a flertar com a morte”.

Teria gostado de discutir com Domingos as visões em que divergimos; sua opinião é valiosa e o dissenso ser-me-ia tão útil quanto as confluências. Ademais, sugere-me um tema:

– Queria ler algum escrito seu sobre a roubalheira sofrida por nosso Cruzeiro e os dirigentes até hoje tiveram nenhuma penalidade…

Vexame reeditado

Receio decepcioná-lo, amigo; tenho pouca informação concreta, confiável do que terá causado os infortúnios do glorioso Cruzeiro; e não é desgraça pouca: sem mais nem menos o recente bicampeão da série A despenca na segunda divisão, mercê de campanha vexaminosa e reedita o vexame no certame de 2020.

É só a segunda vez nos 50 anos do Campeonato Brasileiro em que um dos grandes descumpre a obrigação de retornar à elite na edição seguinte à derrocada, de preferência campeão B; o antecessor foi o Fluminense.

Desastre na tragédia

Mas não recuso especular sobre o desastre, inserido na mais ampla tragédia de nosso futebol. Não será coincidência que informações sobre a incompetência e-ou corrupção no Cruzeiro e outros clubes sejam sonegadas ao público: os culpados têm ‘costas quentes’, protegidas pelos verdadeiros donos da bola.

Há décadas é assim, parece haver um conluio entre os que mandam no futebol, de um lado e do outro a imprensa que deveria informar dos desmandos de clubes e federações, para esconder erros, crimes e garantir impunidade aos relapsos e criminosos.

Disputa de interesses

Processos, práticas e atores são conhecidos. Dirigentes dos clubes, federações e Cbf encastelam-se a resguardar privilégios e ganhos ilícitos não só esportivos: geralmente predomina o viés econômico, às vezes o político, tudo a sobrepujar os interesses legítimos envolvidos, em particular os do esporte.

Na outra margem do fosso, a erguer ou baixar a ponte levadiça que dá acesso ao castelo, pontifica o complexo que conecta os dirigentes aos ‘cartórios’ econômicos que vicejam em torno e no interior do futebol – patrocinadores das entidades e atletas, redes de tv e grupos outros de mídia detentores de direitos de transmissão e cobertura, ‘empresários’ dos jogadores e clubes, respectivas assessorias jurídicas, de negócios, comunicação… – afora a praga das torcidas ditas ‘organizadas’.

Prejuízo maior

Toda essa extensa e intrincada teia de interesses, em promíscuas relações a alternar conflito e conluio, frauda concorrências que haveriam de conferir alguma racionalidade ao setor, compraz-se na corrupção e os corruptos, a par dos óbvios danos causados pela subtração de recursos, em vez de mirar a eficácia do processo infligem prejuízos ainda maiores ao submeter a gestão a seus interesses.

Nesse quadro não é de estranhar-se que os mais tradicionais clubes brasileiros, com raras exceções, estejam atolados em dívidas. Em indecente contraponto as entidades que os clubes constituem para gerir o futebol e cujos dirigentes elegem – da Cbf e federações estaduais – não têm por que se queixar das contas bancárias.

Gigantes decaídos

Confederação e federações ricas, poderosas e clubes empobrecidos, frágeis – receita pronta para o desastre de que o Cruzeiro é o protagonista mais recente, rebaixado numa temporada e não recuperado na seguinte.

A ele juntam-se dois gigantes nacionais decaídos no Campeonato de 2020, Botafogo e Vasco da Gama, além dos regionalmente importantes Coritiba e Goiás; todos terão que disputar com outros clubes de habitual presença na elite – Náutico, Guarani, Vitória, Ponte Preta, Figueirense, Juventude… – as quatro vagas que reconduzem à série A.

Tudo promete uma disputadíssima segunda divisão, acompanhada por grandes torcidas e também uma briga de foice na escura, crônica penúria dos clubes.

Fazer Europa

Daí seja uma lástima o futebol hoje jogado no Brasil, em comparação com o dos grandes torneios concentrados na Europa.

(Os vergonhosos avanço e recuo de seus clubes mais ricos, em tentativa de fraudar competições, tem nada a ver com qualidade exibida dentro das quatro linhas; ‘cartolas’ poderosos e safados existem lá como cá).

Emergem e evoluem entre nós muitos excelentes jogadores, entre eles alguns craques e até promessas de supercraques (a confirmarem-se alhures), mas dificilmente quem os projeta consegue tê-los por mais que uma temporada – querem ‘fazer Europa’ ou Oriente Médio, China, Japão.

Sistema vicioso

Não os culpemos se aspiram integrar as melhores equipes do mundo, disputar seus pujantes certames e ganhar mais, muito mais do que no estreito mercado do Brasil e América do Sul cujos clubes, coitados!, sobrevivem da ‘exportação’ dos melhores talentos.

É triste, cruel: eles descobrem, preparam bons atletas mas não conseguem mantê-los e assim não preservam bons elencos; sem bons e bem treinados plantéis não ganham títulos internacionais de peso nem mobilizam torcedores; sem torcidas motivadas suas marcas perdem valor e alienam patrocinadores, o que resulta em maior perda de recursos e portanto da condição de possuir equipes vencedoras – eis o círculo vicioso do futebol que já foi o melhor do mundo.

O jogo dos pibs

Não precisava ser assim.

Está errado o conformismo ante o fato supostamente consumado, segundo o qual as metrópoles do futebol, por que mais ricas, subtraem-nos os melhores atletas – uma espécie de imperialismo no esporte.

Pode parecer verdade em relação a China, Japão, Alemanha… mas nós perdemos craques para pibs mais ou menos equivalentes como Espanha, Itália, Reino Unido, França e até muito menores: Ucrânia, Turquia, Grécia, Portugal…

Generalizar e explicar não consola, Domingos, mas divulgar o fenômeno perverso talvez contribua para revertê-lo.

 

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes
(marcoantoniodp@terra.com.br ou marcoantoniodp1941@gmail.com)

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