
VIVER A VIDA
A vida de Ana Loureiro já é uma festa, mas, no dia em que ela troca de idade, se transforma numa espécie de evento oficial no Lago Sul, onde reside.
O presidente acuado e as vacinas que tardam Truque primário Curiosa inversão de valores: quem decide se há democracia ou ditadura são as Forças Armadas, acha Bolsonaro. Então, tá. E passemos a outro assunto; o presidente assustado falou isso, a propósito de nada, só para desviar a atenção da opinião pública de mais desastres …
Truque primário
Curiosa inversão de valores: quem decide se há democracia ou ditadura são as Forças Armadas, acha Bolsonaro.
Então, tá.
E passemos a outro assunto; o presidente assustado falou isso, a propósito de nada, só para desviar a atenção da opinião pública de mais desastres provocados por seu desastrado, desastroso governo.
É um truque primário que o ex-capitão terá descoberto meio por acaso: boquirroto impenitente, em alguns meses de poder deu-se conta (ou alguém por ele) de que cada uma de suas destrambelhadas manifestações provoca reações indignadas e a mais recente acaba por obscurecer as anteriores.
De quebra, todas tiram do foco seus muitos erros e omissões.
Pescando em aquário
Até funcionou um tempo, mas a imprensa percebeu a manobra e agora atribui a tais despautérios o grau de importância que têm: zero.
Por razões análogas repórteres deixaram de frequentar um os principais palcos das pantomimas de Bolsonaro, os ‘cercadinhos’ na portaria do Palácio da Alvorada onde costuma deliciar-se com as bajulações de apoiadores-raiz, adrede convocados e amestrados.
Nessas ‘pescarias em aquário’ ele comprazia-se em falar mal da imprensa, agredir verbalmente e até ameaçar jornalistas, contra os quais açulava ensaiada indignação dos ‘bolsominions’.
Esse gostinho, pelo menos, ele perdeu.
Estado de defesa?!
Não perdeu foi a ajuda de um aliado que não frequenta tais encenações mas nem por isso é menos útil, em sua posição no Ministério Público.
Instado a avaliar o desempenho do governo no enfrentamento da pandemia, investigar-lhe os erros e motivações o procurador geral da República emitiu nota, consta que de próprio punho, na qual afirma que a iniciativa tem nada a ver com ele, compete ao Legislativo.
Pior, fez referência extemporânea à possibilidade de decretação (pelo Executivo) de ‘estado de defesa’, medida que a Constituição prevê, localizadamente e por tempo determinado, em circunstâncias de grave comoção e instabilidade, por exemplo no bojo de catástrofes naturais como a pandemia e eventuais distúrbios que provoque.
Propósitos idênticos
A nota gerou mal-estar entre ministros do Supremo Tribunal Federal e estranhamentos no próprio Mpf. Subprocuradores da República que lhe integram o Conselho Superior divulgaram documento com duras críticas à manifestação do pgR e a entidade que os congrega seguiu a mesma linha.
Resulta do imbróglio a impressão de que haveria, digamos, identidade de propósitos entre o presidente da República e o procurador geral. Não custa lembrar: antes de consumar-lhe a indicação (em desrespeito à lista tríplice votada pela categoria) Bolsonaro declarou, com a habitual incompreensão das instituições de estado e respectivos papéis, que escolheria alguém com que pudesse conversar, tomar umas cervejas.
Pelo jeito, pode.
Presidente acuado
Pode e precisa, conversar com o procurador geral e esperar dele, e de quem mais apareça, alento e socorro nesta hora difícil.
Eu disse que o presidente está assustado? Pois reformulo: está apavorado, acuado, em pânico. Não bastasse o iminente e inevitável acerto de contas dos filhos com a Justiça, ele sofre ataques de todos os lados. Irresponsável, ignorante, charlatão é o mínimo que dele se diz e há os que o chamam psicopata, até genocida.
Vazou em Brasília a informação: assessores palacianos, inclusive militares constatam preocupados os desacertos do governo, a que atribuem a dramática contabilidade de contaminações e mortes pelo coronavírus.
Disso é emblemática a tragédia de Manaus, resultado da omissão e equívocos do governo Bolsonaro e das más escolhas de seu aliado, o governador do Amazonas.
De goleada
O ex-capitão até arriscaria um “E daí?, todo mundo morre um dia” mas não o diz porque só pensa ‘naquilo’: reeleição.
Seu azar é que também neste front está em apuros: perdeu de goleada a disputa com o governador de São Paulo, teve que recuar e aceitar “as vacinas chinesas do Dória” que terminantemente vetara.
E até essas (como as demais alternativas) atrasaram por culpa sua, quando Índia e China deram meia-trava na cooperação que faculta importá-las ou obter o princípio ativo com que produzi-las no Brasil.
Difícil acreditar não se trate de represália aos agravos do ministro Ernesto Araújo, dos filhos do presidente e dele próprio aos chineses e indianos.
Sinais de alarme
O ex-capitão é político – chinfrim, mas político. Aprendeu quase nada em sete mandatos na Câmara dos Deputados (28 anos!), sempre no ‘baixo clero’, mas terá adquirido o senso de sobrevivência que lhe informa os pares.
Por isso a derrota acachapante na ‘batalha das vacinas’ que imagina travar, e justo para um provável rival nas eleições do ano próximo terá disparado todos os alarmes, forçando-o a conter-se.
Mesmo anódinos, os cumprimentos que enviou ao presidente dos Estados Unidos, em conformidade com os protocolos diplomáticos podem indicar outra fase de comedimento, semelhante à que sucedeu a prisão do amigo e faz-tudo Queiroz.
Pesado demais
Mas não terá percebido, o tosco ex-capitão que talvez nem chegue lá, à campanha pela sonhada reeleição.
Multiplicam-se as reivindicações de impeachment e nem dá pra dizer que são coisa da “imprensa inimiga”, variante bolsonária da “imprensa golpista” inventada pelo Pt.
Carlos Ayres Brito, brilhante intelectual e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, não vê outra saída: o presidente está “de costas para a Constituição” e isto não pode continuar.
Movimentos conservadores egressos das insurreições de 2013, decisivos na debacle de Dilma e nas eleições de 2018, retiram-lhe apoio e aprestam-se a voltar às ruas para derrubá-lo.
Até o ‘centrão’ já admite a ideia, mesmo relutantemente: o presidente ficou pesado demais pra carregar.
Assassinato premeditado
E então parece oportuno trazer de volta o voluntarioso (e excelente) panfleto de Elmer Correa Barbosa, cujas denúncias comecei a relatar há duas semanas. Ele é duro, direto e exaustivo:
– O senhor Jair Messias Bolsonaro é criminoso, responsável pela morte de mais de 200 mil brasileiros em assassinato premeditado. Ciente das consequências de suas ações, impediu que se prevenisse a propagação da peste que matou 550 pessoas por dia em 2020.
Delírio? Avaliem
Confesso que às vezes me sabe a profeta da catástrofe, o exímio panfletário; em outras, diria até delirante. No entanto ele fundamenta o que escreve em legislação pertinente e remete-nos a pensadores (de variada extração ideológica) do porte de Cassirer, Spengler, Ibsen, Toynbee; ao papa Leão xiii e sua encíclica Rerum novarum…
Deixo aos leitores a avaliação; tirem as crianças da sala e leiam a nota a seguir.
Genocídio pragmático
– Não bastasse a tentativa de genocídio, o senhor presidente montou uma quadrilha de criminosos: […] um general que embora ignorante em medicina e infectologia assumiu, sabendo dos riscos, […] o Ministério da Saúde, [tudo] com o objetivo de retardar a liberação de vacinas para aumentar o número de mortos e aliviar o déficit da Previdência.
Crime e leniência
Não se iluda quem cogite atribuir a facciosismo de intelectual de esquerda as acusações de Barbosa (que nem sei se é de esquerda): sua metralhadora giratória poupa ninguém, sequer os filósofos que cita – nem o papa!
Tolerância zero ante o poder, tampouco dá refresco àquela entidade perfeita, algo mística a que esquerda e direita costumam chamar ‘povo’:
– A maioria das autoridades no Brasil é criminosa, […] crimes passam despercebidos ou são perdoados a cada eleição porque o brasileiro é leniente e até acha graça das espertezas dos políticos canalhas e os reelege […] ou do juiz condescendente, que perdoa porque é assim que as coisas funcionam […].
Tem mais panfleto de Elmer, porém antes acolho objeções (até apoios!) de outros leitores.
Livre arbítrio
– Não sou favorável ao aborto, porque sou religiosa – escreve-me Thaïs Littieri, a discordar em parte do que escrevi há duas semanas.
Respeito sua opinião, Thaïs, mas inclino-me ao livre arbítrio: a quem é contra assegure-se o direito de assim pensar e agir conforme o que pensa, porém jamais a pretensão de impor em lei seu pensamento.
Por isso aplaudi os legisladores argentinos.
Testemunho
O acadêmico Marcos Formiga renova-me apoio às considerações sobre o Governo Itamar Franco, “do qual foi testemunha e partícipe de nossa história recente” – escreve, e agradeço-lhe o honroso reconhecimento.
– A economia deixou de lado e com sucesso a receita equivocada do Consenso de Washington – acrescenta – e por dois anos e meio tivemos um ministro da Educação nacional de verdade, não apenas ministro das universidades […].
França, soja e boiada
Aquela boutade do presidente francês sobre a soja brasileira foi equivocada mas nem tanto, ele errou ao dizer que se produz sobre os escombros da floresta mas acertou ao identificar relação indireta de causa e efeito.
É o que percebe Lúcio Pontes Matos:
– A França não comprar soja do Brasil não nos afeta, levando-se em consideração o baixo volume de suas importações. Entretanto, Macron tem lá suas razões quanto à influência que o plantio exerce sobre o desmatamento. Nós bem sabemos da vergonhosa devastação da floresta amazônica, em benefício das empresas/indústrias da soja e da pecuária. Como disse nosso ministro do Meio Ambiente: ‘Agora é passar a boiada…’.
Macron no popular
A investida do presidente da França é típica de quem “ouviu o galo cantar mas não soube onde”, como no dito popular. Ou ter-se-á travestido de improvável Caramuru gaulês: “Atirou no que viu, acertou o que não viu”.
Mais provavelmente e ainda no popular, a saber-se que Emanuel Macron fala para (e pelos) agricultores franceses, dependentes de subsídios e protecionismos para sobreviver, ele “bateu na cangalha para o burro ouvir”.
Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes
([email protected] ou [email protected])
A vida de Ana Loureiro já é uma festa, mas, no dia em que ela troca de idade, se transforma numa espécie de evento oficial no Lago Sul, onde reside.
Você tá colhendo tudo que plantou com trabalho, empatia e respeito. Uma pessoa de verdade, de coração puro.
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