ECONOMIA

Alckmin diz que tarifaço de Trump é descabido e que governo terá programa de apoio para empresas

17 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Taxa de 25% atinge US$ 7,4 bilhões em exportações para os Estados Unidos, calcula ministério

O vice-presidente Geraldo Alckmin – Foto : Cadu Gomes/VPR

O vice-presidente Geraldo Alckmin, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e ministros do governo Lula rebateram nesta quinta-feira os argumentos que levaram Estados Unidos a aplicar uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. De acordo com dados apresentados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, com essa nova tarifa, cerca de 18% das exportações brasileiras para os EUA serão atingidas. Isso equivale a US$ 7,4 bilhões, considerando o ano de 2024. Se considerar o valor de 2025, a participação desses setores atingidos pelo tarifaço cai para 15%, ou US$ 5,8 bilhões. O Executivo prepara um programa para socorrer os setores afetados.

– A medida é injusta e descabida – disse o vice-presidente, lembrando que os EUA tem superávit com o Brasil. – Descabida porque argumentos partem de uma base totalmente falsa.

Alckmin disse que o governo vai ajudar empresas atingidas.

– O presidente, o governo do presidente Lula trabalha para apoiar quem trabalha aqui dentro. Quem ajuda o Brasil a crescer e a nossa economia. Então o governo terá um programa de apoio aos que aqui estão labutando, trabalhando e que tenham problemas – disse o vice.

Alckmin reforçou ainda que o governo poderá usar a Lei da Reciprocidade, que permite retaliar países como Estados Unidos. A legislação foi aprovada no ano passado.

— E destacar que nós temos uma lei da reciprocidade aprovada por unanimidade no Congresso Nacional e que governo, no momento adequado, saberá como implementá-la — afirmou Alckmin em coletiva de imprensa na tarde desta quinta-feira — A lei não é retaliatória, não há retaliação, o que é existe é uma lei defendendo o interesse nacional, interesse dos brasileiros, da economia brasileira, que é a reciprocidade, é um instrumento jurídico legal importante que o governo analisará o momento e a forma de fazer — reforçou Alckmin.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o governo já tem prontos os mecanismos para proteger empresas e empregos.

– Ampliaremos e reforçaremos o Brasil Soberano (plano de socorro às empresas) – disse. Alguns setores podem ser afetados, não economia como um todo.

Novos mercados

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, afirmou que as empresas poderão contar com a ajuda do governo de “diferentes modos”. As conversas com os empresários serão conduzidas por ele e pelo ministro da Fazenda já a partir desta segunda-feira.

– O presidente nos pediu que a gente mencionasse claramente que o governo, a partir de agora, tem como prioridade atender e apoiar os setores atingido pela essa injusta, indevida e ilegal tarifação que nos foi imposta. Os setores mais atingidos são basicamente madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados, açúcar. Esses setores poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes modos – afirmou, acrescentando que o governo buscará a diversificação das exportações.

Durante toda a entrevista, os ministros e integrantes do governo rebateram os argumentos dos Estados Unidos para aplicar as tarifas sobre o Brasil. O ministro da Indústria afirmou, por exemplo, que os dois governos fizeram, nas últimas semanas, a cada 10 dias uma reunião de alto nível.

– Em todas as reuniões, discutimos pontos negociáveis e inegociável. Nos afastamos de tudo que poderia afetar a soberania ou grande impacto na indústria brasileira – afirmou, ressaltando que o Brasil não iria negociar temas como o Pix.

Apesar desse tom, o ministro disse que o governo irá continuar na mesa das negociações e pedir mais isenções.

– Seria um grande desrespeito com outros setores atingidos que não voltássemos à mesa de negociação – disse. – Daqui a alguns dias vamos retomar o diálogo.

Críticas ao Pix

A decisão americana foi tomada após a investigação da Seção 301 pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês). A investigação tratava de acusações sobre supostas práticas desleais de comércio e apurava se ações do Brasil, como o uso do Pix, o desmatamento ilegal e a dificuldade dos EUA em ter acesso ao mercado de etanol brasileiro, prejudicariam as empresas americanas.

Por isso, o governo Lula reuniu diversas autoridades para rebater as acusações americanas.

– O argumento contra o Pix é o caso mais flagrante que tentam criar uma lógica para aplicar tarifas – disse Galípolo. – Vamos seguir fornecendo o Pix como algo gratuito, seguro e instantâneo.

Ele afirmou que o cartão cresceu 150% desde a criação do Pix, rebatendo argumentos de que esse sistema teria prejudicado empresas americanas.

– A argumentação seria mais ou menos como tentar dizer que criar saneamento básico comprometeria receita de caminhão-pipa – disse Galípolo. – Pix foi benéfico para quem demanda e para quem oferta.

‘Interferência externa’

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que as tarifas atrapalham o consumidor americano e chamou a taxa de “interferência indevida”.

– A gente precisa colocar em pratos claros que se trata de uma interferência indevida. Essa interferência externa seja ela política, econômica ou uma forma qualquer de constranger o Brasil, as famílias brasileiras, os empresários e os trabalhadores brasileiros. A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos não para atender a um secretário de Estado de outro país.

Desmatamento

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, apontou que os argumentos dos EUA para justificar as tarifas são “absolutamente improcedentes”, “sem fundamento técnico” e não é baseada em “informações comprováveis”.

— No início, o governo norte-americano afirmava que o Brasil tinha o descontrole do desmatamento, que crescia de forma intensa, e isso justificaria essa tarifa. Nós, participamos de várias reuniões, preparamos vários documentos, demonstrando tecnicamente, inclusive usando auditorias independentes, mostrando os avanços da conservação. Na Amazônia, reduzimos 50% do desmatamento nos três últimos anos.

Para o ministro, como os EUA viu que seria “impossível” acusar o Brasil de aumentar o desmatamento, o governo norte-americano surgiu com uma nova informação, de que o Brasil estaria desmatando e enchendo o mercado internacional de madeiras ilegais, prejudicando a participação das empresas americanas neste mercado.

— Isso é absolutamente inverídico. Por dois motivos: o Brasil tem participação muito pequena no mercado internacional de madeira, apenas com 0,65%, segundo, porque nossa madeira não é a mesma produzida nos EUA. Todo parque industrial dos EUA se baseia em madeira de floresta temperada, essa madeira, não compete com as madeiras de florestas tropicais, as chamadas madeiras de lei, que são para outros usos.

Vieira critica Rubio

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também comentou o tema. Afirmou que o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, ataca o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “forma grosseira e arrogante” em declarações “inaceitáveis”. Nas suas redes sociais, Rubio acusou Lula de “não negociar com os EUA de boa-fé”.

De acordo com Vieira, desde o início das negociações o governo brasileiro buscou manter o diálogo com Washington. Ele afirmou que, desde março de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico.

Comunicado do governo

Na madrugada de hoje, o governo divulgou uma nota em que classificou a decisão americana como “unilateral”, “ilegal” e “arbitrária” e afirmou que o dia 15 de julho “passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”.

No comunicado, assinado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, o Planalto informou que “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional” e que retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A reação brasileira, segundo a nota, se organizará em três frentes: a diversificação de mercados — com prioridade para a implementação dos acordos do Mercosul com a União Europeia, a Efta e Singapura e negociações com parceiros como México, Canadá, Japão e Índia —; medidas de socorro às empresas afetadas, por meio do Plano Brasil Soberano; e o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a adotar contramedidas a barreiras comerciais consideradas injustificadas.

O governo também rebateu, ponto a ponto, as justificativas da investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), baseado na Seção 301 da lei comercial americana. A nota classificou como “descabidas” as alegações contra o Pix e a regulação de plataformas digitais, e como “absurdas” as acusações relacionadas ao desmatamento.

Como argumento contra a tese de práticas comerciais desleais, o Planalto citou estatísticas do próprio governo americano: um superávit de US$ 424,5 bilhões dos EUA no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, além do dado de que, em 2025, 76% das importações de origem americana entraram no país sem pagar imposto de importação, com alíquota média efetiva de 3,1%.

A nota trouxe ainda uma ofensiva política direta contra a família Bolsonaro, acusada de “ativa colaboração” com o desfecho da investigação americana.

“São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”, diz o texto.


BS20260716194842.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/16/alckmin-galipolo-e-ministros-de-lula-falam-sobre-tarifaco-de-trump.ghtml

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