ECONOMIA

Anfavea teme volta de cotas para carros importados eletrificados e cobra governo por manutenção de cronograma

22 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Isenção de imposto se encerrou em janeiro passado e tarifa de 35% sobre esses veículos passa a valer em julho

 Anfavea teme volta das cotas isentas de impostos para veículos eletrificados — Foto: BYD / Divulgação

A entidade que representa as montadoras de veículos instaladas no país, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) cobra que o governo federal mantenha o cronograma acertado com o segmento e não libere novas cotas para veículos importados. A Anfavea teme que na reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão interministerial responsável por formular e coordenar as políticas de comércio exterior, marcada para amanhã, voltem a ser estabelecidas novas cotas para a importação de carros híbridos e elétricos.

— Nenhuma empresa tem pedido benefícios adicionais para fazer investimentos, sejam cotas ou alíquotas, além daqueles benefícios que o governo estabeleceu em cronograma — disse Igor Calvet, presidente da Anfavea, lembrando que os investimentos anunciados pelas montadoras no Brasil estão na casa de R$ 140 bilhões até 2030.

Apenas a chinesa BYD tem cobrado a renovação de cotas e o adiamento do imposto cheio de 35% sobre esses veículos importados, a partir do próximo mês de julho. A BYD teve reuniões com representantes do governo nos últimos meses. Representantes da marca se reuniram com o vice-presidente Geraldo Alckmin, em maio. Estiveram presentes o presidente da BYD Brasil, Tyler Li, executivos da empresa e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, onde a BYD inaugurou sua primeira unidade no Brasil, em Camaçari, ano passado. Outra reunião entre a montadora e o governo aconteceu em junho, em São Paulo, na sede do BNDES, em São Paulo.

A BYD começou a produzir seus veículos no país utilizando sistemas de importação SKD (Semi Knocked Down — kit semi-pronto) e vai evoluindo para o uso do sistema CKD (Completely Knocked Down — totalmente desmontado), à medida que a fábrica nacionaliza seus processos. O ciclo de isenções tarifárias e cotas para importação de veículos e kits desmontados encerrou-se em 31 de janeiro, conforme o cronograma estabelecido pelo governo federal.

Na sexta-feira passada, houve uma reunião extraordinária do Comitê de Alterações Tarifárias (CAT), um órgão federal cuja função é analisar e debater pedidos de empresas sobre o comércio exterior, como alterações nas alíquotas do imposto de importação. A pauta do encontro não foi divulgada, mas um dos temas debatidos teria sido as cotas e a alíquota de importação dos veículos eletrificados, segundo se comenta no mercado. O que chama a atenção da Anfavea é que a entidade, até agora, não foi procurada para dialogar sobre a questão.

— A priori, não temos conhecimento de um pleito formal para volta das cotas. Mas aconteceu uma reunião do CAT e amanhã haverá a reunião da Camex. Sempre mantivemos canal aberto de comunicação, mas desta vez, não houve diálogo — diz Calvet, que não vê problema que os governos façam pacotes de incentivo para atrair investimentos, desde que sejam cumpridos os cronogramas estabelecidos para trazer equidade com a indústria nacional. — E esse cronograma, era o máximo aceitável. Se houver mudanças, seria o rompimento de um pacto.

Na semana passada, a Anfavea enviou carta à presidência e a diversos ministérios cobrando que seja mantido o cronograma de recomposição tarifária para carros elétricos e encerradas as cotas de importação com alíquota zero. De acordo com a entidade, não houve manifestação do governo, disse Calvet em conversa com jornalistas nesta segunda-feira.

Na carta, a Anfavea mostrou números de como a volta desses benefícios impactam a indústria automobilística nacional e vão de encontro à Nova Indústria Brasil (NIB), política federal lançada em janeiro de 2024 para modernizar e fortalecer o setor industrial. O plano busca promover a “reindustrialização”, com foco na inovação, sustentabilidade e redução da dependência tecnológica externa.

Estudo da Anfavea aponta que a eventual massificação da fabricação de veículos com o uso de kits importados significaria perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões em arrecadação para o Governo Federal e a eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil em toda a cadeia. JOÃO 9H

A Anfavea lembra também do elevado número de veículos importados eletrificados em estoque, cerca de 150 mil, um crescimento de 200% nos últimos meses — o que distorce o mercado.

A posição da BYD defendendo a volta das cotas não é seguida por nenhuma outra montadora, especialmente as chinesas que começaram a produzir no brasil ano passado.

Para o especialista em mercado automotivo e sócio da consultoria KLume, Milad Kalume, uma mudança no cronograma prejudica a indústria nacional.

— É preciso ter um limite senão daqui a vinte anos, as empresas ainda estarão pedindo prorrogação para subsídios de SKD/CKD. Não ocorreu nada no mercado que justifique qualquer alteração no cronograma e os chineses são craques em planejamento de longo prazo. A produção e o desenvolvimento da cadeia de fornecedores devem ocorrer aqui e não lá fora — diz Kalume.

Procurada, a BYD informou que ainda não tem posicionamento sobre a questão.


BS20260622145209.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/22/anfavea-teme-volta-de-cotas-para-carros-importados-eletrificados-e-cobra-do-governo.ghtml

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