POLÍTICA

Após fuga de Flávio aos EUA, disputa entre alas do bolsonarismo se acirra e expõe racha entre aliados

29 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Grupo ligado a Eduardo Bolsonaro entra em confronto com integrantes da campanha que defendiam postura mais institucional

Flávio e Eduardo Bolsonaro nos EUA — Foto: Reprodução / redes sociais

A viagem de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos, após a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acirrou uma disputa entre alas do bolsonarismo sobre o futuro político do senador e a condução da oposição. De um lado, o grupo mais ideológico, representado por Eduardo Bolsonaro e seu entorno, apoiou a saída do país diante do temor de uma eventual prisão. Do outro, integrantes da campanha, advogados e aliados políticos de perfil mais pragmático defendiam que Flávio permanecesse no Brasil, reconhecesse o resultado das urnas e assumisse a liderança da direita.

A divisão ocorre em um momento de indefinição sobre quem comandará a direita após a derrota eleitoral. Embora Flávio tenha manifestado a intenção de ocupar esse espaço, sua permanência nos Estados Unidos provoca dúvidas dentro do próprio PL sobre a capacidade de exercer essa função à distância, especialmente diante da perspectiva de ficar sem mandato a partir do próximo ano.

As divergências, que já existiam durante a campanha, vieram à tona nesta quarta-feira, quando Figueiredo atacou integrantes do entorno do senador durante seu podcast, o Paulo Figueiredo Show. Sem citar nomes, insinuou que alguns aliados teriam interesse em ver Flávio preso para ocupar seu espaço político.

Durante a campanha, pessoas próximas ao senador defenderam que ele mantivesse distância do grupo bolsonarista radicado nos Estados Unidos, especialmente de Eduardo e Figueiredo. A avaliação era de que os dois tinham posições excessivamente ideológicas, capazes de afastar eleitores fora da base bolsonarista, considerados fundamentais para vencer Lula.

A estratégia incluiu a construção da imagem do “Flávio vacinado”, apresentado como um político mais aberto ao diálogo e que havia aprendido com os erros do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A aposta, porém, não garantiu a vitória e, após a derrota, o senador voltou a se aproximar publicamente do grupo que parte de seus aliados havia tentado manter à distância.

O primeiro atrito após a eleição envolveu o reconhecimento do resultado. Depois de anunciar que questionaria a votação, Flávio foi pressionado por integrantes da campanha a reconhecer a vitória de Lula e evitar novos confrontos com a Justiça Eleitoral. O senador chegou a recuar da intenção de pedir a anulação do pleito, embora tenha mantido a possibilidade de buscar a cassação da chapa petista.

As divergências aumentaram com a viagem aos Estados Unidos. Enquanto Eduardo e Figueiredo defendiam a saída diante do temor de medidas judiciais, pessoas próximas ao senador aconselhavam sua permanência no Brasil. A decisão surpreendeu integrantes da campanha, que passaram a atribuí-la à influência do grupo ligado a Eduardo.

Nesta quarta-feira, uma carta assinada por Flávio foi encaminhada à imprensa e compartilhada inicialmente nas redes sociais por Paulo Figueiredo. No documento, o senador adotou um tom golpista e chegou a se autodeclarar como presidente do Brasil. A formulação foi alterada após a repercussão negativa.

O texto surpreendeu integrantes da campanha, que chegaram a questionar sua autoria por considerarem que a linguagem destoava da postura adotada pelo senador nos últimos meses. Para esses aliados, a viagem aos Estados Unidos ampliou a influência de Eduardo e Figueiredo sobre Flávio.

Uma pessoa muito próxima do senador, contudo, afirma que a carta apenas expressa convicções que ele nunca abandonou. Segundo esse interlocutor, encerrada a eleição, Flávio passou a ter liberdade para voltar a falar diretamente com a base bolsonarista, sem as limitações impostas pela estratégia eleitoral.

Durante o podcast transmitido em sua página no X, Figueiredo defendeu a viagem e acusou antigos aliados de agirem em benefício próprio, insinuando que poderiam se beneficiar de uma eventual prisão do senador.

— O que essas pessoas queriam? Queriam um Flávio preso porque, com ele preso, vocês acham que para essas pessoas é ruim? É maravilhoso. O Flávio nunca mais concorre a nada, fica lá preso, elas usam a narrativa para continuar pedalando como se fizessem parte do grupo político, fazem seus acordos paralelos e o Flávio e sua família que se explodam — afirmou.

Figueiredo também criticou aqueles que classificavam sua atuação e a de Eduardo Bolsonaro como radical.

— Essas são as pessoas que estavam ao lado do Flávio dizendo que Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro eram os malucos radicais dos Estados Unidos. E quem foi lá tirar o cara da reta do Brasil para não estar preso foram de novo os malucos e radicais — disse.

Dentro do PL, uma ala avalia que a permanência de Flávio no exterior, somada à perspectiva de ficar sem mandato no próximo ano, compromete sua capacidade de articulação com as bancadas da Câmara e do Senado. Outros integrantes, porém, reconhecem as dificuldades, mas acreditam que ele poderá manter influência sobre o bolsonarismo pela ligação com Jair Bolsonaro e pela projeção conquistada na eleição.

BS20261029083000.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/29/apos-fuga-de-flavio-aos-eua-disputa-entre-alas-do-bolsonarismo-se-acirra-e-expoe-racha-entre-aliados.ghtml

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