POLÍTICA

Após veto a visitas de Flávio e sem poder contar com Michelle, defesa deve fazer ponte entre Bolsonaro e campanha

14 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Interlocutores afirmam que advogados podem passar a intermediar a comunicação

Ex-presidente, Jair Messias Bolsonaro — Foto: Divulgação

Impedido de visitar o pai por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e sem poder contar com a ajuda da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que segue afastada da campanha presidencial após a crise pública com o enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deverá recorrer aos advogados de Jair Bolsonaro para manter a interlocução com o ex-presidente.

Segundo interlocutores ouvidos pelo GLOBO, aliados avaliam que a equipe de defesa pode ser um elo usado para preservar a interlocução entre Bolsonaro e a campanha, ainda que o aumento do número de intermediários torne a comunicação menos direta e mais sujeita a ruídos.

A estratégia começou a ser desenhada após Moraes suspender por 90 dias as visitas de Flávio ao pai na segunda-feira. A decisão foi tomada depois que o senador divulgou uma carta escrita por Bolsonaro, lida em uma live no último sábado, pouco depois de deixar a residência onde o ex-presidente cumpre prisão domiciliar.

Para Moraes, Flávio utilizou o direito de visita para obter um documento cuja finalidade exclusiva era sua divulgação nas redes sociais, burlando a proibição imposta a Bolsonaro de utilizar plataformas digitais, direta ou indiretamente. O ministro também determinou que a defesa esclareça, em 48 horas, se o ex-presidente sabia que a carta seria publicada e encaminhou o caso ao procurador-geral eleitoral para apuração de eventual propaganda eleitoral antecipada.

A equipe jurídica de Flávio divulgou uma nota classificando a decisão como “ilegal e inconstitucional”. Os advogados afirmam que a medida viola dispositivos da Lei de Execução Penal que garantem ao preso o direito de receber visitas de familiares e de manter comunicação com o mundo exterior.

Sustentam ainda que, por atuar como advogado constituído do pai, Flávio também teve violado o direito de comunicação entre advogado e cliente previsto no Estatuto da Advocacia. Segundo a manifestação, a defesa adotará as medidas judiciais cabíveis para tentar reverter a decisão.

Se o prazo de 90 dias fixado por Moraes for cumprido integralmente, Flávio só poderá voltar a visitar o pai em meados de outubro, depois da realização do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

Reservadamente, interlocutores da campanha afirmam que Flávio sequer consultou integrantes de sua equipe jurídica antes de divulgar a carta de Bolsonaro no último sábado. A possibilidade de que a divulgação fosse interpretada pelo Supremo como descumprimento das medidas cautelares impostas a Bolsonaro, dizem, simplesmente “não passou pela cabeça” do filho 01.

Segundo interlocutores da campanha, a decisão altera a forma de comunicação entre Bolsonaro e seu grupo político, mas não interrompe o fluxo de informações, embora Flávio, segundo um interlocutor, siga sendo “o único que pode falar por ele” e que os advogados apenas “farão a ponte”.

Até a decisão de Moraes, Flávio era o principal elo entre Bolsonaro e a campanha. Sempre que estava na capital federal, o senador visitava o pai em sua residência, no Solar de Brasília. Além da relação familiar, ele também atua como advogado constituído do ex-presidente, o que lhe garantia livre acesso às visitas.

A suspensão determinada por Moraes, no entanto, atinge apenas Flávio, sendo que os demais filhos do ex-presidente continuam autorizados a visitá-lo. Carlos Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, costuma ir à residência do pai com frequência. Apesar disso, interlocutores afirmam que ele não deverá assumir o papel de interlocutor político da campanha que vinha sendo desempenhada por Flávio.

Interlocutores afirmam, porém, que a mudança tende a reduzir a “espontaneidade” da comunicação. Até agora, Flávio costumava conversar pessoalmente com o pai sempre que podia, discutindo o andamento da campanha, as articulações nos estados e as movimentações políticas. Com a decisão de Moraes, as informações e orientações passarão a percorrer um caminho mais longo entre Bolsonaro e a equipe responsável pela campanha.

A mudança ocorre em um momento em que Michelle Bolsonaro permanece distante da pré-campanha. Após os atritos públicos com Flávio, a ex-primeira-dama deixou a presidência do PL Mulher e permanece inerte frente a uma eventual participação na campanha do enteado. Internamente, Michelle era vista como um dos principais ativos eleitorais do senador, sobretudo pela influência junto ao eleitorado feminino e evangélico.

Para um aliado de Bolsonaro, a decisão de Moraes produz um efeito oposto ao pretendido pela carta. Na prática, afirma esse interlocutor, Flávio deixa de exercer o papel de “porta-voz” atribuído pelo pai justamente porque perde o contato direto com o ex-presidente e ainda passa a conviver com o risco de responder por eventual propaganda eleitoral antecipada.

Mesmo assim, interlocutores afirmam que Bolsonaro continuará participando das principais decisões da campanha. Segundo eles, orientações sobre alianças estaduais, definição de palanques e estratégias eleitorais continuarão sendo determinadas por ele.


BS20260714063031.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/14/apos-veto-a-visitas-de-flavio-e-sem-poder-contar-com-michelle-defesa-deve-fazer-ponte-entre-bolsonaro-e-campanha.ghtml

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