POLÍTICA

Atuação de Lulinha em negociações com governo foi encoberta por amiga lobista e ‘Careca do INSS’, diz PF

21 de agosto, 2026 | Por: Agência O Globo

Mensagens e documentos mostram estratégia para dissimular atuação, segundo inquérito; envolvidos negam irregularidades

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha – Foto: reprodução / Redes Sociais

A participação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, nas negociações com o governo federal foi encoberta pela empresária Roberta Luchsinger, amiga dele, e pelo lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. A PF apura um suposto tráfico de influência de Lulinha para abrir as portas da gestão do pai a Luchsinger, de quem é amigo. O GLOBO teve acesso a documentos que integram a investigação.

A tentativa de encobrir a atuação de Lulinha na investida para emplacar contratos no Ministério da Saúde e em outros órgãos públicos aparece em mensagens enviadas por Roberta a interlocutores e em depoimentos de testemunha, segundo a PF

“Registra-se, ainda, a reiterada preocupação demonstrada pelos investigados em ocultar a associação entre ambos e a participação de um terceiro, cuja identidade, segundo fontes autônomas e independentes, apontaria para indivíduo de elevada relevância política, por ser filho do presidente da República”, afirmou a Polícia Federal em relatório, em referência a Lulinha.

Lulinha, Roberta e o empresário Fernando Bittar, que já foi sócio do filho do presidente, tinham um grupo no WhatsApp para tratar das negociações com o governo, segundo a investigação. O objetivo era que as movimentações ocorressem sem chamar a atenção para o primogênito de Lula.

“Fábio não faz nada. Ele só entra em campo quando precisa. Tem que se preservar”, escreveu Roberta em 21 de janeiro de 2024 a um interlocutor.

Pouco mais de dois meses depois, em 6 de março, a empresária avisou a Lulinha que havia chegado a Brasília para uma reunião no Ministério da Saúde com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, conhecido como “Berge”. “Pousei. Vou lá no Berge”, disse Luchsinger. “Que ótimo. Vai com tudo. Manda beijo para o Berge e fala que não fui porque vc não chamou”, ironizou Lulinha. O grupo tentava emplacar a venda de canabidiol, em um negócio que não foi concretizado.

As mensagens mostram que Lulinha interferiu para que o encontro acontecesse, e a agenda foi marcada por Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula. Dois meses depois da reunião, em 13 de maio, Luchsinger disse a Marcola que “temos que colocar Fábio em cima do Berge”, em nova menção a Lulinha e ao então número dois da pasta.

Já em 22 de março de 2024, outra conversa mostra a proximidade entre os dois. “Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom (sic). Esse povo aqui tá em outra vibe”, diz a empresária. O filho do presidente responde em seguida: “Isso. Deixa eles. Trabalho para caralho e nunca dá em nada”.

Como mostrou O GLOBO, Luchsinger pretendia vender 1,2 milhão de frascos de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde, em uma transação que poderia render até R$ 626 milhões. Uma minuta sobre a negociação foi enviada pela empresária a Marcola. A pasta, por sua vez, informou que “nunca houve possibilidade de compra de canabidiol, uma vez que o produto sequer está incorporado ao SUS”.

A defesa de Lulinha afirmou que “reafirma sua confiança nas instâncias formais e adequadas de apuração dos fatos e se manifestará nos autos em momento adequado, somente após o acesso integral aos dados obtidos pelas quebras de sigilo”. Os advogados pontuaram ainda que solicitarão, “uma vez mais, rígidas apurações da nefasta instrumentalização de parte das nossas instituições por interesses políticos e eleitorais”.

Já os advogados de Marcola, por sua vez, afirmaram que o “vazamento seletivo de trechos da documentação, em vez da totalidade do conteúdo, tem objetivo de distorcer os fatos e interferir no processo eleitoral”. A defesa diz ainda que o ex-chefe de gabinete nunca “encaminhou qualquer documento referente a compras ou licitações no âmbito do Ministério da Saúde ou da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”.

“Núcleo político”

Segundo a investigação, Luchsinger recebeu repasses de Antunes que somam R$ 1,5 milhão e seriam referentes a serviços de consultoria para viabilizar contratos no governo federal. Em uma das transferências, o empresário informou a um interlocutor que o dinheiro era destinado ao “filho do rapaz”, possivelmente em referência a Lulinha, segundo a PF. O inquérito aponta ainda que Luchsinger faria parte do “núcleo político” da suposta organização criminosa. O lobista está preso por participação no esquema de fraudes do INSS. A defesa dele afirma que não vai se manifestar “até que tenha acesso integral ao conteúdo dos celulares apreendidos na investigação”.

“Roberta apresenta-se como pessoa com acesso a estruturas de poder capazes de influenciar decisões de natureza política, ainda que de alcance restrito, circunstância que lhe confere relevância em ambientes de negócios que se beneficiam dessa proximidade”, acrescenta a PF em relatório.

A defesa dela nega irregularidades e pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o trancamento do inquérito que investiga as suspeitas envolvendo Luchsinger, Lulinha e Antunes.

Os advogados sustentam que as provas são ilícitas porque teriam sido obtidas a partir da exploração de mensagens e demais arquivos dela para um objetivo diferente do que havia sido autorizado por Mendonça ao determinar a quebra de sigilo. Com isso, a defesa pretende anular mensagens e demais provas que tenham sido obtidas a partir do acesso ao celular, outros equipamentos eletrônicos e dados na nuvem.

A petição apresentada ao STF alega que a PF, quando pediu a quebra de sigilo relacionada às investigações sobre fraudes no INSS, já suspeitava da atuação de Luchsinger, Lulinha e de Antunes junto a outros órgãos do governo federal. A defesa, portanto, sustenta que o pedido seria uma “pesca probatória” para, em um inquérito já formalizado, conseguir informações para outra linha investigativa, o que os advogados afirmam ser ilegal.

“Se os personagens, suas relações, os negócios e as áreas de atuação já estavam identificados e apontavam para uma linha investigativa distinta, a utilização posterior da medida invasiva para aprofundar esses mesmos fatos não configuram descoberta fortuita. Configura investigação deliberada de objeto diverso daquele para o qual a ingerência havia sido autorizada”, diz a peça assinada pelos advogados Roberto Podval, Marcelo Gaspar Gomes Raffaini e Daniel Romeiro.

O objetivo da defesa é que o pedido de suspensão do inquérito seja analisado antes da solicitação feita pela Procuradoria-Geral da República (PGR), que defendeu perante Mendonça que as investigações envolvendo Lulinha, Roberta e Antunes deixem o STF e sigam para a primeira instância. Interlocutores da Corte afirmam que a tendência é que o ministro mantenha os casos no Supremo. Caso o pedido de paralisação da investigação seja negado, a defesa deve levar o caso para a análise do plenário.

BS20260821140105.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/08/21/atuacao-de-lulinha-em-negociacoes-com-governo-foi-encoberta-por-amiga-lobista-e-careca-do-inss-diz-pf.ghtml

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