SAÚDE

Axilas escuras: o que pouca gente sabe sobre a pele negra

10 de agosto, 2026 | Por: Agência O Globo

Dermatologista explica as causas do escurecimento das axilas, quando ele pode indicar uma doença e quais tratamentos são mais indicados para a pele negra

Pele negra exige cuidados específicos para prevenir a hiperpigmentação — Foto: Reprodução/ Magnific

Em um país onde mais da metade da população se declara negra, o conhecimento sobre as particularidades da pele negra ainda não é amplamente difundido. Como consequência, informações equivocadas e estigmas continuam cercando condições comuns, como o escurecimento das axilas.

Fatores como suor, depilação frequente, pelos encravados e a irritação provocada por alguns desodorantes favorecem a inflamação da região e, consequentemente, o surgimento ou agravamento da hiperpigmentação.

Apesar disso, o escurecimento das axilas ainda é frequentemente associado, de forma equivocada, à falta de higiene — uma crença sem fundamento científico, alimentada por estereótipos e preconceitos raciais. Entender por que essas manchas surgem e como tratá-las é essencial para combater a desinformação e promover um cuidado mais adequado e inclusivo.

Nos consultórios dermatológicos, o escurecimento das axilas está entre as queixas mais frequentes, especialmente entre as mulheres, por seu impacto na autoestima. No entanto, segundo a dermatologista Katleen Conceição, especialista pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e uma das principais referências em pele negra no Brasil, é preciso compreender que, na maioria dos casos, não se trata apenas de uma questão estética.

— O escurecimento das axilas geralmente é consequência de um processo inflamatório crônico provocado por atrito, depilação, pelos encravados, suor e irritação causada por alguns produtos. Em alguns casos, também pode ser um sinal de doenças, como a acantose nigricans, associada à resistência à insulina. Por isso, o tratamento deve sempre começar pela identificação da causa — ressalta.

Por que a pele negra é mais suscetível às manchas

Pessoas com pele negra possuem maior quantidade de melanina e predisposição à hiperpigmentação pós-inflamatória. Isso ocorre porque os melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, são biologicamente mais ativos e respondem de forma mais intensa a qualquer processo inflamatório ou agressão à pele. Como consequência, as manchas podem surgir com mais facilidade e persistir por mais tempo. Por isso, prevenir a inflamação é tão importante quanto tratar a pigmentação já instalada.

— Quando ocorre uma inflamação, mesmo que discreta, há liberação de diversos mediadores inflamatórios que estimulam essas células a produzir mais melanina como mecanismo de proteção. Esse excesso de pigmento pode permanecer por meses ou até anos após o desaparecimento da inflamação inicial — aponta a dermatologista.

Por conta das características da pele negra, o tratamento da hiperpigmentação exige conhecimento específico. Procedimentos muito agressivos podem desencadear uma resposta inflamatória ainda maior e, consequentemente, agravar o escurecimento da região.

— Costumo priorizar protocolos que controlam a inflamação e estimulam a renovação da pele de forma gradual. Ativos como ácido azelaico, niacinamida, thiamidol e cisteamina podem fazer parte da estratégia terapêutica. A depilação a laser também costuma trazer excelentes resultados, pois reduz os pelos encravados e a inflamação recorrente. Além disso, tecnologias como os lasers fracionados e o laser de picossegundos ajudam a uniformizar a pele ao promover intensa renovação celular. O tratamento, porém, deve ser sempre individualizado e conduzido por profissionais com experiência no manejo desse fototipo — explica.

Ao longo de anos de prática clínica com pacientes de pele negra, a dermatologista observou que pessoas com hiperidrose (condição caracterizada pela transpiração excessiva) costumavam apresentar um escurecimento mais intenso das axilas, mesmo quando utilizavam métodos de depilação semelhantes aos de outros pacientes.

— O suor não escurece a pele diretamente, mas potencializa esse ambiente inflamatório. Quando permanece em contato com a região por longos períodos, aumenta a umidade, favorece o atrito, compromete a barreira cutânea e mantém o processo inflamatório. Na pele negra, que tem maior predisposição à hiperpigmentação pós-inflamatória, essa resposta estimula a produção de melanina e pode contribuir significativamente para o surgimento de manchas escuras nas axilas — explica Katleen Conceição.

Em alguns casos, o escurecimento das axilas pode estar associado a uma condição de saúde. Quando as manchas apresentam aspecto aveludado e também acometem o pescoço, as virilhas ou outras dobras do corpo, é importante investigar possíveis causas, especialmente doenças metabólicas, como resistência à insulina e diabetes. Já quando a pigmentação está restrita às axilas e há histórico de atrito, depilação frequente ou inflamação recorrente, o quadro costuma ser compatível com hiperpigmentação pós-inflamatória. Por isso, a avaliação dermatológica é fundamental para diferenciar as causas e indicar o tratamento mais adequado.

A dermatologista Katleen Conceição é uma das principais referências em pele negra no Brasil — Foto: Divulgação
A dermatologista Katleen Conceição é uma das principais referências em pele negra no Brasil — Foto: Divulgação

Como prevenir e tratar a hiperpigmentação

Embora a hiperpigmentação tenha tratamento, alguns cuidados no dia a dia ajudam a prevenir o surgimento e o agravamento das manchas. Reduzir o atrito na região, tratar os pelos encravados, optar por métodos de depilação menos agressivos, controlar a transpiração quando necessário e utilizar produtos adequados para as axilas são medidas que contribuem para manter a pele saudável. No entanto, diante do incômodo estético, muitas pessoas recorrem a soluções divulgadas nas redes sociais, que podem agravar o problema.

— O erro mais comum é recorrer a receitas caseiras, esfoliações intensas ou misturas de ácidos sem orientação médica. Essas práticas costumam provocar ainda mais inflamação e, consequentemente, mais pigmentação, especialmente na pele negra — avalia.

Ao longo dos anos, o escurecimento das axilas foi associado, de forma equivocada, à falta de higiene — um estigma com raízes no racismo. No entanto, como explica a especialista, a hiperpigmentação está relacionada a processos inflamatórios da pele e, na pele negra, tende a ser mais intensa devido às características biológicas desse fototipo. Ou seja, não há relação entre essas manchas e falta de limpeza.

— Culpar o paciente apenas aumenta o sofrimento e reforça o preconceito. Informação de qualidade é essencial para substituir julgamentos por conhecimento e para que as pessoas entendam que essa é uma condição médica que pode e deve ser avaliada e tratada de forma adequada — conclui Katleen Conceição.


BS20260809073032.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/08/09/axilas-escuras-o-que-pouca-gente-sabe-sobre-a-pele-negra.ghtml

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