
Por que silêncio de Lula sobre formação de nova equipe econômica mexe com o dólar?
Mercado reage a incertezas sobre Lula 4, eleva projeção da Selic e aposta em manutenção na reunião desta quarta-feira

Autoridade monetária define a taxa básica hoje. Antes do segundo turno, analistas previam nova queda de 0,25 ponto percentual após reunião do Copom

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decide nesta quarta-feira (dia 4) o futuro da taxa básica de juros da economia em meio à incerteza fiscal pós-eleições e a disparada do dólar, que afeta a inflação.
O mercado financeiro migrou em peso para a aposta na manutenção da Taxa Selic em 13,75% após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) na disputa do comando do Palácio do Planalto a partir de 2027.
Antes, havia uma expectativa majoritária de um corte adicional de 0,25 ponto percentual no Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) graças aos sinais de desaceleração da atividade econômica.
De 105 casas consultadas pelo Valor Pro, na última semana, 72 esperam que o Copom mantenha a Selic parada em 13,75%, enquanto 33 projetam ao menos mais um corte de 0,25 ponto percentual no juro básico.
O movimento que se sucedeu ao pleito é justificado pelos agentes em razão do aumento do risco fiscal e da disparada do dólar, que acumulou alta de 9% na semana passada, com efeitos diretos na inflação que o BC quer combater. A moeda terminou a semana em R$ 5,44.
Parte da depreciação cambial brasileira é resultado de um reposicionamento do mercado após a vitória de Lula, uma vez que era majoritária a expectativa de que Flávio vencesse nas urnas. De outro lado, a alta do dólar reflete a baixa expectativa de um ajuste fiscal robusto em um novo governo petista.
O IPCA, índice inflacionário oficial, também está acima da meta, em 4,58% em 12 meses até setembro. A autoridade monetária conduz os juros básicos para colocar a inflação na meta de 3,0% dentro do horizonte relevante, que nesta reunião será o segundo trimestre de 2028.
A regra, considerando o intervalo de tolerância, é considerada cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%. Atualmente, a Selic está em 13,75% ao ano, patamar a que chegou depois de cinco cortes de 0,25 ponto percentual num ciclo iniciado em março deste ano.
Como tem sido costume nas últimas reuniões do Copom, em setembro, o BC não deu nenhuma sinalização direta sobre os seus planos para o ciclo de juros. Diante do cenário de riscos, como a guerra no Irã, o El Niño, o futuro da política econômica de Lula e a desancoragem das expectativas inflacionárias no país, o Copom tem pregado cautela e serenidade e esperado a evolução dos dados até cada reunião para definir os rumos da Selic.
O único compromisso da autoridade monetária tem sido manter a Selic em um nível de restrição da atividade econômica capaz de conduzir a inflação à meta de 3%. “O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse em setembro.
Na época, porém, a maioria dos economistas avaliava que o BC preferia continuar cortando os juros. Na última sexta-feira, por sua vez, as opções digitais de Copom — derivativos padronizados negociados na B3 que permitem ao mercado financeiro especular ou se proteger em relação à definição da Selic — fecharam com 72% de precificação para manutenção dos juros e 26% para corte de 0,25 ponto percentual, destaca o economista-chefe da Quantitas Asset, Ivo Chermont.
Ele foi um dos especialistas de mercado que mudaram a expectativa para este Copom de queda para 13,5% para manutenção em 13,75% ao ano após as eleições. O economista destaca que a alteração se deve ao aumento do dólar e à esperada piora das expectativas de inflação no Boletim Focus que será divulgado nesta segunda-feira.
As projeções na pesquisa já estavam distantes da meta e devem ficar mais desancoradas considerando as revisões de cenário realizadas pelos participantes após as eleições. Na última divulgação, com as expectativas realizadas antes da definição do pleito, as medianas eram de 5,19% para o final de 2026, 4,34% para o término de 2027 e 3,75% para o fim de 2028.
A consultoria Buysidebrazil agora vê um cenário mais negativo para a inflação brasileira. Elevou a projeção para o IPCA em 2027 de 3,9% para 4,7% devido às pressões adicionadas pelo câmbio mais desvalorizado. Para o dólar, a previsão mudou de R$ 4,90 para R$ 5,40 no final de 2026 e em 2027.
“A combinação de um pressão inflacionária adicional e de um risco maior das expectativas inflacionárias se tornarem desancoradas deve levar o Copom a interromper o ciclo de flexibilização monetária. Embora a atividade econômica continue a mostrar sinais de desaceleração, nós acreditamos que esses efeitos inflacionários são insuficientes para compensar a deterioração no balanço de riscos”, diz, em relatório.
O diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, cita, além da incerteza sobre os rumos da política fiscal no governo reeleito, uma incorporação tardia do mercado dos potenciais efeitos do fenômeno El Niño sobre a inflação de 2027 para justificar a pausa no corte da Selic nesta reunião.
Já o Itaú Unibanco agrega que o cenário externo se tornou ainda mais adverso desde o último encontro do Copom, em setembro. Isso se deve, segundo ao banco, ao aperto das condições financeiras em economias desenvolvidas, que estão em um ciclo de alta de juros, e à nova rodada de aumento das cotações do petróleo em meio ao conflito no Oriente Médio.
Utilizando as expectativas de inflação e a trajetória da Selic extraídas da pesquisa Focus da semana passada, o Itaú espera que a projeção oficial do BC para o segundo trimestre de 2028 (horizonte relevante) suba para 3,4%, de 3,1% antes. O banco pondera, contudo, que as expectativas de inflação e para Selic devem subir na Focus.
“Em meio a um contexto mais adverso, com possível movimento relevante de desancoragem adicional das expectativas de inflação e uma maior assimetria no balanço de riscos em torno do cenário base, esperamos que o comitê comunique a escolha unânime de interromper o ciclo de queda dos juros”, disse o Itaú em relatório.
A XP, por sua vez, disse que o fluxo de dados e notícias desde a última reunião do Copom tem sido predominantemente negativo para o cenário de inflação. Entre os fatores de deterioração, destaque para a depreciação do real, os preços do petróleo ainda mais elevados e o aumento expressivo nas expectativas inflacionárias de médio prazo. Em contrapartida, a atividade econômica tem arrefecido mais rapidamente do que o previsto;
“Acreditamos que o Copom manterá a taxa Selic em 13,75% nesta semana. A elevação das expectativas de inflação (especialmente para horizontes mais longos, como 2029) exige uma resposta de política monetária para evitar deterioração adicional à frente. Em nossa avaliação, o comunicado pós-reunião adotará um tom mais duro (hawkish), deixando em aberto as possibilidades para as próximas reuniões do Copom”, disse a XP em relatório.
Já Cristiano Oliveira, do Pine, avalia que a manutenção da Selic em novembro não significa o encerramento do ciclo de redução dos juros.
“Os próximos passos dependerão da evolução das expectativas de inflação, da atividade econômica e dos demais fatores que influenciam as projeções do Banco Central”.
BS20261104102435.1 – https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/11/bc-vai-interromper-cortes-de-juros-entenda-por-que-mercado-espera-manutencao-da-selic-em-1375percent-ao-ano.ghtml

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