Citado em mensagens, Gonet pede nulidade de relatório da PF que detalha relação entre Vorcaro e Moraes
2 de setembro, 2026
| Por: Agência O Globo
Parecer foi enviado ao ministro André Mendonça, relator do caso Master, que pediu que documento seja analisado pelo plenário do STF
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, durante sessão do STF — Foto: Rosinei Coutinho/STF/19-12-2025
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a nulidade do relatório da Polícia Federal que detalha a relação do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e com ele próprio. O parecer foi enviado ao ministro André Mendonça, relator do caso Master na Corte, que na segunda-feira solicitou uma manifestação do órgão a respeito das informações encontradas na investigação.
Segundo o procurador-geral da República, a ordem de Mendonça para que a PF identificasse o destinatário de mensagens de Vorcaro, sem um pedido prévio do Ministério Público ou da Polícia Federal, não é válida por “exceder os limites de competência do magistrado”. Além disso, Gonet pontua que a lei prevê autorização do plenário do STF para que um integrante da Corte seja investigado.
“Mesmo que, casualmente, fosse encontrado algum indício do que o relator entendesse ser irregularidade de interesse penal, não caberia a ele aprofundar as pesquisas sobre o Colega – vale dizer, não caberia a ele determinar que se investigassem com mais detimento referências ao Colega. Impunha-se, antes, que, acreditando haver o que merecesse ser investigado, se dirigisse ao Presidente do Tribunal, para que o Plenário pudesse avaliar o acerto da sua impressão, concordando ou não com a investigação”, afirma o Gonet.
O relatório da PF teve como ponto de partida mensagens identificadas no celular de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Master. Na semana passada, Mendonça pediu que os investigadores identificassem os interlocutores do banqueiro sob argumento que Vorcaro teria montado uma “rede de monitoramento e influência, com potencial infiltração nas mais elevadas instâncias de diversas instituições da República”.
Em despacho na segunda-feira, Mendonça solicitou que o plenário da Corte delibere sobre as informações encontradas pela PF. Segundo o ministro, a análise pelo colegiado ocorrerá independentemente da manifestação que viesse a ser apresentada pela PGR. A inclusão na pauta do plenário depende de uma decisão do presidente da Corte, Edson Fachin.
Segundo Gonet, contudo, como a ordem de Mendonça é nula, o relatório elaborado pela Polícia Federal, com o detalhamento das mensagens que citam o ministro, também é nulo. Assim, na visão do PGR, o caso deve ser extinto.
“Por outra causa mais, é nula. Mesmo que, casualmente, fosse encontrado algum indício do que o relator entendesse ser irregularidade de interesse penal, não caberia a ele aprofundar as pesquisas sobre o Colega – vale dizer, não caberia a ele determinar que se investigassem com mais detimento referências ao Colega. Impunha-se, antes, que, acreditando haver o que merecesse ser investigado, se dirigisse ao Presidente do Tribunal, para que o Plenário pudesse avaliar o acerto da sua impressão, concordando ou não com a investigação.”
Em uma manifestação de oito páginas, o PGR afirma ainda que o nome de Moraes já havia sido incluído em informes policiais anteriores e que, ao pedir que houvesse o detalhamento, “é certo que o relator quis que fossem minudenciados”.
“Não importa o grau de investigação que a providência constitui, é inegável que houve imersão em elementos dos autos para buscar indicativos de envolvimento do Ministro Alexandre de Moraes em ilícitos”, afirma Gonet.
Como revelou O GLOBO, uma ala da Corte mais próxima a Moraes já avaliava que a validade do relatório do STF deveria ser um dos principais pontos a serem discutidos pelo colegiado. O principal argumento desse grupo é que a investigação de ministros do STF tem de ser autorizada pelo tribunal previamente. Como não houve essa consulta por parte da PF, a avaliação dé que as informações coletadas no celular de Vorcaro podem ser declaradas nulas, ou seja, sem valor para embasar eventuais atos processuais.
Do outro lado, interlocutores de Mendonça sustentam que não houve nenhum ato de investigação acerca de Moraes e que não se sabia quem era o destinatário das mensagens de Vorcaro até então. Para aliados do ministro, os investigadores apenas identificaram o interlocutor das mensagens e isso não consistiria uma apuração. Nessa visão, o rito foi seguido: as mensagens foram encontradas e remetidas para a PGR e o plenário para a devida apreciação.
Relação com Gonet
As mensagens apreendidas pela PF mostram que Vorcaro também mantinha relações com Gonet. Um diálogo revela um pedido para que o banqueiro bancasse uma viagem para o filho do Procurador-Geral da República para Londres. Na conversa, de março de 2025, o advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, pergunta ao banqueiro se poderia incluir Pedro Gonet no grupo que iria participar de um evento na capital inglesa, ao que Vorcaro confirma.
Nas conversas apreendidas pela PF, Ciro Soares chegou a enviar uma fotografia na qual aparecia ao lado de Gonet, e, na sequência, afirmou que o chefe da PGR queria falar com o então dono do Master. Depois das mensagens, foram registradas quatro ligações entre Vorcaro e o telefone de Ciro.
Segundo a PF, a fotografia foi enviada por Ciro a Vorcaro às 14h13 do dia 15 de março de 2025. Logo depois, o advogado escreveu “Liga aqui” e acrescentou: “Ele quer falar com você”.
A partir das 14h23, o celular registra quatro chamadas de voz entre Vorcaro e Ciro. As ligações tiveram duração de 57 segundos, 27 segundos, 17 segundos e três minutos e 49 segundos.
O relatório não esclarece se Gonet participou das chamadas nem confirma que tenha conversado diretamente com Vorcaro. Os registros mostram apenas que as ligações foram feitas para o telefone de Ciro depois que o advogado enviou a foto com o procurador-geral e afirmou que ele queria falar com o banqueiro.
A sequência foi localizada pela PF durante uma pesquisa por referências a Gonet nos dados extraídos do aparelho. Os investigadores afirmam que não havia no celular de Vorcaro um contato salvo com o nome do chefe da PGR. As menções foram encontradas principalmente nas conversas entre o banqueiro e Ciro.
Duas semanas depois, em 28 de março de 2025, o advogado encaminhou a Vorcaro outras três mensagens e afirmou que elas haviam sido enviadas por Gonet. Entre os textos estavam “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma”.
Vorcaro agradeceu pelas mensagens. Na sequência, Ciro afirmou que o procurador-geral “lhe adora” e que iria a Londres com o grupo. No dia seguinte, o advogado perguntou ao banqueiro se o filho de Gonet poderia acompanhá-los na viagem. Vorcaro respondeu: “Óbvio, né”.
Em abril daquele ano, uma funcionária consultou Vorcaro sobre quais convidados poderiam viajar a Londres com as despesas pagas pela organização. O banqueiro autorizou o custeio para Ciro e para Pedro Gonet, filho do procurador-geral.
A PF não atribui, nesse relatório, uma conduta criminosa a Gonet. O documento reúne mensagens e registros encontrados no telefone de Vorcaro em cumprimento a uma ordem de Mendonça para identificar pessoas citadas nas comunicações do banqueiro e apresentar as interações relacionadas a elas
Orientações de Moraes
O documento produzido pela PF tambpem indica que Vorcaro recebeu orientações Moraes no auge da crise da instituição financeira. Durante um período de 13 dias, mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram que ele pediu a intervenção do magistrado para impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações. Nas conversas, Vorcaro faz apelos para “sensibilizar” autoridades e pergunta sobre como deveria proceder para “desarmar” e “reverter” a situação.
No dia 17 de novembro de 2025, Vorcaro envia uma mensagem a Moraes, perguntando se havia “alguma novidade”. “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Não é possível saber ao que especificamente Vorcaro se referia, mas ele foi preso algumas horas depois do diálogo no Aeroporto Internacional de Guarulhos durante a Operação Compliance Zero. Os agentes o interceptaram quando ele se preparava para embarcar em um jato particular para Dubai. A PF o prendeu na ocasião por suspeita de tentativa de fuga.
Menção a Andrei
Um dia antes, em 16 de novembro, a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes foi intensa. E o banqueiro fez um pedido a Moraes para que ele tentasse “sensibilizar” o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, diz ele, no print, provavelmente referindo-se à operação da PF que seria deflagrada no dia seguinte. “Voce acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manha”, completa.
Na ocasião, Vorcaro demonstra receio de ser alvo da PF e aparenta ter informações privilegiadas sobre o andamento das apurações. O banqueiro tentava ganhar tempo para conseguir vender os ativos do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira com fundos de investimentos do Emirados Árabes, o negócio não prospera em razão da Operação Compliance Zero.
Ainda no dia 16 de novembro, Vorcaro pede a “leitura” de Moraes sobre a situação que o Master estava enfrentando.
“Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei da pra segurar”, diz o texto.