ECONOMIA

Consignado, veículos, alta inadimplência: entenda a atuação do Digimais, banco de Edir Macedo que foi alvo da PF

24 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Operação da PF contra o Digimais apura supervalorização de ativos em fundos e afasta negociação com o BTG Pactual

O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, durante evento ‘Família ao Pé da Cruz’ na Neoquímica Arena — Foto: Reprodução/YouTube

Alvo de uma operação da Polícia Federal nesta terça-feira, o Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, nasceu como financiador de veículos seminovos, acumulou prejuízos com a inadimplência crescente e até tentou se reinventar no crédito consignado, mas acabou em uma trajetória de deterioração financeira acelerada.

A Operação Miragem apura suspeitas de manipulação contábil e ocultação da real situação financeira, e se soma aos motivos que fizeram desmoronar também as tratativas de venda para o BTG Pactual, saída que o mercado financeiro encarava como a principal alternativa para estabilizar a instituição.

Fundado em 1981 em Porto Alegre como Banco Renner, a instituição pertencia à família de mesmo sobrenome e era descrita como de finanças equilibradas. Em 2009, Macedo adquiriu uma participação minoritária de 40% no capital. Onze anos depois, em 2020, o bispo assumiu o controle integral e promoveu uma reestruturação completa: trocou o nome para Digimais, reposicionou a marca como banco digital e colocou o bispo João Urbanela à frente da gestão.

A transição, porém, não foi suave. Dois anos após a mudança de controle, o banco registrou um rombo de R$ 740 milhões no caixa, contraste expressivo com o desempenho da era Renner. A deterioração das carteiras de crédito e a sequência de prejuízos acumulados passaram a chamar atenção do mercado e dos reguladores.

— A carteira do banco está concentrada em financiamento de veículos seminovos e crédito consignado. Sua base reúne compradores de veículos, aposentados, pensionistas e trabalhadores com renda consignável, enquanto a captação de recursos depende principalmente de investidores em CDBs — explica Carlos Henrique da Silva Junior, da consultoria Cross Harbor.

Veículos e consignado

O modelo de negócios do Digimais foi construído sobre o financiamento de veículos seminovos, carteira que ao longo do tempo passou a apresentar inadimplência elevada. Luiz Miguel Santacreu, consultor da Austin Rating, explica o problema estrutural desse segmento:

— O financiamento de veículos depende muito do perfil do tomador. Quando há inadimplência, o banco precisa retomar o bem, levar a leilão e absorver o custo dessa recuperação. Dependendo da qualidade do devedor, isso deteriora significativamente a carteira — disse Santacreu.

Diante do quadro, o banco decidiu interromper a originação de crédito para veículos e migrar para o consignado, modalidade com menor risco de calote porque o desconto das parcelas ocorre diretamente na folha de pagamento do servidor público antes mesmo de o salário ser creditado. A mudança estratégica, porém, veio tarde demais para conter os danos já acumulados.

É justamente na carteira de veículos que reside o núcleo das suspeitas investigadas pela PF. Créditos com alto nível de inadimplência teriam sido transferidos do balanço do banco para fundos de investimento, entre eles o Hermon, o mais relevante da estrutura do Digimais. O movimento contábil, em si, não é proibido. O problema, segundo os investigadores, está no que veio depois.

O administrador dos fundos não teria marcado os ativos pelo valor real de mercado, mas por um montante inflado, criando a aparência de solidez financeira que não existia.

— Quando esses ativos fossem registrados pelo valor que realmente valiam, o banco teria registrado um prejuízo muito maior do que o lucro de R$ 31 milhões declarado no ano passado. Provavelmente teria um resultado negativo que corroeria ainda mais o patrimônio, exigindo reforço de capital para continuar operando — afirmou Santacreu.

A auditoria externa do balanço do banco, fechado com base nos dados de dezembro de 2025, não chegou a cobrir os fundos, o que gerou ressalvas formais no documento. O auditor sinalizou que parte dos ativos não tinha avaliação externa verificável. Esses três fundos — um FIDC, um fundo de participações e o veículo multimercado — chegaram a representar quase 43% do total de ativos da instituição.

Nesse cenário, Carlos Henrique da Silva Junior, da consultoria Cross Harbor, avalia que o perfil do risco é concentrado, não sistêmico.

— Os mais expostos são investidores com CDBs acima do limite de R$ 250 mil coberto pelo FGC, detentores de dívida subordinada e credores sem garantia. Clientes de consignado e financiamento de veículos continuariam devedores, com contratos possivelmente transferidos para outra instituição — disse.

Negociação com BTG

Em abril, o BTG Pactual confirmou ter celebrado um acordo preliminar para a aquisição do Digimais. O banco de André Esteves havia consultado o Banco Central sobre a operação e era visto como o comprador com maior apetite em um eventual processo competitivo. As negociações envolviam ainda a possibilidade de um aporte do Fundo Garantidor de Créditos da ordem de R$ 5 bilhões para viabilizar o negócio, mas as condições não foram cumpridas.

O Banco Central exigia que Macedo injetasse cerca de R$ 250 milhões no capital do banco até o fim de 2025, o que não aconteceu. O FGC, por sua vez, vinha exigindo uma série de documentações antes de comprometer qualquer linha de suporte. Fontes com conhecimento das negociações disseram ao GLOBO que o interesse do BTG já havia esfriado antes mesmo da operação desta terça-feira. Após a visita da PF, as chances do acordo vingar são próximas de zero.

Procurado, o BTG afirmou que não comenta o assunto. No balanço do segundo semestre de 2025 do Digimais, auditoria externa responsável pelos números já tinha feito alerta que parte dos ativos do banco tinha ressalvas em relação ao valor de sua avaliação. Maurício Quadrado, que foi sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master, chegou a anunciar em janeiro do ano passado a compra do Digimais, negócio abandonado poucos meses depois.

— O problema agora é que o banco está com imagem comprometida, a auditoria dos fundos não foi concluída e o controlador não cumpriu as exigências de capitalização. O Banco Central vai ter que decidir se estreita a fiscalização, exige ajustes imediatos ou parte para uma intervenção. Não há mais espaço para o banco se arrastar — avaliou Santacreu.

Em nota, o Digimais afirmou que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”, reiterando “compromisso com a transparência e a conformidade regulatória”. A instituição não se pronunciou sobre o impacto da operação nas negociações com o BTG. O FGC afirmou que não comenta sobre as empresas associadas.



BS20260623220711.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/23/consignado-veiculos-alta-inadimplencia-entenda-a-atuacao-do-digimais-banco-de-edir-macedo-que-foi-alvo-da-pf.ghtml

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