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Ator morreu no último domingo (12), aos 87 anos

O ator Rui Rezende (1937-2026), que morreu no último domingo (12) aos 87 anos, terá o corpo sepultado no Memorial do Carmo, no Caju, na Zona Central do Rio. A cerimônia se iniciará com o velório, na capela 6, às 11h da próxima quarta-feira (15). Na sequência, às 16h, o corpo será sepultado no local. As informações foram confirmadas nas redes sociais do Retiro dos Artistas, onde ele residia desde 2019.
O ator morreu aos 87 anos neste domingo (12). Ele estava internado desde o dia 2 de julho, como informou o Retiro dos Artistas, onde o ator morava desde 2019.
“Desde 2019, fazia parte da família do Retiro dos Artistas, onde encontrou um lar cercado de carinho, respeito e cuidado. Internado desde o dia 02 de julho no Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca, Rui partiu deixando uma imensa saudade entre amigos, colaboradores e admiradores”, disse o comunicado.
Rui foi o primeiro ator a ser entrevistado para a série “Envelhecer é uma arte”, gravada no Retiro dos Artistas. Esta foi a última entrevista do Lobisomem, da novela “Roque Santeiro” (1985). Confira trechos:
Tenho prazer em várias coisas. Tomar meu cafezinho da manhã e da tarde. Tenho prazer em resistir. Em observar o comportamento humano. Ver um bom filme, um futebol.
Não sei o que está acontecendo hoje. Se é bom, ruim… Não é mais minha praia. Nem as minhas novelas eu via. Na época de “Roque Santeiro”, eu andava na rua na hora da novela e todas as casas estavam ligadas.
Fico surpreso. Outro dia um jovem pegou na minha mão emocionado. As pessoas lembram muito. Eu gostei demais daquilo que fiz. E foi um momento bom porque eu era aquilo. Eu era o lobisomem.
Eu sou da roça. Nasci no campo. Tenho esse lado de bicho do mato. Nunca fui de turma. E aquele personagem era um sujeito recuado da existência humana. Aquilo dava o tom do personagem.
Nunca me encastelou. Eu pegava ônibus com “Roque Santeiro” estourando. Entrava disfarçando para não criar buchicho. O espectador não compreende um ator da televisão sentado junto dele no ônibus. Mas eu nunca tive frescura.
Não fiz amigos. Fiz colegas. Deixei de participar de muita coisa, de conquistar muita gente.
Não é arrependimento. É constatação. Era minha natureza. Hoje eu teria rompido essa barreira. Se desse para pegar o Rui de hoje e colocar lá atrás, eu cometeria muito menos erros.
Muitos. Na vida toda. Mas era minha criação. Apenas assumi o que eu era e fui em frente.
Não ter me perdido totalmente. Por exemplo: drogas. Eu tinha medo de experimentar cocaína e gostar. Foi um acerto que me levou adiante.
Aqui no Retiro eu participo pouco das coisas, mas eu gosto de ter essas pessoas em volta, entendeu?
Muito. Mas a gente sublimou amor, sexo. Hoje temos uma grande amizade. Ano passado fui para Miami ajudar a Eva (a ex) depois de uma cirurgia. Fui cuidador dela. Foi bonito.
A idade chegou braba. Os aeroportos estão imensos. Antes, eu pegava a mala e ia embora. Hoje, tudo exige mais.
Sinto uma evolução em mim. Sou menos bicho do mato. Os dramas existenciais diminuíram. A leitura ajudou muito.
Tenho dois projetos. Um eu comecei em 2006 e ainda estou rabiscando. Mas dei uma parada nessa coisa de escrever porque ninguém escreve sem expectativa de que alguém vá ler. Quem fala “escrevo para mim” está mentindo. Eu andei mendigando: “Lê dez páginas, duas páginas…” Mas houve um desinteresse geral. Dei uma parada, mas isso continua ruminando dentro de mim. De ler eu não paro. A leitura convoca você a querer encontrar algo.
Escrevi lá na década de 80. Anos depois, uma diretora gaúcha, Lisiane Cohen, leu e apareceu com um roteiro. Fiquei lisonjeado. O filme chama “Nós que nos queremos tão pouco”. Ela manteve o título, os personagens, a estrutura…
Atuei. Ela fez com que eu me comprometesse logo no início a fazer o pai das meninas. Filmamos no Sul, no inverno, um frio terrível. Mas fiquei honrado. Pô, texto meu. Pelo menos isso eu consegui.
Seria muito pobre. Não gosto de escrever sobre mim.
Muita gente me vê. Mas não sou. Só sempre fui na minha.
Pelo conforto. Tenho um tremor essencial, como de colher. Prefiro que seja na minha cela.
(Risos) Não, foi brincadeira. Ator gosta de plateia. O ator não pode ver gente olhando que já começa a representar.
Não tenho mais essa ansiedade. Não tenho lenço molhado de lágrimas. Se surgir um convite, eu penso. Mas se escreve muito pouco para idoso hoje. Devem pensar: “O idoso vai dar trabalho, vai cair, vai morrer na cena principal”.
Muita coisa. Uma cena na televisão me emociona. Ainda sou passível de choro.
Está bem. Há 50 anos, parei de comer carne vermelha. Foi o melhor plano de saúde que fiz.
Se o ser humano tivesse menos medo da morte, seria muito mais feliz. Seria heroico eu dizer “não tenho medo”. Mas…
Existe essa coisa de estar no lugar certo, na hora certa. “Roque Santeiro” quase não aconteceu para mim. Meu telefone estava quebrado e eu ia viajar para o interior. Como eu não respondia, a Globo mandou um telegrama. Peguei na última hora. Se eu tivesse ido embora, talvez nada tivesse acontecido.
Isso é resultado do que eu fui. Não recebo visitas aqui. Não porque eu não queira, mas isso também não me incomoda.
Toda geração acha que o mundo do passado era melhor. Não posso dizer para o jovem que o meu mundo era o ideal. Eles estão escolhendo o mundo deles.
Não sei. Eu estou dentro da velhice, não estou vendo de fora. Às vezes olho no espelho e penso: “Meu Deus do céu”.
Sempre. Muito problema com rejeição e imagem.
Demais. Eu era muito patinho feio. Quando terminavam comigo, queria achar um buraco para me enterrar.
Muito. Passei a vida procurando um ideal impossível.
Saio para fazer compras, reforçar minha alimentação. Mas já não consigo mais sair sozinho para bater perna pela cidade como antes.
Infeliz eu não sou. Acho que a idade me trouxe resolução para muitas coisas. Vejo muita gente sofrendo porque ainda não resolveu certas questões. Eu tenho uma certa tranquilidade. E ainda sonho para não morrer em vida.
BS20260713194958.1 – https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/07/corpo-de-rui-rezende-sera-enterrado-nesta-quarta-feira-no-rio.ghtml

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