POLÍTICA

De Milei a Vorcaro, como canais de Lula e Flávio no WhatsApp pautaram a guerra digital com memes e cortes sobre debate

20 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Estratégias incluíram o compartilhamento de cortes de vídeos e hashtags, além da orientação de buscas no Google por termos contrários aos adversários

Lula e Flávio se enfrentam no debate da Band – Foto: RS/Fotos Públicas

Os canais de WhatsApp criados por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) se envolveram numa batalha digital que começou durante o debate da Band, no domingo à noite, e se estendeu para depois que a transmissão foi encerrada. A partir de orientações passadas aos seguidores em tempo real pelos administradores das contas, que acompanhavam de perto o programa, deu-se uma disputa por engajamento nas redes sociais que fomentou um clima de guerra envolvendo apoiadores e militância.

As estratégias incluíram o compartilhamento de cortes de vídeos e hashtags, além da orientação de buscas no Google por termos contrários aos adversários. Apesar de usada por ambas as campanhas, a tática gerou mais resultados a favor do petista, cujo perfil superou em alcance as publicações feitas pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

De dentro do estúdio da Band, o deputado federal André Janones (Rede-MG) acompanhou o debate ao lado de ex-ministros e marqueteiros de Lula, enquanto transmitia instruções para os cinco milhões de inscritos no canal “Exército do Lula”, no WhatsApp. A ferramenta foi criada por ele após o primeiro turno para a distribuição de mensagens de incentivo à militância, áudios, vídeos e tutoriais sobre como ampliar o alcance de postagens a favor da campanha de reeleição do petista.

Na semana passada, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do grupo, a pedido da campanha de Flávio, mas o funcionamento do canal voltou a ser autorizado depois que ele foi registrado como meio oficial de comunicação do presidente, o que depois foi revisto. Ontem, o grupo ficou inoperante por quase todo o dia devido à internação de Janones numa UTI em São Paulo em decorrência de um quadro de arritmia. À noite, porém, antes da entrevista de Lula ao SBT, o deputado voltou a dar missões aos seguidores.

Tempo real

No domingo, antes e durante o debate, Janones deu o comando: “Façam memes sobre o nosso adversário estar com a palavra “corrupto” escrita nas mãos”. A orientação ocorreu após Lula, ao ser provocado pelo rival, responder que queria o voto de 100% dos presidiários, “até do seu pai”.

Em outro instante, Janones pediu para apoiadores compartilharem somente os conteúdos autorizados pelo grupo, focando em momentos em que o petista acusava o oponente de “mentir sistematicamente”: “Sei que são muitas missões ao mesmo tempo, mas não se esqueçam de engajar na página do próprio Lula”, orientou. No canal, também circularam hashtags, em sua maioria, de apoio a Lula e críticas ao oponente.

Janones ainda estimulou seguidores a procurarem no Google o nome de Flávio associado a palavras como “miliciano” e à facção criminosa Comando Vermelho para que as buscas desses temas aumentassem e aparecessem no ranking de termos mais procurados no Google Trends. O parlamentar pediu também que eles pesquisassem sobre a atuação de Flávio como advogado do policial Bruno Dias Delaroli, acusado de matar com disparos de fuzil Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, em 2021. No pós-debate, a busca por “Flávio Bolsonaro e caso Ana Clara” permaneceu em alta na ferramenta de monitoramento de tendências do Google, mobilizando mais de um milhão de buscas ao longo do dia.

Dados de um levantamento de repercussão digital feito pela consultoria Ativaweb mostram que, até ontem de manhã, a menção ao caso “Ana Clara” gerou 7,5 milhões de visualizações em um corte publicado pelo perfil oficial de Lula. Além desse momento, viralizaram outros em que Lula confrontou Flávio sobre a aliança com o presidente argentino Javier Milei (10,6 milhões de views) e pediu a quebra dos sigilos bancário e telefônico do senador. A cobrança para a divulgação das informações do adversário também foi retomada por um vídeo publicado pelo perfil do presidente ontem. À noite, durante um comício em Porto Alegre, Lula disse que enviaria ao TSE uma autorização para que seus dados e de seus filhos sejam tornados públicos.

O relatório da Ativaweb também aponta que o perfil do presidente produziu mais cortes que, somados, tiveram mais 65,7 milhões de views, mais do que o dobro dos 22,1 milhões obtidos pelos quatro vídeos postados pela conta de Flávio nas horas seguintes ao debate. A conta do senador, no entanto, foi responsável pelo conteúdo de maior alcance individual (12,8 milhões), atingido por um registro do momento em que o candidato do PL comenta sobre um áudio em que Daniel Vorcaro, dono do Master, disse ter financiado um filme sobre o petista.

Vídeo selfies

Em paralelo, o canal de WhatsApp “Tropa do Flávio”, administrado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e acompanhado por dois milhões de seguidores, também atuou para o impulsionamento de conteúdos durante o debate.

O grupo repetiu a estratégia adotada pelos adversários e pediu “buscas separadas” no Google das expressões “Lula ladrão”, “Lulinha ladrão” e “Lula sócio da Roberta”, esta, em referência à lobista Roberta Luchsinger, amiga do filho do presidente, que em entrevista na véspera do debate, chamou o petista de mentiroso. “Compartilhem esta mensagem e confiram as informações por conta própria”, orientou uma mensagem postada no canal.

Os administradores também pediram a distribuição de vídeos de momentos favoráveis ao senador e posts com frases em resposta ao instante em que o petista classificou o adversário como “malandro carioca”.

Antes do início do programa, Nikolas publicou no canal e em suas redes sociais um vídeo em que chama os ex-ministros Fernando Haddad (PT) e Simone Tebet (PSB), presentes no debate, de desempregados. O parlamentar também confrontou a primeira-dama, Janja da Silva, e pediu para que ela baixasse a voz. Aliado de Nikolas, o deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP) fez o mesmo, afirmando que Haddad havia sido “demitido”; o petista reagiu dando-lhe tapinhas no rosto.

BS20261020100631.1 – https://extra.globo.com/politica/noticia/2026/10/de-milei-a-vorcaro-como-canais-de-lula-e-flavio-no-whatsapp-pautaram-a-guerra-digital-com-memes-e-cortes-sobre-debate.ghtml

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