
STF arquiva mais cinco investigações ligadas ao inquérito de fake news
A decisão do magistrado atende a manifestações da Procuradoria-Geral da República

Alegações antidemocráticas do senador foram desmentidas pela Justiça Eleitoral e viraram alvo de críticas até de aliados
Nas versões da carta golpista divulgada nesta quarta-feira, após desembarcar fugido nos Estados Unidos, o candidato a presidente derrotado Flávio Bolsonaro (PL) se comparou a heróis nacionais de países como França, Cuba e Venezuela. O senador reiterou, sem apresentar provas, que a vitória de Lula (PT) contra ele foi fraudada e se colocou como um perseguido político — assim como fizera o irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, autoexilado em solo americano desde o ano passado.

Flávio deixou o Brasil em fuga durante a noite de terça e desembarcou em Miami pela manhã, horas antes de divulgar a primeira manifestação pública feita do exterior. Na missiva, o senador comparou a própria trajetória à de exilados e perseguidos que, segundo ele, “foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam”.
“Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Marti organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou símbolo mundial de resistência democrática”, diz o trecho da carta.
Nas redes sociais, a reação foi predominantemente crítica. Políticos e eleitores destacaram a ausência de base comparativa para o caso de Flávio, que fugiu em meio a investigações sobre evasão de divisas e lavagem de dinheiro pelo financiamento do filme Dark horse e suspeitas de esquema com o advogado e amigo Willer Tomaz. Conheça abaixo as personagens citadas pelo senador na carta:
Artífice da República e imortal da Academia Brasileira de Letras, Rui Barbosa de Oliveira nasceu em 5 de novembro de 1849, em Salvador. Como deputado e senador, defendeu a abolição da escravatura, o acesso das mulheres às faculdades, o ensino técnico-industrial, as liberdades individuais e o federalismo. Depois da queda do Império, em 1889, participou do governo provisório e ajudou a desenhar as instituições da República.
Foi dele a iniciativa de conferir ao Supremo Tribunal Federal a função de julgar a constitucionalidade dos atos do Executivo e do Legislativo e de instituir o habeas corpus. Também foi o primeiro exilado do novo regime: partiu para Buenos Aires após ser ameaçado com cadeia por denunciar o autoritarismo de Floriano Peixoto.
Nenhum político francês do século XX teve tanta influência sobre os destinos de seu país quanto Charles de Gaulle (1890-1970), o comandante moral do país durante a Segunda Guerra e administrador do fim do colonialismo francês. Começou a entrar para a História quando, em 1940, com seu país ocupado pela Alemanha nazista, comandava, da Inglaterra, as Forças Francesas Livres. Em 1944, ele cumpriu sua promessa de voltar a Paris vitorioso. E até sua morte, em 9 de novembro de 1970, demonstrou ao mesmo tempo devoção pela França e talento para a política internacional.
Nascido em Lille, no dia 22 de novembro de 1890, De Gaulle comandou um governo provisório até 1946, quando renunciou por não ter conseguido a união dos partidos. Mas, em 1958, a França precisaria de novo do velho general. Foi quando eclodiu o conflito na Argélia e o Exército insubordinou-se, naquele país africano e na Córsega. De Gaulle elaborou uma novo projeto de Constituição, que submeteu a um referendo popular, no qual obteve vitória esmagadora. Começava, em 1959, a Quinta República.
José Martí, por sua vez, é um dos heróis da História cubana e uma figura-chave na libertação do país da Espanha. O revolucionário é considerado, ainda, um dos mais importantes escritores de língua espanhola do século XIX.
Em Havana, monumentos são somente para os “heróis históricos” da revolução socialista, como Camilo Cienfuegos e Che Guevara, cujos rostos marcam a Praça da Revolução e algumas das notas do dinheiro do país. Mas o grande nome no imaginário cubano segue sendo o de José Martí (1853-1895), o poeta libertador da ilha, que dá nome ao aeroporto principal do país e a centenas de escolas por Cuba.
Suas frases são obrigatórias em quase todo discurso oficial cubano e seu memorial, na mesma Praça da Revolução, segue como construção mais alta de Cuba.
Os três líderes da oposição venezuelana precisaram enfrentar os regimes autoritários de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Juan Guaidó ganhou destaque como líder estudantil em 2007 e cofundador do partido Voluntad Popular. Em janeiro de 2019, então presidente da Assembleia Nacional, se autoproclamou presidente da Venezuela e chegou a ser reconhecido por dezenas de países. Uma tentativa de levante foi frustrada pelas autoridades venezuelanas, e ele foi aos poucos perdendo apoio. Desde abril de 2023, ele vive exilado nos Estados Unidos, afastado dos holofotes.
Ex-embaixador e analista, Edmundo González Urrutia emergiu em 2024 como candidato unitário da oposição após a inabilitação de María Corina Machado. A oposição disse que ele venceu as eleições de julho de 2024 e que o resultado oficial, pró-Maduro, foi fraudado. Ele também obteve reconhecimento internacional e precisou fugir para o exterior. Em 2024, mudou-se para a Espanha.
Já a líder opositora María Corina Machado fundou a organização Súmate e o partido Vente Venezuela, tornando-se figura central da oposição. Venceu as primárias opositoras de 2023, mas foi declarada inabilitada. Com atuação por anos na resistência pacífica e na clandestinidade, ela recebeu o Nobel da Paz em 2025. Retornou à Venezuela em outubro deste ano, após a prisãode Maduro pelos EUA.
Nos textos, o ex-candidato chegou a se chamar de “presidente eleito”, errou o brasão oficial do Brasil e se comparou a heróis nacionais de países como França e Cuba. Ele também voltou a afirmar, sem provas, que a eleição teria sido fraudada e repetiu críticas bolsonaristas ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao longo do dia, Flávio e aliados publicaram três cartas. Na primeira, constava um brasão antigo que se refere ao país como “Estados Unidos do Brazil”. O símbolo foi usado de 1889 até 1968, quando a ditadura militar o substituiu por uma nova versão, onde se lê “República Federativa do Brasil”.
Outra correção foi feita depois. Inicialmente, na frase que abre a carta, o senador identificava-se como “verdadeiro presidente Brasil”. Posteriormente, Flávio passou a se dizer apenas “líder” do país.
“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno. Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerrada”.
Sem provas, Flávio diz que o segundo turno foi uma “fraude eleitoral”, supostamente provocada pela decisão do ministro Cristiano Zanin de estender o período de votação diante de, entre outras denúncias, relatos de falta de ônibus em Salvador.
A decisão do STF, no entanto, veio após o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, demorar a decidir sobre a questão, suscitada tanto pelo PT quanto pelo PL, que argumentou que os temporais em diferentes cidades também atrapalharam o deslocamento de eleitores. Ambas as siglas formularam pedidos para mais tempo de votação, mas apenas o PT levou a demanda ao Supremo.
“Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível”.
O resultado do pleito foi reconhecido pelo TSE. Segundo a Justiça Eleitoral, apenas 34 mil votos foram registrados após às 17h, horário original de encerramento da eleição. O número representa 0,027% do total, sem impacto significativo, portanto, na diferença entre Lula e Flávio, que foi superior a 4 milhões de votos.
Em toda eleição é possível que as urnas fiquem abertas após as 17h. Após o horário limite, podem votar, por exemplo, aqueles que já estavam na fila e com senha em mãos.
“Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção, diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, e que muito provavelmente estaria preso, se eles não tivessem impedido a minha posse, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime”.
A determinação do ministro Alexandre de Moraes para que Flávio entregasse os passaportes veio após a PF apontar risco de fuga do ex-candidato. Dias antes, Eduardo Bolsonaro havia declarado que o irmão deveria deixar o país em caso de derrota.
No mesmo trecho, Flávio também se queixa de ter tido a posse impedida. Ele, no entanto, não venceu o pleito, tendo sido derrotado por Lula.
“Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado”.
Foi o pai de Flávio, assim como outros integrantes do antigo governo, que foi condenado por tramar um golpe. Após a derrota nas urnas, Jair Bolsonaro apresentou aos comandantes das Forças Armadas um documento com hipóteses para instaurar Estado de defesa ou sítio, primeira etapa em uma ação para impedir a posse de Lula.
“Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime”.
Apesar de ter dito que não cometeu crimes, Flávio já era alvo, antes mesmo da eleição, de pelo menos dois inquéritos da PF que apuram práticas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Ele é investigado pela prática de crimes na produção da cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, para a qual pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e também por sua ligação com o advogado Willer Tomaz, suspeito de envolvimento no escândalo do INSS.
“Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime”.
Flávio deixou o país às escondidas após a ordem para entregar os passaportes. Enquanto aliados divulgavam informações falsas sobre o seu paradeiro, o senador cruzou a fronteira com a Argentina por terra, usando um passaporte italiano sem deixar registro de passagem por postos de controle migratório. Do país vizinho, passou pelo Equador e pegou um jato particular rumo aos EUA.
“A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e se espalhou para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos, tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista”.
Apesar de criticar o fato de que a maioria atual do STF foi indicada por presidentes do PT, as principais críticas de Flávio recaem sobre o ministro Alexandre de Moraes, alçado à Corte por Michel Temer. Além disso, o senador não cita que o presidente e o vice-presidente do TSE durante as eleições eram os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, nomeados por Jair Bolsonaro.
“Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio país longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade. Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu país. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, se recusou a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa”.
Nesse trecho, Flávio se compara a lideranças históricas que tiveram de partir para o exílio por questões políticas, mas a sua situação se distingue dos personagens citados. O general francês Charles de Gaulle deixou a França após a invasão das tropas de Hitler e passou a comandar a resistência do exterior. José Martí, por sua vez, é um dos heróis da história cubana e uma figura chave na libertação do país da Espanha.
Um dos casos citados é o de Juan Guaidó. Diferentemente de Flávio, no entanto, ele chegou a ser reconhecido como presidente da Venezuela por diferentes países, como Alemanha, Estados Unidos, Argentina e o próprio Brasil, então governado por Jair Bolsonaro, após denúncias de irregularidades no pleito local. Nenhum país contestou até o momento a vitória de Lula, com exceção de Trump, que deu declarações ambíguas — o americano disse que “pareceu mais uma eleição fraudada”, mas acrescentou gostar do petista e que “não iria se envolver”.
“Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr”.
Flávio volta a se queixar de ter tido a eleição “roubada”, mas não apresenta provas de fraudes. Até mesmo aliados do senador, como o governador paulista Tarcísio de Freitas e o senador Rogério Marinho, afirmaram respeitar o resultado e reconheceram a vitória de Lula.
O candidato derrotado também diz que o país vive uma tirania e que seus aliados não teriam a liberdade necessária. No primeiro turno, a bancada bolsonarista, no entanto, se tornou a maior das duas casas do Congresso Nacional, eleita majoritariamente com discurso de crítica ao petismo e ao STF.
BS20261029131906.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/29/de-rui-barbosa-a-lider-cubano-e-nobel-da-paz-em-carta-golpista-flavio-se-comparou-a-exilados-e-perseguidos-conheca.ghtml

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