
Gourmet Brasília
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“E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente isso. Eu sou eu e você é você. É vasto, …
“E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu” e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero – eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente isso. Eu sou eu e você é você. É vasto, vai durar. Eu sei mais ou menos o que vou fazer em seguida. Mas por enquanto olha pra mim e me ama. Não. Tu olhas pra ti e te amas. É o que está certo.”
Essa é Clarice em Água Viva. E quem me acompanha por aqui sabe exatamente porque lembrei desse trecho justo agora. Foi Bethânia, no show que fez no último sábado de carnaval. Dito assim, com uma ou outra adaptação. Dito lindamente como quase tudo o que ela, melhor ainda, o que elas fazem/fizeram.
Escutava uma analisanda na sexta que antecedeu a live – aliás, ela segue disponível na internet para quem não pode vê-la no dia 13 – e lembrei de um outro texto de Clarice, esse de A Paixão Segundo GH. Talvez, de todos, o meu favorito. “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”
Ela, a analisanda, me contava de um novo amor. Embora resista grandemente à palavra. Viveu um fim de relacionamento difícil de suportar. Segue vivendo. Mas encontrou, assim, meio de surpresa, um amigo antigo que vem lhe alegrando e ocupando os dias. Anda louca de medo de entender que não só se equilibra mais com as duas pernas, como gosta do movimento livre que ganhou com a perda da terceira. Anda louca de medo de sentir a plenitude sem fulminação. Para ela, a linda lembrança de Clarice: eu sou eu e você é você, cada um com suas próprias pernas.
Ainda no mesmo show, Bethânia lembrou Guimarães Rosa e o seu comovente “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” Não precisa ser vasto, não precisa necessariamente durar, desde que a gente entenda que olhar pra si e se amar é o que é certo. Boa semana, queridos.
Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quemmandaaquisoueu – Verdadesinconfessàveissobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…
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