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Da cantora brasileira à estrela espanhola, passando por novos selos editoriais e pelo sucesso da série ‘The Chosen’, cultura contemporânea tem buscado refúgio no sagrado

Nesta segunda-feiramar (10), quando subir ao palco da Farmasi Arena, na Zona Sudoeste do Rio, para o primeiro de dois shows na cidade, Rosalía dará voz a um dilema que atormenta os místicos desde sempre. “Quem dera viver entre os dois/ Primeiro amarei o mundo, depois amarei a Deus”, diz “Sexo, violência y llantas”, música que abre tanto o setlist da turnê “Lux” quanto o álbum homônimo, lançado em novembro e inspirado por hagiografias de santas católicas, obras de autoras cristãs (de Hildegarda de Bingen a Simone Weil) e na sabedoria de místicas do islã e do budismo, como Rabia al-Adawiyya e Vimalā.
Com “Lux”, a catalã que alcançou a glória ao misturar música flamenca com reggaeton, hip-hop e batidas eletrônicas se tornou a face mais visível de um movimento marcante da cultura contemporânea, que cada vez mais tem se posposto a investigar o sagrado. Os músicos parecem estar na linha de frente, do evangélico Justin Bieber, que, na final da Copa do Mundo, cantou uma música que reflete sua própria jornada espiritual (“Everything Hallelujah”) a Anitta, que incluiu elementos do candomblé em seu novo disco, “Equilibrivm II”. O último disco da rapper britânica M.I.A., “M.I.7”, é recheado de referências ao Livro do Apocalipse, e o mais recente trabalho da americana Azealia Banks, “Zenzealia”, é literalmente uma meditação guiada.
Em junho, a revista The New Yorker afirmou que o cinema cristão vive uma “era de ouro” impulsionada por “The Chosen”, série que narra a vida de Jesus e se tornou um fenômeno graças à produção caprichosa (esqueça aqueles figurinos de filmes bíblicos que parecem emprestados de peças da igreja) e a profundidade com que trata os dramas humanos das Escrituras. A sexta temporada, focada nos últimos momentos da vida de Cristo, chega ao streaming em novembro. Financiada pelos próprios espectadores (que ganham direito de ser figurantes), “The Chosen” é sucesso também no Brasil, onde é exibida por SBT, Netflix e Prime Video. As últimas três temporadas estrearam em cinemas por aqui. A quarta e a quinta atraíram, cada uma, quase um milhão de espectadores. Filmes com mensagens cristãs, como “O som da liberdade” e “A forja”, também conquistaram um público fiel.
Entre outras produções hollywoodianas de inspiração religiosas, destacam-se séries como “Os santos por Martin Scorsese” e “Casa de Davi” (inspirada no herói bíblico) e a animação “O rei dos reis” (também sobre Jesus). “A ressurreição de Cristo”, continuação de “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson, chega aos cinemas no ano que vem, dividida em duas partes. Em fevereiro, os Estúdios Globo firmaram uma parceria com a editora Mundo Cristão para adaptar obras de ficção cristã.
O mundo dos livros também anda mais espiritualizado. Uma das estrelas da Flip, no mês passado, foi o cardeal e poeta português José Tolentino Mendonça, que é prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano. Ele rezou uma missa numa igreja lotada em Paraty. Admirador de Rosalía — ele já afirmou que, em “Lux, a cantora captou a “profunda necessidade” contemporânea de “cultivar uma vida interior” —, Mendonça disse ao GLOBO que a cultura tem encarado a religião com uma “curiosidade sábia”, sem tanto “preconceito” ou “suspeitas”. É como disse uma reportagem da edição britânica da revista Glamour: “God is SO back” (Deus voltou com tudo).
Mas por que a cultura está tão interessada no sagrado? Professor do Departamento de Ciência da Religião da PUC-SP, Jorge Cláudio Ribeiro define religiosidade como a “capacidade humana, histórica e culturalmente determinada, de elaborar sentidos para a totalidade da existência”. E os artistas, diz ele, são “antenas”, capazes de captar as tendências contemporâneas (como o retorno da religião ao espaço público) e nos ajudar nessa busca por sentido.
A antropóloga Lívia Reis, coordenadora de religião e política do Iser (Instituto de Estudos da Religião) lembra que, ao pregar a separação entre Igreja e Estado, a Modernidade tentou confinar a religião na esfera privada. No entanto, “a religião sempre foi pública” e, inclusive, contribuiu para formar as identidades nacionais — a brasileira, por exemplo, é profundamente marcada pelo catolicismo e pelas espiritualidades de matriz africana. Nos últimos tempos, assistimos à “reconfiguração da importância da religião na vida pública” no mundo todo, explica a pesquisadora. Tradições religiosas antes invisibilizadas, como os evangélicos, no caso do Brasil, se integraram mais à cultura e as pessoas de fé (os artistas entre elas) se sentem mais confortáveis para falar abertamente sobre espiritualidade.
No último domingo, em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, Anitta disse que não tem mais medo de dizer que é “da macumba”. “Para mim, Deus é amor. Espero que as pessoas se sintam livres para mostrar sua fé”, afirmou.
— Anitta está dando visibilidade para a contribuição cultural das religiões de matriz africana num país racista, onde muita gente ainda acha que é “coisa do demônio” — diz Lívia. — A religião é um marcador social, assim como gênero, raça e classe. Ela ajuda a construir a nossa subjetividade, como nos relacionamos com o mundo. Está no léxico das pessoas. Você anda pelo Mercadão de Madureira e te chamam: “ô, varão”, “ô, varoa”.
O retorno de Deus na cultura é às vezes lido como mais uma manifestação do avanço do conservadorismo. Em alguns casos, aponta a pesquisadora, a aproximação com a fé cristã de fato torna o discurso de certos artistas mais fechados. Um exemplo é a cantora Cláudia Leitte, que é evangélica e mudou a letra da canção “Cangueiro”: saiu Iemanjá e entrou o “rei Yeshua” (uma maneira de referir a Jesus Cristo). Lívia também insiste que é preciso distinguir a tentativa (esta, sim, conservadora) de alguns nomes de afirmar uma “cultura cristã” da exploração “disruptiva” de temas religiosos feita por artistas como Rosalía.
Num vídeo recente, o jornalista musical Guilherme Guedes aventou hipóteses do porquê de tantos artistas terem se aproximado da religião: inteligência comercial (Anitta e Rosalía são excelentes gestoras da própria carreira, é bom lembrar); um reflexo da onda conservadora; ou uma reação ao excesso de ruído da vida contemporânea. Ele está mais confiante nessa última.
— Nossa vida é tão controlada por máquinas, inteligência artificial e algoritmos que não sabemos como funcionam que talvez o que nos tenha restado é buscar nossa humanidade por meio da conexão espiritual. Já que não temos controle sobre nada, melhor pedir ajuda aos céus, sabe? — especula o apresentador do Multishow.
Editora executiva da Rocco, Ana Lima acredita que os “excessos do contemporâneo” estejam nos levando a buscar “refúgio” na espiritualidade, que se apresenta “tanto como uma ferramenta de autoconhecimento quanto um escape de uma realidade que não dá margem ao sonho”. A pandemia, a crise ecológica e o medo de um futuro apocalíptico também nos forçaram a encarar a finitude e a “nos preparar para lidar melhor com a vida”, acrescenta a editora, que tem visto a espiritualidade aparecer mais também na ficção (em “Meus amigos”, do best-seller sueco Fredrik Backman, o encontro com o divino se dá por meio da arte e da beleza). No ano passado, a Rocco inaugurou um selo ecumênico voltado a obras sobre espiritualidade, das “Meditações diárias de Santo Agostinho” a títulos como “Os segredos do tarô”, de Barbara G. Walker.
A Zahar, selo Companhia das Letras célebre pela publicação de ciências humanas, lança “Uma ideia elegante de Deus”, do pastor batista Ed René Kivitz. Ricardo Teperman, publisher da Zahar, disse ao GLOBO que o selo deve continuar investindo em temas espirituais. Entre os títulos previstos, está “Deus em busca do homem”, do rabino Abraham J. Heschel (1907-1973). Esse movimento é global. Os dois maiores grupos editorais do planeta, a Penguin Random House e a HarperCollins criaram recentemente novos selos dedicados à espiritualidade. A editora Ajda Vucicevic disse à imprensa que o selo HarperElement Spirit é uma resposta “ao crescimento do apetite global por sentido, reflexão e uma vida guiada pela fé”. Já o selo da PRH, Enlighten, estreia no Reino Unido em setembro com uma coletânea de escritos do Papa Leão XIV.
Em “A sabedoria das noviças” (Best-seller), as pesquisadoras espanholas Ana Garriga e Carmen Urbita buscam, nas biografias de freiras do século XVI (como Sor Juana Inés de la Cruz), conselhos para problemas contemporâneos, como síndrome do impostor e amizades ciumentas. O livro já saiu em 11 países, do Canadá à Croácia. Num e-mail ao GLOBO, as autoras concordaram que “é inegável haver uma fascinação crescente, cada vez mais mainstream por uma amalgama indefinida de coisas que tendemos a colocar sobre a rubrica da religião”.
— Talvez faça sentido, neste momento marcado por uma sensação apocalíptica, buscar respostas. A questão é como se dá a aproximação com a vida espiritual. A respostas podem ser terrivelmente dogmáticas e reacionárias ou, ao contrário, iluminar a possibilidade de habitar o presente de forma mais ritualizada, priorizando os ciclos naturais da vida e as ferramentas coletivas de autogoverno — afirmam as pesquisadoras, que acreditam que as freiras (inspiração para divas pop como Rosalía, Chappell Roan e Lily Allen) podem se tornar “novos ícones feministas”, pois “remetem a uma história de resistência, rebeldia e sobrevivência coletiva”.
A artista visual e escritora Esther Faingold vê na revalorização de artistas “exotéricos”, como a oculista sueca Hilma af Klint (1862-1944), e na maior presença da simbologia religiosa africana na arte contemporânea, sinais o retorno do sagrado na cultura. Ela acaba de lançar o romance, “Apneia” (Cosac), narrado por uma mulher (também chamada Esther) que precisa se submeter a eletrochoques para tratar a depressão. Com medo de perder a memória (um possível efeito colateral), ela começa a escrever sua vida. Desde pequena, a narradora viveu imersa na religião: pai judeu, mãe católica e um punhado de parentes protestantes das mais diversas vertentes. Seu sonho infantil era ir para Israel, e personagens bíblicos, como o Rei Davi, pareciam familiares próximos. O apelido da avó, que tanto se sacrificava, era Jesus.
Para vencer a depressão, a personagem tenta o budismo tibetano, cogita virar monja e procurar um exorcista. Sua busca por cura faz pensar na sede da cultura contemporânea por alguma transcendência que alivie o peso do mundo.
— A fé aparece no livro como uma ideia de crise, é da “noite escura da alma” de São João da Cruz, que faz desaparecer todas as imagens fáceis e comerciais de Deus — diz Esther. — Tenho receio de usar a palavras como “místico” ou “exotérico”, que estão banalizadas, mas sinto que o que o artista faz é perseguir a luz, não uma claridade triunfante, mas uma pequena luz que insiste em se manter acessar, apesar de tudo. Acho que isso é fé.
Em “Mártir!” (Rocco), romance do iraniano-americano Kaveh Akbar que chegou recentemente às livrarias brasileiras, o peso da existência também move o protagonista, Cyrus, a buscar a graça. “Me ajude me ajude me ajude, por favor por favor por favor obrigado obrigado obrigado”, ele reza (curiosamente, é quase a mesma oração repetida no filme “Valor sentimental”, que tirou o Oscar do nosso “O agente secreto”). Em recuperação da dependência de álcool, muçulmano, queer e com uma vida marcada pelo luto, Cyrus começa a escrever um livro sobre o conceito de martírio, mas despido da carga religiosa. Akbar é organizador de uma antologia, inédita em português, com versos de 110 poetas sobre “o divino”, que inclui Adélia Prado. Ele admira a habilidade da poeta mineira de entrelaçar espiritualidade, cotidiano e o erotismo:
— Não existe uma parte imaculada do meu ser reservada para Deus. Rezo e beijo minha esposa com o mesmo corpo. É a única tecnologia que temos para nos aproximar do divino — explica.
“Através do meu corpo você pode ver a luz”, diz a música “Divinize”, que Rosalía deve cantar amanhã. Não deixa de ser uma metáfora da aposta da cultura contemporânea: com artifícios terrenos, encontrar o sagrado.
BS20260809063019.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/08/09/deus-por-todos-de-anitta-a-rosalia-de-editoras-a-serie-por-que-musica-livros-e-audiovisual-estao-tao-focados-na-espiritualidade.ghtml

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