ECONOMIA

Em SP, Janet Yellen afirma que Fed deve subir juros e inflação americana ficará elevada até ao menos 2027

24 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Ex-presidente do Banco Central americano e secretária de Tesouro do governo Joe Biden também vê ‘erosão gradual do papel do dólar’ no cenário global

Janet Yellen — Foto: Paulo Bareta/Divulgação

Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve, o Banco Central americano, afirmou nesta quinta-feira em São Paulo crer que a instituição está pronta para subir a taxa básica de juros. Durante o Expert XP, evento organizado pela XP, Yellen também apontou a inteligência artificial como novo fator de pressão inflacionária, além da guerra contra o Irã e das tarifas anunciadas pelo presidente Donald Trump contra outros países.

O avanço da tecnologia, argumentou, tem elevado a demanda por semicondutores e eletricidade, encarecendo esses insumos e afetando preços ao longo da cadeia. A também ex-secretária do Tesouro dos EUA, no governo Joe Biden, avalia que, junto a outros fatores, isso deve fazer com que a inflação americana siga acima da meta do Fed (de 2 %) por pelo menos dois anos, após cinco anos fora da meta.

— Agora que o impacto das tarifas está se dissipando, temos as seguidas rupturas no Oriente Médio. Parece haver uma extensão das hostilidades e nenhum fim claro da guerra no horizonte. E, portanto, um novo choque de oferta. É provável que a inflação permaneça elevada por pelo menos o próximo ano ou mais — disse a economista. — Agora estamos olhando (em retrospectiva) para cinco anos ou mais com a inflação significativamente acima do objetivo de 2% do Fed.

Yellen acrescentou que ainda não há evidências consistentes de ganhos relevantes de produtividade na economia americana como um todo, apesar dos impactos pontuais da IA em alguns setores.

Dólar mais coadjuvante em cenário global

No cenário global, por sua vez, Yellen disse observar uma erosão gradual do papel do dólar. A moeda representa hoje pouco mais de 50% das reservas internacionais, pontuou, abaixo dos cerca de 70% registrados no passado, ao mesmo tempo em que cresce a participação do ouro nas carteiras dos bancos centrais mundo afora.

— O aumento do ouro em parte reflete o desejo de ser menos dependente do dólar, já que os EUA podem impor sanções, mas realmente não há nenhuma moeda que possa ocupar o lugar do dólar — disse a economista, uma das mais influentes e respeitadas do planeta.

Yellen também alertou para o quadro fiscal nos EUA, que considera um problema relevante, assim como em outras economias avançadas, entre elas Japão, países da União Europeia e Reino Unido:

— Nos EUA, a relação dívida/PIB está em cerca de 100% e esse é um nível que, no passado, causou problemas para muitas economias. O que me preocupa não é apenas a relação dívida/PIB, mas o tamanho do peso dos encargos com juros.

Segundo a economista, há sinais de que a taxa de juros neutra (quando a política monetária não tem efeito contracionista ou expansionista) será mais alta do que no período pré-pandemia. Ela elencou ainda alguns fatores estruturais que tendem a ampliar o déficit ao longo do tempo, notadamente o envelhecimento da população. O aumento da proporção de aposentados em relação aos trabalhadores ativos eleva os gastos com Previdência e saúde.

— E você provavelmente não verá ninguém concorrendo na próxima eleição presidencial, em 2028, seja republicano ou democrata, dizendo: “minha agenda é impor algumas dessas formas de sacrifício à população”, em momento em que as pessoas afirmam que o custo de vida é seu maior problema. Não estou vendo um esforço significativo para lidar com isso e a relação dívida/PIB pode subir ainda mais rapidamente. Em algum momento os mercados olharão para isso, especialmente considerando que, pelas tendências, os bancos centrais estão mantendo menos títulos do Tesouro dos EUA.


BS20260723214537.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/23/em-sp-janet-yellen-afirma-que-fed-deve-subir-juros-e-inflacao-americana-ficara-elevada-ate-ao-menos-2027.ghtml

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