POLÍTICA

Entorno de Lula já trabalha com possibilidade de votação da PEC 6×1 ficar para depois da eleição

23 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Esvaziamento do Congresso às vésperas do pleito e relação distante entre o presidente e Alcolumbre são impasses

Lula e Alcolumbre conversam durante evento no Planalto – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já trabalha com a possibilidade de a votação de projetos de interesse do governo federal no Senado, como a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a jornada de trabalho 6×1, ocorram após a eleição de outubro. São lembradas também a PEC da Segurança Pública e o projeto que cria regras e busca incentivar a indústria nacional na exploração dos minerais críticos. Esses temas são prioritários para o Planalto e considerados possíveis vitrines a serem exploradas na campanha do petista à reeleição.

De acordo com dois interlocutores frequentes do petista, a avaliação é que dificilmente essas propostas avançarão com o Congresso esvaziado e os parlamentares de olho nas eleições em seus estados, além da falta de diálogo entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Os dois políticos se afastaram após o Senado rejeitar o nome de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), impondo derrota histórica ao petista.

O Planalto acredita que o parlamentar orquestrou esse movimento e, desde então, as duas autoridades não se falam. Alcolumbre sinalizou a interlocutores de Lula que as propostas de interesse do governo só devem andar no Senado após uma conversa com o chefe do Executivo, o que ainda não ocorreu.

Um ministro do governo diz, sob reserva, que já chegou ao Planalto a intenção da cúpula do Congresso em deixar esses temas para serem apreciados após as eleições e que esse cenário tem sido dado como certo no entorno do presidente. Esse auxiliar do petista afirma, no entanto, que Lula poderá usar isso a seu favor na campanha, já que o presidente poderá usar discurso que o governo fez a sua parte, mas o Congresso não, reforçando crítica usada por aliados do petista e incentivada pelo Planalto de que o “Congresso é inimigo do povo”.

Por outro lado, há uma ala do governo que fala que é preciso forçar o debate e buscar a votação dessas propostas diante do que consideram riscos de que os textos sejam amplamente modificados após as eleições. Um auxiliar de Lula diz que o Planalto atuará para que isso ocorra na volta do recesso parlamentar, em agosto. Ele afirma que é preciso aproveitar a mobilização popular em torno da PEC da 6×1 e a projeção do assunto no contexto eleitoral, já que isso pressiona os parlamentares, para forçar a discussão do tema e sua aprovação sem grandes modificações ao texto.

Esse interlocutor frequente de Lula diz que o Planalto monitora a situação e avalia que há um risco de modificações em pontos-chave do texto, como por exemplo aumentar o período de transição para que a redução de jornada passe a valer. A proposta aprovada na Câmara prevê a redução de 44 horas para 40 horas semanais de trabalho em uma transição de um ano. Além disso, há o receio de que possam ser incluídas outras compensações no texto.

A PEC foi aprovada na Câmara, em dois turnos, no dia 27 de maio, mas não andou no Senado. Alcolumbre sequer despachou a matéria para ser analisada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o que gerou queixa de ministros, aliados do presidente da República e da militância de partidos de esquerda. A avaliação de governistas é que o tema mobiliza o lobby do setor empresarial e é preciso manter a discussão junto à opinião pública para forçar o seu andamento no Congresso.

Historicamente, o Congresso fica esvaziado durante as eleições, já que parlamentares focam sua atuação em seus redutos eleitorais. A cúpula do Legislativo definiu duas semanas em que haverá um esforço concentrado para sessões deliberativas na Câmara e no Senado: entre 10 e 14 de agosto e de 31 de agosto a 3 de setembro.

A PEC da Segurança Pública era uma das apostas do governo Lula para a área, que deverá ser um dos principais temas discutidos nessas eleições. A PEC foi aprovada na Câmara em março deste ano e, desde então, não avançou no Senado. Cabe ao presidente da Casa despachar o tema para análise das comissões, o que ainda não foi feito. A proposta das terras raras, por sua vez, é lembrada pela importância de discutir esse assunto num momento em que o governo Donald Trump, dos Estados Unidos, impôs novas tarifas aos produtos brasileiros. O projeto também foi aprovado por deputados, em maio, mas não teve andamento no Senado.

Além dessas propostas, o Planalto acompanha a tramitação de algumas medidas provisórias (MPs) editadas pelo governo e que estão próximas dos prazos em que perdem validade. A principal delas é a que acaba com a chamada “taxa das blusinhas”, a cobrança de 20% sobre compras internacionais, que tem validade até 8 de setembro. O tema precisa ser analisado numa comissão mista (formada por deputados e senadores) antes de ser votado nos plenários da Câmara e do Senado. Essa comissão ainda não foi instalada.

Esse foi um tema de desgaste ao Planalto e revertido neste ano após a avaliação de que essa cobrança poderia prejudicar eleitoralmente Lula. A avaliação de aliados do presidente é que o Congresso pode atuar para deixar essa MP perder a validade, impondo grande revés político a Lula às vésperas das eleições. Um integrante da articulação política do petista diz que haverá um esforço junto aos parlamentares para que esse tema seja tratado logo na volta dos trabalhos legislativos.


BS20260723090016.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/23/entorno-de-lula-ja-trabalha-com-possibilidade-de-votacao-da-pec-6×1-ficar-para-depois-da-eleicao.ghtml

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