POLÍTICA

Governo libera três vezes mais emendas no Senado aos partidos da aliança de Lula à reeleição do que ao PL, de Flávio Bolsonaro

11 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

O governo liberou o triplo de emendas de comissão aos senadores de partidos que já acertaram a participação na aliança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição em relação aos parlamentares do PL, maior bancada da Casa e legenda de Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula no pleito. Levantamento do GLOBO com base […]

Foto: Carlos Moura/Agência Senado

O governo liberou o triplo de emendas de comissão aos senadores de partidos que já acertaram a participação na aliança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição em relação aos parlamentares do PL, maior bancada da Casa e legenda de Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula no pleito.

Levantamento do GLOBO com base nos dados de 2026 mostra que cada representante do PT, PSB e PDT teve empenhados, em média, R$ 34,1 milhões. Os integrantes do PL, por sua vez, ficaram com R$ 9,7 milhões cada, em média.

Até o momento, além do PT, sigla do presidente Lula, já confirmaram que estarão na coligação o PSB, do vice Geraldo Alckmin, e o PDT, parceiro histórico do petismo e à frente do Ministério da Previdência neste mandato.

O senador que mais recebeu emendas de comissão no ano até agora foi Cid Gomes (PSB-CE), líder do partido na Casa, com R$ 72,9 milhões. Ele deve concorrer à reeleição na mesma chapa que o PT no Ceará, onde vai rivalizar o grupo do próprio irmão, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB-CE).

O capital político angariado com as emendas tem papel relevante, por exemplo, na relação com prefeitos, que funcionam como cabos eleitorais na corrida ao Senado.

Procurada, a Secretaria de Relações Institucionais negou que haja privilégios e afirmou que a distribuição das emendas de comissão entre partidos e parlamentares é atribuição das presidências das comissões, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal.

“A SRI faz a gestão das liberações financeiras junto à Secretaria do Tesouro Nacional de acordo com a disponibilidade de recursos e mediante demanda dos ministérios”, afirmou a pasta.

“Despesa muito grande”

No dia 27 de maio, por exemplo, o prefeito de Coreaú (CE), Edézio Sitonio (PSB), agradeceu o senador nas redes sociais após o envio de R$ 1 milhão em recursos para a saúde. O mandatário também integra o grupo político do ex-ministro Camilo Santana e do governador Elmano Freitas (PT), que vai concorrer à reeleição com o apoio de Lula.

— Agradecemos o nosso senador Cid Gomes pela ajuda de sempre. Hoje ele ligou dizendo que tinha destinado R$ 1 milhão para a saúde do nosso município. Já olhamos e está na conta. Nesse momento importante, nós inauguramos um centro cirúrgico, uma despesa muito grande, e você todos os anos tem ajudado a saúde do nosso município com emendas parlamentares — afirmou o prefeito.

A portaria com o envio do recurso de R$ 1 milhão foi publicada no dia 13 de maio e, na observação do empenho, por determinação do Supremo Tribunal Federal, consta o nome do senador como solicitante. Procurado, Cid Gomes não se manifestou.

Outro exemplo é o senador Weverton Rocha (PDT-MA), o terceiro colocado na lista, com R$ 55,7 milhões. Ele é um dos vice-líderes do governo na Casa e foi o responsável por relatórios favoráveis a iniciativas de interesse do Planalto, como as indicações de Flávio Dino e Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). Procurado, Weverton não comentou.

Os partidos que têm grupos alinhados tanto ao Planalto quanto à oposição, casos de MDB, PP, PSD, Republicanos e União, por sua vez, garantiram uma média de R$ 23,5 milhões por senador, mais que o dobro da bancada do PL. É nesse grupo de partidos de centro que o Planalto enxerga brechas para ampliar o leque de alianças de Lula, ainda que sem um apoio formal das cúpulas partidárias.

Também estão nessas legendas parlamentares que podem ser decisivos para a aprovação de pautas que o governo quer que avancem até a eleição, casos das Propostas de Emendas à Constituição (PECs) do fim da jornada de trabalho 6×1 e da segurança pública.

A senadora Professora Dorinha (União-TO), que já foi vice-líder do governo no Senado, é a segunda que mais recebeu, com R$ 63,2 milhões. Ela já relatou iniciativas importantes para o governo, como a Medida Provisória que dá reajuste para professores e a nova lei que regulamenta a reforma do Ensino Médio. Dorinha afirma que o volume de emendas se justifica porque ela comanda a Comissão de Desenvolvimento Regional e Turismo:

— Os recursos que foram definidos para os senadores pelas emendas de comissão estão concentrados em três comissões. Eu sou presidente de uma delas, a de Desenvolvimento Regional e Turismo. (Recursos para) Cidades e infraestrutura, Codevasf, Calha Norte e turismo ficam dentro da comissão.

Senador do PL em 44º lugar

Da mesma forma, os senadores emedebistas Eduardo Braga (AM) e Marcelo Castro (PI) completam a lista dos cinco primeiros colocados. Braga, que é líder do partido, foi relator da Reforma Tributária e costuma articular a favor de iniciativas de interesse do governo, recebeu R$ 52,2 milhões. Por sua vez, Castro recebeu R$ 53,6 milhões. Os dois senadores do MDB vão concorrer à reeleição neste ano e amarraram acordos para estarem na mesma chapa que o PT em seus estados. Braga e Castro não comentaram.

A lista dos valores totais é liderada pelo PSD, com R$ 359 milhões, seguido pelo MDB, com R$ 313 milhões; PT, com R$ 288 milhões; e PSB, com R$ 255 milhões. Apesar de ser a maior bancada do Senado, com 16 integrante, o PL é apenas o quinto partido que mais recebeu recursos: R$ 155 milhões.

O senador do PL que mais teve verbas asseguradas aparece apenas na 44ª posição geral: Efraim Filho (PB), com R$ 22,3 milhões. Pré-candidato à Presidência da República e principal adversário de Lula segundo as pesquisas de intenção de voto, o senador Flávio Bolsonaro tem um valor ainda menor de indicações de emendas de comissão: R$ 12,7 milhões.

Para o levantamento, foram considerados os casos em que apenas um senador aparece como solicitante da emenda no documento em que o governo federal informa que a verba está reservada.

Ao contrário das emendas individuais e de bancada, cujo pagamento pelo governo é obrigatório pela Constituição, as emendas de comissão são discricionárias. Isso significa que o Poder Executivo tem a prerrogativa de decidir se, como e quando o dinheiro será efetivamente liberado. Ou seja, o Palácio do Planalto pode ditar o ritmo de repasses e associar o fluxo de pagamentos a possíveis interesses eleitorais.

“Não é republicana”

O líder do PSD no Senado, Omar Aziz (AM), minimizou e disse que os senadores da oposição já possuem à disposição recursos que o governado é obrigado a repassar:

— Existem as emendas impositivas, que têm que ser pagas.

Já o senador Izalci Lucas (PL-DF), líder da oposição no Congresso, reclamou dos critérios de distribuição:

— Infelizmente, a distribuição não é republicana. Ainda bem que temos as emendas individuais impositivas, porque antes delas eu não recebia nada.

Segundo a legislação, os recursos de emendas de comissão deveriam financiar projetos de caráter nacional ou regional mas, na prática, se consolidaram como uma das engrenagens de articulação entre o Congresso e o Palácio do Planalto.

As emendas de comissão cresceram após o Supremo Tribunal Federal barrar as antigas emendas de relator (RP 9), o chamado “orçamento secreto”. Desde o ano passado, por determinação do ministro Flávio Dino, se tornou obrigatório incluir, nas observações do empenho, as informações sobre o parlamentar que solicitou o envio daquele recurso para um beneficiário específico.

A determinação ocorreu após a Câmara dos Deputados e o Senado atribuírem os recursos apenas às comissões, sem transparência e rastreabilidade sobre seus padrinhos.


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