ECONOMIA

Inflação volta à meta, mas cenário externo e El Niño preocupam economistas e BC

12 de agosto, 2026 | Por: Agência O Globo

Impacto do fenômeno climático sobre preços de alimentos é um dos fatores que ampliam incerteza nas projeções

Alimentos ainda pressionam a inflação — Foto: Magnific

A inflação perdeu força em julho, mas ainda é fator de preocupação para economistas e para o Banco Central (BC). O IPCA, índice oficial, avançou apenas 0,07% em julho, o menor percentual para o mês em quatro anos. Ainda assim, o resultado veio acima das projeções de analistas, que previam alta de 0,03%. O leve descasamento entre expectativa e realidade é reflexo de serviços mais resistentes e de uma queda na alimentação menor do que a esperada pelos economistas. Quando se observa o comportamento dos preços em um horizonte mais longo, porém, a taxa acumulada em 12 meses ficou em 4,44%, abaixo do teto da meta definida pelo BC, de 4,5%, pela primeira vez desde abril.

O índice de inflação foi divulgado no mesmo dia em que o BC divulgou a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na semana passada, quando a taxa básica de juros foi reduzida a 14% ao ano. Na análise do BC, o quadro é de inflação puxada por consumo interno aquecido, pressionada pela demanda e que requer juro alto o suficiente para frear a economia.

Reunião antes da eleição

Nesse equilíbrio de pesos e contrapesos, de alívio em julho, mais preocupação com a demanda e o impacto do El Niño adiante, economistas colocaram no radar a possibilidade de um novo corte de 0,25 ponto percentual da Selic na reunião de setembro, a última antes da eleição presidencial. Não há consenso quanto a essa aposta, mas o cenário posterior é ainda mais nebuloso.

Qualquer análise sobre a reunião de novembro dependerá de novos dados, especialmente da inflação de serviços e do nível de atividade, além da avaliação de riscos para a inflação, como o dólar e o impacto do fenômeno climático.

Para Leonardo Costa, economista do ASA, a principal mensagem da ata do Copom foi a dependência de dados. Ele avalia que o BC evitou se comprometer com uma trajetória para os juros e deixou aberta a possibilidade de novos ajustes, caso a inflação piore ou a atividade aqueça mais do que o esperado. Costa mantém a projeção da Selic em 14% até o fim do ano, mas já reconhece risco crescente de novo corte de 0,25 ponto percentual em setembro:

— O ponto central é se a moderação da atividade segue ocorrendo de forma gradual ou se está ganhando intensidade suficiente para justificar uma postura monetária mais acomodatícia nos próximos meses.

Segundo o economista, a projeção do BC para o IPCA no primeiro trimestre de 2028 segue em 3,2%, perto da meta, o que sustentaria postura mais flexível. Até a próxima decisão, a prévia da inflação de agosto vai indicar se a surpresa dos serviços em julho foi pontual ou sinaliza desaceleração mais lenta dos componentes mais “inerciais”, enquanto os indicadores de atividade ajudarão a medir a intensidade da desaceleração econômica mencionada pelo BC.

Gabriel Pestana, economista da Genial Investimentos, defende que o ideal seria a Selic ficar no patamar atual, mas passou a esperar redução em setembro depois da ata do Copom, que sinalizou que a política monetária não deve reagir a choques vindos do lado da oferta, uma mudança em relação à comunicação anterior.

De novembro em diante, porém, ele vê cenário mais incerto. A sazonalidade de serviços e alimentos, que pode ser agravada pelo El Niño, estímulos fiscais, eventual piora do câmbio com a proximidade das eleições e o risco de novos conflitos pressionando juros nas economias desenvolvidas podem reduzir o fluxo de recursos para emergentes.

— A gente entende que o BC vai parar de cortar em novembro, mas a chance de corte aumentou um pouco após a ata. Estamos vendo um BC talvez um pouco mais preocupado com a atividade e, por isso, mais confortável com uma inflação entre 4% e 4,5% do que em 3% — analisa Pestana.

Calibragem do BC

Já o economista-chefe do C6, Felipe Salles, avalia que o BC adotou postura dura e agora tenta calibrar o grau ótimo de aperto.

— Está tudo muito incerto e muito complexo. O Banco Central vai tateando, decidindo reunião a reunião, aprendendo com os novos dados — resume Salles que, por ora, projeta manutenção de 14% da Taxa Selic, mas diz que um corte de 0,25% está “super na mesa”.

Cabo de guerra

O gerente do IPCA, Fernando Gonçalves, resumiu o resultado como “cabo de guerra”. De um lado, alimentos e combustíveis mais baratos. Do outro, a energia elétrica em alta. Sem a alimentação, o índice teria subido 0,27%. Sem a energia, teria havido deflação de 0,07%, calcula.

“Está tudo muito incerto e complexo. O Banco Central vai tateando, decidindo reunião a reunião, aprendendo com os novos dados”, Felipe Salles, economista-chefe do C6

O grupo Alimentação e bebidas caiu 0,67% — a maior queda desde julho de 2024 —, puxado pela alimentação no domicílio (-1,14%). Tomate (-29%), batata-inglesa (-19,6%) e cenoura (-14,4%) lideraram as quedas. O café, vilão da inflação nos últimos anos, recuou 2,45% no mês e acumula queda de 17,2% em 12 meses, a maior desde o Plano Real, mas ainda não devolveu toda a alta de 82,24% acumulada até maio de 2025.

Braz, do FGV Ibre, projeta agosto e setembro favoráveis à agricultura, com o principal risco vindo de possíveis efeitos do El Niño mais adiante.

A alimentação fora do domicílio e os serviços, por outro lado, aceleraram com o período de férias. Passagens aéreas subiram (11,67%).

A energia elétrica subiu 3,09%, maior alta para julho desde 2021, puxada por reajustes em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba e pela manutenção da bandeira amarela. Para agosto, o bônus de Itaipu deve aliviar a conta de luz. André Braz, coordenador do índice de preços do FGV Ibre, projeta queda de 7% no item, mas alerta que o efeito será rebatido pela devolução do efeito desse bônus já em setembro:

— O BC precisa analisar quase semanalmente o cenário nacional e internacional. Se nada mudar nos próximos 45 dias, há chance de novo corte de 0,25 ponto. Não dá para cravar. A palavra-chave desses tempos é incerteza.


BS20260812030016.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/08/12/inflacao-volta-a-meta-mas-cenario-externo-e-el-nino-preocupam-economistas-e-bc.ghtml

Artigos Relacionados