VARIEDADES

Luto na dramaturgia: relembre as novelas que fizeram de Benedito Ruy Barbosa um dos maiores autores da TV brasileira

7 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Morto aos 95 anos, escritor deixou um legado de sucessos como Pantanal, Renascer, O Rei do Gado e Terra Nostra, obras que transformaram o interior do Brasil em protagonista da televisão

Escritor deixou um legado de sucessos como Pantanal, Terra Nostra, Renascer e O Rei do Gado — Foto: Reprodução/TV Globo

A morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, nesta terça-feira, encerra a trajetória de um dos autores mais influentes da história da televisão brasileira. Responsável por alguns dos maiores sucessos da teledramaturgia nacional, o escritor ajudou a redefinir o gênero ao levar para o horário nobre histórias ambientadas no campo, abordando conflitos familiares, disputas por terra, preservação ambiental e tradições do interior do país.

Ao longo de mais de cinco décadas de carreira, Benedito criou novelas que ultrapassaram os índices de audiência para se tornarem parte da memória afetiva dos brasileiros. Seus personagens e paisagens marcaram diferentes gerações e consolidaram um estilo próprio de contar histórias, no qual a natureza e a vida no campo deixavam de ser pano de fundo para ocupar o centro da narrativa.

As novelas que marcaram época

  • Pantanal (1990)

Entre suas obras mais emblemáticas está Pantanal, exibida originalmente em 1990, foi produzida pela extinta TV Manchete e rompeu padrões estéticos ao apostar em gravações em locações naturais e transformar a paisagem do Pantanal em um dos principais elementos da trama. A história gira em torno do fazendeiro José Leôncio (Cláudio Marzo), que busca seu filho criado na cidade, Joventino (Marcos Winter) , e o romance deste com Juma Marruá (Cristiana Oliveira), uma mulher-onça que protege suas terras.

Cristiana Oliveira como Juma em Pantanal (1990) — Foto: Divulgação
Cristiana Oliveira como Juma em Pantanal (1990) — Foto: Divulgação

A história explora a relação entre a família Leôncio e a natureza, abordando disputas por terras e lendas locais, como a mística figura do Velho do Rio. Décadas depois, a história ganhou uma nova adaptação na TV Globo, escrita por Bruno Luperi, neto de Benedito, e voltou a conquistar o público.

  • Renascer (1993)

Outro grande marco da carreira do escritor foi Renascer, que narrou a história de José Inocêncio, um rico produtor de cacau com uma misteriosa conexão com a natureza, que guarda rancor do filho mais novo José Pedro Inocêncio desde que sua esposa morreu durante o parto. As coisas se complicam quando ambos se apaixonam pela mesma mulher, Mariana. O triângulo amoroso foi estrelado respectivamente por Antônio Fagundes, Marcos Palmeira e Adriana Esteves.

Adriana Esteves e Antônio Fagundes em Renascer (1993) — Foto: Divulgação
Adriana Esteves e Antônio Fagundes em Renascer (1993) — Foto: Divulgação

A novela conquistou enorme repercussão e também ganhou um remake em 2024, reafirmando a força das histórias criadas pelo autor. Na versão atual, Palmeira interpretou José Inocêncio ao lado de Juan Paiva como João Pedro e Theresa Fonseca como Mariana.

  • O Rei do Gado (1996)

Considerada uma de suas obras-primas, a trama conta a história da inimizade entre duas famílias de fazendeiros em uma disputa territorial, e o amor proibido entre um homem e uma mulher misteriosa, sem terra e sem passado. Misturando romance, conflitos familiares e questões ligadas à reforma agrária, a produção tornou-se um dos maiores sucessos da televisão brasileira e permanece como referência do gênero.

Antônio Fagundes como Bruno Mezenga Berdinazi em 'O rei do gado' — Foto: Divulgação
Antônio Fagundes como Bruno Mezenga Berdinazi em ‘O rei do gado’ — Foto: Divulgação

A novela contou com grandes nomes no elenco como Antônio Fagundes, Patrícia Pillar, Glória Pirez e Raul Cortez, entre outros, no núcleo principal.

  • Terra Nostra (1999)

O universo dos imigrantes italianos ganhou destaque em Terra Nostra, exibida em 1999. A novela retratou a chegada de famílias ao Brasil no fim do século XIX e o trabalho nas fazendas de café, tornando-se um fenômeno de audiência também no exterior. A trama se aprofunda na história de amor de dois jovens imigrantes italianos se encontram pela primeira vez a caminho do Brasil no final do século XVIII, mas são separados após o atracamento de seus navios.

Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda em Terra Nostra (1999) — Foto: Divulgação
Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda em Terra Nostra (1999) — Foto: Divulgação

O casal foi estrelado por Ana Paula Arósio como Giuliana Esplendore e Thiago Lacerda como Mateo Batistela. O núcleo principal era composto por grandes nomes da dramaturgia que já eram rostos conhecidos de outras novelas de Ruy Barbosa, como Antônio Fagundes e Raul Cortez.

  • Esperança (2002)

Na sequência, Esperança, lançada em 2002, voltou a abordar a imigração italiana, agora sob o contexto das transformações políticas e sociais do início do século XX, acompanhando a trajetória de famílias em busca de uma nova vida no Brasil.

Raul Cortez, Reynaldo Gianecchini e Eva Wilma em Esperança (2002) — Foto: Divulgação
Raul Cortez, Reynaldo Gianecchini e Eva Wilma em Esperança (2002) — Foto: Divulgação

Na trama, Toni, um italiano pobre (interpretado por Reynaldo Gianecchini), se muda para o Brasil e vive em um conflito amoroso ao se envolver com duas mulheres: Maria (Priscila Fantin), cujo pai não aceita o romance pela condição social de Toni, e a maquiavélica Camilli (Ana Paula Arósio), filha do seu patrão. Assim como Arósio, a trama italiana também trouxe de voltas atores de “Terra nostra”, como Raul Cortez e Antônio Fagundes.

  • Velho Chico (2016)

A novela que estreou em 2016, ambientada em uma região rural brasileira banhada pelo rio São Francisco, gira em torno da rivalidade histórica entre as famílias De Sá Ribeiro e Dos Anjos na fictícia Grotas de São Francisco. Dividida em duas fases, a trama atravessa gerações e destaca o romance proibido entre Maria Tereza e Santo, que enfrentam o coronelismo, o preconceito e a corrupção política para salvar o Rio São Francisco. Na primeira fase, quando casal principal se conhecem, é interpretado por Julia Dallavia e Renato Góes e na seguinte, quando se reencontram após serem separados, por Camila Pitanga e Domingos Montagner.

Camila Pitanga e Domingos Montagner em Velho Chico (2016) — Foto: Divulgação
Camila Pitanga e Domingos Montagner em Velho Chico (2016) — Foto: Divulgação

Durante as gravações da novela Montagner morreu afogado após dar um mergulho no Rio São Francisco. O último capítulo, que terminou com um emocionante casamento entre Santo e Tereza, contou com uma grande homenagem ao ator.

  • Sinhá Moça (1986)

Sinhá Moça é uma das novelas mais aclamadas da televisão brasileira, baseada no romance homônimo de Maria Dezonne Pacheco Fernandes. Ambientada no período escravocrata do Brasil, a obra conta a história de Sinhá Moça (Lucélia Santos) que retorna ao interior paulista e passa a confrontar o pai escravocrata, o Barão de Araruna (Rubens de Falco). Defensora da liberdade, ela se apaixona pelo abolicionista Rodolfo (Marcos Paulo), sem saber que ele liberta escravos secretamente à noite.

Lucélia Santos como Sinhá Moça — Foto: Divulgação
Lucélia Santos como Sinhá Moça — Foto: Divulgação

Vinte anos depois, a história ganhou uma nova adaptação, escrita pelas filhas de Benedito, Edmara Barbosa e Edilene Barbosa. A novela foi estrelado por Débora Falabella e Danton Mello como Rodolfo.

Outros trabalhos importantes do autor incluem Cabocla, Meu Pedacinho de Chão e Paraíso. Embora algumas dessas produções tenham sido adaptações ou novas versões de histórias já escritas por ele, todas carregavam as características que marcaram sua obra: personagens profundamente humanos, forte ligação com a terra e enredos que exploravam as transformações do Brasil rural.

Um autor que mudou a televisão

Em um período em que grande parte das novelas privilegiava os grandes centros urbanos, Benedito Ruy Barbosa escolheu contar histórias do interior. Suas tramas deram protagonismo a fazendeiros, trabalhadores rurais, comunidades tradicionais e famílias marcadas por disputas e reconciliações, sempre tendo a natureza como parte essencial da narrativa.

Seu estilo influenciou gerações de autores e permanece vivo nas reprises e remakes de suas obras. Mais do que criar novelas de sucesso, Benedito ajudou a construir uma identidade própria para a dramaturgia brasileira, deixando histórias que continuam emocionando o público décadas após sua primeira exibição.


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