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Dois estudos publicados pela pasta tentam contrapor críticas crescentes do mercado de que medidas adotadas desde meados de 2025 geram excesso de demanda, pressionam os preços e pioram contas públicas

, pacote de medidas de crédito que vem sendo implementado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva desde meados de 2025 tem o potencial de elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em R$ 110,9 bilhões ao longo de sua execução. E, apesar do impulsionar o crescimento econômico, as iniciativas não gerariam pressão inflacionária por terem efeito diluído ao longo do tempo e focos bem definidos. As conclusões constam de dois estudos conduzidos pelo Ministério do Planejamento e Orçamento e publicados recentemente na página do órgão.
A ideia, segundo o GLOBO apurou, foi fazer um contraponto às teses de setores do mercado financeiro de que o governo estaria com uma postura excessivamente expansionista, gastando fora do orçamento e pressionando não só o IPCA como as expectativas para o futuro, cada vez mais longe da meta de inflação de 3%. Ainda que feitos separadamente, os dois estudos são complementares na mensagem que a equipe econômica de Lula quer transmitir: as ações feitas recentemente passam todas pelo orçamento, ainda que tenham natureza creditícia (despesa financeira), enfrentam problemas e questões setoriais, não sobreaquecem a economia e nem pioram o cenário inflacionário.
No primeiro estudo, para calcular o impacto no PIB, a pasta estima que a injeção de recursos de crédito tem um efeito multiplicador (cada real injetado, gera um valor adicional), que varia conforme o programa, mas na média é de 1,3 (cada R$ 1 injetado pelos programas, gera um PIB de R$ 1,3, como se fosse um bônus de 30% ao que foi gasto pelo governo).
O material contempla os impactos econômicos das seguintes iniciativas: ampliação do Minha Casa Minha Vida, criação do Reforma Casa Brasil, programa de renegociação de frotas para caminhões, ônibus, taxistas e motoristas de aplicativos (MOVE Brasil), crédito para indústria 4.0 e crédito para bens de capital verdes. O volume mobilizado pelo conjunto de medidas é de até R$ 83,5 bilhões, de acordo com as dotações financeiras autorizadas para cada uma delas.
Como resultado, o documento diz que as ações têm potencial de gerar 1,9 milhão de empregos diretos e indiretos, R$ 110,9 bilhões a mais no PIB e R$ 45,4 bilhões de arrecadação para os cofres públicos, caso haja execução integral dos recursos. As contas foram feitas como se fosse um impacto imediato, mas tanto o material como interlocutores ouvidos pelo GLOBO destacam que é preciso ter claro que a execução se dá em alguns casos em períodos superiores a um ano, diluindo os efeitos ao longo do tempo.
E isso seria um dos principais motivos para que as medidas não impliquem em alta da inflação atual, além do fato de as ações serem consideradas tópicas e com pouca capacidade de mudar a equação de oferta e demanda geral na economia. O governo até reconhece que as medidas mitigam a restrição provocada pela política monetária no mercado de crédito, mas tratam isso como algo parcial e com o objetivo de evitar crises setoriais, com um efeito macroeconômico considerado marginal e incapaz de ensejar impacto inflacionário relevante.
Aí que entra em cena o segundo estudo do Planejamento. Ao contestar a tese de que as medidas estariam por trás do salto nas expectativas inflacionárias, todas desancoradas (ou seja, acima da meta) segundo a pesquisa Focus, do BC, até 2029, a análise do Planejamento conclui que os principais vetores da inflação hoje são: os choques de oferta, como a disparada do petróleo devido ao conflito no Oriente Médio e a expectativa de um El Niño bastante forte neste ano.
O texto detalha os vetores do avanço das expectativas desde março e salienta que o aumento das projeções inflacionárias coincidiu com a eclosão da guerra no Oriente Médio e de pressões específicas sobre os preços de alguns alimentos. De outro lado, o documento aponta que não haveria elementos concretos para associar a piora no cenário inflacionário às medidas de estímulo porque o cenário de PIB na pesquisa Focus não teria se alterado substancialmente após os anúncios.
O crescimento maior previsto entre março e agora, na visão do Planejamento, está basicamente associado ao resultado acima do esperado no primeiro trimestre, que não indicaria pressão específica de demanda, até porque, mesmo com a revisão para cima, estaria crescendo abaixo do potencial. Para além da leitura dos eventos, o texto testa o argumento ao replicar a fórmula (modelo) que o BC usa para projetar a inflação. E buscou decompor a diferença nas previsões de inflação considerando apenas choques energéticos, cambiais, de commodities e climáticos, além da inércia (o efeito que faz uma inflação mais alta em um ano se propagar para os períodos seguintes).
“O exercício mostrou que esses fatores bastam para explicar o avanço das expectativas de inflação no período. Esse resultado é coerente com as expectativas praticamente estáveis nesse intervalo para o crescimento do PIB e para a evolução da dívida pública e resultado primário como fração do PIB de 2026 a 2028.”
O Planejamento ressalta ainda que a subvenção aos combustíveis conteve o repasse do choque energético à inflação, em vez de pressioná-la, embora o choque internacional tenha afetado outros preços. Além disso, a renegociação de dívidas das famílias inadimplentes pode inclusive ter impacto negativo na atividade no curto prazo, ao deslocar renda do consumo para o pagamento de dívidas.
Apesar de terem sido divulgados sem muito alarde, os estudos surgem em um contexto de crescimento das avaliações críticas à política econômica de um grupo de analistas econômicos, em geral ligados ao mercado financeiro. Para esse grupo, o pacote de medidas, ao beneficiar com juros mais baratos parcelas específicas da população e estimular o crédito, tem viés eleitoral e representa um prejuízo ao esforço do Banco Central de colocar a inflação na meta de 3,0%.
Além disso, os analistas avaliam que o uso de fundos públicos como fonte de financiamento seria uma forma de driblar o arcabouço fiscal, já que os programas não afetam nem o limite de gastos nem a meta de primário. Isso pioraria o cenário fiscal de longo prazo ao elevar o custo da dívida de maneira disfarçada e pressionar por uma taxa Selic mais alta.
Como os recursos são usados como fonte para os financiamentos, eles retornam aos cofres do governo com o pagamento dos empréstimos. O custo, então, para a União é dado pela diferença entre a remuneração que o dinheiro teria se ficasse parado no caixa do Tesouro Nacional (taxa Selic) e os juros cobrados em cada contrato de crédito, que tende a ser menor do que a taxa básica.
A análise do Ministério do Planejamento, porém, destaca que parte relevante dos recursos investidos no programa retornam aos cofres públicos por meio da tributação sobre a produção, produtos, renda e faturamento. “Dessa forma, o custo fiscal dessas medidas derivado do subsídio implícito presente nas diferentes linhas de crédito é atenuado”.
Um integrante da pasta lembra ainda que parte dos recursos sequer pode ser usada para pagar dívida, como defendem alguns economistas, porque no fim das contas o BC acabaria tendo que “enxugar” a liquidez gerada nessa situação com operações compromissadas, o que eleva a dívida do mesmo jeito.
Para o Planejamento, os textos reforçam a importância de se avaliar as políticas de crédito sob uma ótica macroeconômica ampliada, que considere não apenas seus custos imediatos, mas seus efeitos multiplicadores sobre a economia, além do impacto social e ambiental.
“A compreensão desses mecanismos é essencial para qualificar o debate público e subsidiar a tomada de decisão acerca da alocação de recursos públicos em iniciativas que conciliem desenvolvimento econômico, justiça social e sustentabilidade”, defende o órgão.
BS20260709181349.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/09/medidas-de-credito-podem-elevar-pib-em-r-110-bi-ao-longo-do-tempo-sem-pressao-inflacionaria-diz-planejamento.ghtml

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