Montadoras tentam barrar volta de isenção de carro elétrico importado que beneficia BYD: decisão será de Lula
23 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Isenção de imposto se encerrou em janeiro passado e tarifa de 35% sobre esses veículos passa a valer em julho
Fábrica de veículos – Foto: BYD/Divulgação
O risco de liberação de novas cotas de isenção tributária para veículos importados colocou em lados opostos a Anfavea, entidade que representa as montadoras de veículos instaladas no país, e a chinesa BYD. A Anfavea cobra do governo federal a manutenção do cronograma acertado com o setor e teme que voltem a ser estabelecidas novas cotas para importação de carros híbridos e elétricos na reunião da Câmara de Comércio Exterior (Camex), órgão responsável por formular e coordenar políticas de comércio exterior, marcada para hoje.
— Nenhuma empresa tem pedido benefícios adicionais para fazer investimentos, sejam cotas ou alíquotas, além daqueles benefícios que o governo estabeleceu em cronograma — disse Igor Calvet, presidente da Anfavea, lembrando que os investimentos anunciados pelas montadoras no Brasil estão na casa de R$ 140 bilhões até 2030.
No Palácio do Planalto, não há consenso sobre a prorrogação do incentivo. Há uma leitura de que, à medida que se dá o benefício para uma linha, outras também solicitarão, aumentando a pressão sobre o governo e as contas públicas. Na visão de auxiliares presidenciais, uma decisão que favoreça a BYD pode dar força para a guerra aberta entre a empresa chinesa e as montadoras instaladas há mais tempo no Brasil.
Diante da sensibilidade do tema, a ideia é que a decisão final só seja tomada após análise do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice-presidente, Geraldo Alckmin, que tinha boa interlocução com o setor quando foi ministro de Indústria e Comércio.
A discussão remonta a 2023. Em novembro daquele ano, o governo decidiu restabelecer o Imposto de Importação de veículos eletrificados, com a volta progressiva da tarifa até o teto de 35% em julho de 2028. Em 2025, após pressão das montadoras, o Comitê Executivo de Gestão da Camex antecipou para janeiro de 2027 a alíquota cheia para kits CKD (totalmente desmontado) e SKD (kit semipronto).
Rompimento de pacto
Foi criada cota temporária de importação com imposto zerado entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. A partir de julho deste ano, os carros elétricos importados e prontos passarão a pagar tarifa integral de 35%.
Apenas a BYD tem cobrado a renovação das cotas e o adiamento do imposto cheio de 35% a partir do mês que vem. A empresa começou a produzir seus veículos no país com sistemas de importação SKD e evolui para o sistema CKD, à medida que a fábrica nacionaliza seus processos. Representantes da marca se reuniram com Alckmin em maio.
Estiveram presentes o presidente da BYD Brasil, Tyler Li, executivos da empresa e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, onde a BYD inaugurou sua primeira unidade no Brasil, em Camaçari, no ano passado. Outra reunião ocorreu em junho, em São Paulo, no BNDES.
Na sexta-feira passada, houve reunião extraordinária do Comitê de Alterações Tarifárias (CAT), órgão federal que analisa e debate pedidos de empresas sobre o comércio exterior, como alterações nas alíquotas do imposto de importação. A pauta do encontro não foi divulgada, mas comenta-se no mercado que as cotas teriam sido abordadas.
— Não temos conhecimento de pleito formal para volta das cotas. Mas aconteceu reunião do CAT e amanhã haverá a reunião da Camex, que também não teve a pauta divulgada. Sempre mantivemos canal aberto de comunicação, mas desta vez não houve diálogo — diz Calvet, que vê o “rompimento de um pacto” caso o governo não cumpra o cronograma acertado.
A GWM, outra montadora chinesa que começou a produzir no Brasil ano passado, informou que não pleiteou a volta das cotas nem o adiamento de imposto. “Não temos interesse, pois já estamos produzindo em Iracemápolis no sistema peça por peça, pelo qual já atingimos 12 mil veículos produzidos neste ano”, informou a montadora em nota.
Em carta enviada ao governo, e ainda sem resposta, a Anfavea afirma que a volta do benefício afeta a indústria nacional e vai de encontro à Nova Indústria Brasil (NIB), que busca a reindustrialização. Estudo da associação aponta que a massificação da fabricação com kits importados significaria perda potencial de R$ 96,8 bilhões para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões em arrecadação para o governo federal e eliminação de 68 mil empregos diretos e 191 mil em toda a cadeia.
— Se o governo vai dar esse incentivo, outras empresas podem usá-lo. É uma decisão que pode impactar, no futuro, como vai ser a produção industrial no país — diz o presidente da Anfavea, que ressalta o salto de 200% nos últimos meses no estoque de veículos importados eletrificados, que somam cerca de 150 mil.
Só o que foi prometido
Para o especialista em mercado automotivo e sócio da consultoria KLume, Milad Kalume, a mudança no cronograma prejudica a indústria local:
— É preciso ter limite, senão daqui a 20 anos as empresas estarão pedindo prorrogação para subsídios de SKD/CKD. Produção e desenvolvimento da cadeia de fornecedores devem ocorrer aqui.
Antônio Jorge Martins, coordenador de cursos de MBA do setor automotivo da FGV, avalia que mudanças bruscas em políticas tarifárias de importação são ruins para a previsibilidade das empresas:
— Não posso afastar quem domina a tecnologia e, no mercado automotivo, é inegável a posição de vanguarda dos chineses. É preciso pensar numa política que não afete a chegada dos chineses e não impacte negativamente a indústria nacional. E ainda não se tem resposta para isso.
Em um evento da BYD em São Paulo, Alexandre Baldy, vice-presidente sênior no Brasil e presidente comercial e de marketing da montadora, afirmou que não houve novo pedido para cotas ou postergação do imposto, respondendo à carta da Anfavea.
Ele disse que a montadora só reivindica o que foi acordado com o governo no momento dos investimentos na Bahia, ou seja, que a empresa tem mais seis meses de cotas para CKDs e SKDs:
— O pleito inicial era de 36 meses de cota para importação de kits CKD e SKD no período de transição. O governo pediu que fosse antecipado para 12 meses, sendo seis meses iniciais para auditoria e seis meses subsequentes para deliberação. Esses segundos seis meses (de fevereiro a junho) não foram cumpridos.
O executivo afirmou que a cota nunca foi exclusiva da BYD e outras empresas foram beneficiadas, incluindo carros híbridos e elétricos. Baldy afirmou que a BYD cumpriu sua parte com mais de R$ 3 bilhões em investimentos, quase 5 mil trabalhadores no parque industrial, 17 unidades industriais em verticalização e mais de 11 mil pessoas no complexo de Camaçari:
— Brigar com o governo nunca é bom, a BYD respeita o governo e o Brasil, investe capital próprio sem recorrer a BNDES ou subsídios, e acredita que o governo cumprirá o que foi pactuado.