POLÍTICA

Moraes analisou contrato de R$ 131 milhões entre sua mulher e Banco Master antes da assinatura

1 de setembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo mostra que metadados do arquivo aponta edição por usuário identificado como ‘Ministro Alexandre de Moraes’

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — Foto: Rosinei Coutinho/STF

A advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que o marido foi consultado sobre o contrato assinado entre o seu escritório e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, que previa o pagamento de R$ 131 milhões em três anos. Em nota, Viviane confirmou que “solicitou informações” por meio da área de compliance do seu escritório a Moraes sobre “eventuais impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual”.

Metadados do arquivo do contrato, enviado por WhatsApp a Vorcaro, mostram que o documento foi editado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo afirma Viviane, porém, o contrato só foi assinado depois que se comprovou a “inexistência” de “qualquer impedimento legal” por ela ser esposa do ministro do Supremo. “Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados”, diz o texto.

O contrato milionário firmado entre Vorcaro e Viviane Barci foi revelado pela coluna de Malu Gaspar, do GLOBO, em dezembro de 2025. O conteúdo do documento informava que o contrato previa uma renumeração de R$ 3,6 milhões mensais por 36 meses a partir do início de 2024.

Os investigadores analisaram as informações contidas no documento extraído do celular de Vorcaro. Na aba “propriedades” do arquivo, ficam registrados dados sobre a data, horário e autoria de atualizações no arquivo, os chamados metadados. Nessas informações, consta uma edição atribuída ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes” às 23h04 de 15 de janeiro de 2024. Isso teria ocorrido cerca de 1h40 depois de Vorcaro remeter o documento a Viviane. O autor do documento seria Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório de Viviane.

Segundo os diálogos interceptados pela PF, uma minuta do contrato foi enviado por Viviane a Vorcaro em 17 de janeiro de 2024. “Bom dia! Segue a minuta do contrato. Abraço”, escreveu ela. Vorcaro respondeu: “Oi, tudo bem? Como podemos proceder na assinatura?”.

Os pagamentos foram paralisados após a primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025 – depois, Vorcaro foi solto e novamente detido em março de 2026. Parte desses repasses constam na declaração de imposto de renda do Master, segundo documento enviado à CPI do Crime Organizado, do Senado.

Em março deste ano, o escritório de Viviane afirmou que, durante o período do contrato – de fevereiro de 2024 a novembro de 2025 – produziu um total de 36 pareceres e realizou 94 reuniões de trabalho com integrantes do Master. Segundo o texto, esse serviço se referia a uma “ampla consultoria e atuação jurídica” prestada ao Banco para “análise de documentos e discussão dos problemas jurídicos”.

Contrato amplo

Como mostrou Malu Gaspar, o contrato tem um escopo bastante amplo, o de representar o Master onde for necessário, e não especifica uma única causa ou processo. Um dos processos em que Viviane atuou foi uma queixa-crime apresentada em abril de 2024 por Vorcaro e pelo Master contra o investidor Vladimir Timerman, da Esh Capital, que possui um litígio antigo com o empresário Nelson Tanure, acionista da Gafisa.

Na queixa crime, Timerman é acusado de caluniar o banqueiro, qualificado como “renomado empresário mineiro de 40 anos de idade”, que de acordo com Timerman teria “participado e/ou realizado operações fraudulentas entre GAFISA e o Fundo Brazil Realty” – do qual, segundo o investidor, o Master era cotista.

Mendonça consulta a PGR

Em outra frente relacionada à relação de Moraes e Vorcaro, o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, pediu à Procuradoria-Geral da República (PGR) que se manifeste sobre um relatório da PF detalhando conteúdos de mensagens trocadas entre o colega de Corte e o ex-dono do Banco Master. No despacho enviado nesta segunda-feira ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, Mendonça deu um prazo de cinco dias para manifestação.

A informação foi publicada pelo Metrópoles e confirmada pela coluna de Malu Gaspar com fontes ligadas à investigação. Procurados, Andrei, Gonet e Moraes não se manifestaram.

O relatório foi produzido pela PF a partir de mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, em que ele diz a um interlocutor não identificado que precisa da proteção de Andrei e Paulo, uma referência ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e a Paulo Gonet.

“Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”, escreveu o banqueiro ao ministro do STF uma semana antes da primeira prisão dele, em 17 de novembro, segundo informações publicadas pelo Estadão e confirmadas pela equipe da coluna.

Vorcaro acabaria preso em 17 de novembro às 22h, no aeroporto internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando tentava embarcar em um jato particular para Dubai, com escala em Malta.

Um dia antes do pedido para adiar a operação, Vorcaro também fez um desabafo a Moraes: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, lamentou Vorcaro a Moraes, segundo a investigação.

BS20260901140444.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/01/moraes-analisou-contrato-de-r-131-milhoes-entre-sua-mulher-e-banco-master-antes-da-assinatura.ghtml

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