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Objetivo do novo modelo é garantir a sustentabilidade do cadastro no longo prazo, ampliando a capacidade de geração de novas inscrições

EXTRA explica entraves que dificultam financiamentos de veículos pelo programa

Pouco mais de um mês após o lançamento do programa Move Brasil para financiamento de automóveis novos e usados, parte dos motoristas de aplicativos enfrenta dificuldades para adquirir um carro. Apesar da grande expectativa gerada pelas condições anunciadas pelo governo federal, trabalhadores têm lidado com negativas na análise de crédito e demora na liberação dos veículos, enquanto bancos mantêm critérios rigorosos de avaliação em meio ao alto nível de endividamento.
O EXTRA percorreu concessionárias e conversou com funcionários, cuja avaliação é unânime: o Move Brasil despertou grande interesse, mas as vendas têm ficado abaixo do esperado. Em uma das lojas visitadas, o gerente disse que, após o anúncio do programa, a procura aumentou 40%, mas a expectativa de conclusão dos negócios não se concretizou. Em uma rede de agências, das mais de cem propostas enviadas à análise, menos de 10% foram aprovadas.
O Michel Veloso, de 40 anos, foi a uma concessionária Fiat com a intenção de financiar um Fastback, mas não obteve a aprovação do banco Stellantis. Segundo ele, como saiu do cadastro de negativados há pouco tempo, seu score de crédito (classificação de risco) ainda está baixo. Por isso, decidiu aguardar até este mês para fazer uma nova tentativa, agora pela Caixa Econômica Federal:
— A maioria dos motoristas está negativada. Eu mesmo limpei meu nome há pouco tempo.
Veloso não é o único. A Federação Nacional dos Sindicatos de Motoristas de Aplicativos (Fenasmapp) tem mapeado os entraves relatados pela categoria. Um formulário com 1.551 respostas apontou as principais dificuldades: análise do pedido como financiamento tradicional, ignorando que há um fundo garantidor para operações do Move Brasil (46,1%); programa não operacional, com falhas de integração com o BNDES (23,5%); exigência de entrada alta (19,5%); critérios internos dos bancos (7%); e histórico bancário dos clientes (2,8%).
— A maior barreira é a negativação. O motorista que tem condições de financiar um carro de R$ 150 mil muitas vezes é aquele que está com o nome sujo. Paga de R$ 3.500 a R$ 6 mil por mês para alugar um veículo e consegue faturar de R$ 8 mil a R$ 13 mil. Tem capacidade de arcar com as parcelas do financiamento, mas continua negativado — explica Leandro Cruz, presidente da Fenasmapp.
As dificuldades ocorrem em um momento em que, apesar do Desenrola Brasil 2.0 voltado para a renegociação de dívidas, a taxa média de inadimplência nas operações de crédito está em 4,7% — o maior patamar da série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 2011. Para Antônio Jorge Martins, professor de Cursos Automotivos da Fundação Getulio Vargas (FGV), esse cenário leva as instituições financeiras a adotarem critérios mais rigorosos para a concessão de crédito, mesmo com o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI-PEAC) e a alienação fiduciária (o banco é dono do bem até a quitação):
— Os bancos trabalham com limites de exposição ao risco e, quando o nível de endividamento aumenta, a concessão tende a ficar mais restrita, o que se reflete na avaliação do score dos clientes.
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que parte dos motoristas aptos a participar do programa tem encontrado dificuldades por causa de pendências pessoais:
— A recomendação que damos aos motoristas é ir para o Desenrola resolver o passivo para poder acessar um novo crédito. Tanto que o Ministério da Fazenda prorrogou o Desenrola, que vai dar essa oportunidade.
Segundo as instituições que aderiram ao Move Brasil, a operação vem ocorrendo normalmente, com a liberação — ou não — do financiamento conforme a análise de crédito.
O Santander afirmou que as propostas “estão sujeitas à elegibilidade do cliente e do veículo, à análise de crédito e à documentação exigida para cada operação”. O Banco Stellantis, que financia veículos de Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën, afirmou que “as operações seguem as regras e os critérios de elegibilidade estabelecidos pela iniciativa, além das políticas de crédito adotadas pela instituição”. Segundo a GM Financial, da General Motors, os financiamentos contam com a cobertura do FGI PEAC, mas a garantia “não substitui a análise de crédito”.
Itaú e Bradesco não aderiram ao programa. O Banco Toyota ainda não opera a linha de crédito. A Mobilize Financial (Grupo Renault) iniciou a operação em 30 de julho. “Após a formalização do contrato, a liberação dos recursos ocorre conforme os procedimentos e prazos estabelecidos pelo BNDES”, afirmou. Banco Honda, Banco Volkswagem, Hyundai Capital e a Federação Brasileira de Bancos não responderam.
Entre os motoristas que conseguem a aprovação do crédito, o obstáculo é a demora na liberação dos recursos e, consequentemente, dos veículos. Em uma concessionária Peugeot, um funcionário informou que há casos de clientes com financiamentos já aprovados que ainda aguardam o banco repassar os valores à concessionária, o que atrasa as entregas.
Situação semelhante é enfrentada por Jhonatan Gabriel Nascimento, de 25 anos, que teve o financiamento aprovado, com a primeira parcela prevista para setembro, mas continua à espera da conclusão do processo para retirar o carro. Inicialmente, ele foi informado de que a liberação dependia de um repasse do BNDES. Depois, recebeu a informação de que o banco havia comunicado à Caixa a existência de um entrave:
— Fiz contato com o gerente para saber o motivo da demora, e ele me disse que o BNDES avisou à Caixa sobre uma divergência em um processo interno, e que seria necessário refazer o contrato. Acredito que ainda leve mais um mês e meio. Existe a possibilidade de eu pagar a primeira parcela sem ter o carro.
Procurado para falar sobre os entraves do Move Brasil, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços sugeriu procurar o BNDES. O banco tem uma plataforma que o conecta às instituições e permite o repasse dos recursos.
— O BNDES desenvolveu um sistema que está totalmente rodando, sem nenhuma intercorrência. Alguns bancos não tinham a interface em tecnologia de informação. Precisavam desenvolver seus aplicativos. Alguns, inclusive, começam a entrar agora em agosto. Não tiveram agilidade para fazer antes. Os que estão liderando o processo são Banco do Brasil e Caixa — diz Aloizio Mercadante.
Para Caixa, “o fluxo operacional e financeiro das operações ocorre normalmente, observadas as etapas e os procedimentos previstos para contratação e liberação dos recursos”. Segundo o banco, “as operações do Move Brasil estão sujeitas à avaliação de crédito, em conformidade com as regras e condições do programa já divulgadas ao mercado”. O BB informou que opera normalmente o Move Brasil, já tendo superado R$ 650 milhões em contratações.
Leonardo Tavares, de 39 anos, é assistente de auditoria ao longo da semana e aluga um carro para rodar via aplicativo em dias de folga. Ele já teve dois pedidos de crédito negados, mas agora está confiante:
— Quando fui ao Banco do Brasil, e o crédito foi negado, o gerente me mostrou no sistema que, em alguns dias, começariam a aceitar os extratos dos aplicativos como comprovantes de renda. Isso foi há três semanas. Na terça-feira, recebi o contato de uma funcionária que pediu os extratos dos últimos três meses de trabalho no aplicativo.
Até sexta-feira, o Move Brasil registrou demanda de R$ 2,2 bilhões — 7,3% dos R$ 30 bilhões reservados para o programa.
BS20260803030114.1 – https://extra.globo.com/economia/noticia/2026/08/move-brasil-obstaculos-impedem-credito-para-motoristas-de-app-e-taxi-de-acelerar-entenda.ghtml

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