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Nova temporada de ‘Cem anos de solidão’ recupera dimensão política da obra de García Márquez’

20 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Novas formas de colonialismo fizeram romance soar muito atual’, diz diretora da série, que estreia em agosto na Netflix

Cena da segunda temporada de ‘Cem anos de solidão’ — Foto: Divulgação Netflix

Depois de superar as desconfianças dos fãs do romance de Gabriel García Márquez na primeira temporada, “Cem anos de solidão” entra em uma nova fase. Com estreia marcada para 5 de agosto, a segunda (e última) temporada da série da Netflix já não precisa provar que era possível transportar para a tela um dos maiores clássicos da literatura do século XX. Livre dessa pressão inicial, a produção mergulha na metade mais sombria e política da saga da família Buendía, condenada a viver um século de solidão, violência e destinos trágicos.

A nova leva de episódios acompanha as transformações da fictícia Macondo. Mesmo após a assinatura do armistício que põe fim à guerra do coronel Aureliano Buendía, a paz continua distante. A cidade abandona seu isolamento quase mítico e passa a integrar um mundo atravessado pela modernização, pela exploração econômica e pelas disputas políticas, preservando uma das dimensões mais contundentes do romance de García Márquez: sua leitura crítica da história da América Latina.

— Ficamos muito gratos pelo que aconteceu com a primeira temporada, mas também fomos bastante reflexivos e humildes em relação ao que achávamos que havia funcionado muito bem e ao que poderíamos melhorar na segunda — diz Laura Mora, que divide a direção da temporada com Carlos Moreno. — A segunda metade do livro é profundamente política, poética e dolorosa. Queríamos que o espectador sentisse, ao final da série, algo semelhante ao que sente ao terminar o romance.

Se a primeira temporada retratava a gênese de uma Macondo utópica, quase ingênua, isolada do restante do mundo, a continuação acompanha sua marcha rumo ao Apocalipse. A chegada da ferrovia, da companhia bananeira e do capital estrangeiro inaugura uma nova era para a comunidade fundada por José Arcadio Buendía (morto ao final da primeira temporada). O progresso prometido pelos trilhos logo revela seu lado mais sombrio, explicitando as críticas de García Márquez ao colonialismo econômico, à violência política e às sucessivas formas de exploração que marcaram a história latino-americana.

Macondo sempre foi concebida pelo escritor colombiano como um espelho da América Latina, presa a ciclos de violência e exploração que se repetem.

— O que estamos vivendo agora, com novas formas de colonialismo econômico e político, faz com que o romance soe muito atual — afirma Mora. — Muitas vezes reduzimos “Cem anos de solidão” ao realismo mágico, esquecendo sua dimensão política. Não tivemos medo de enfatizá-la. Se continuarmos desviando o olhar da nossa realidade, repetiremos a história indefinidamente, como os nomes se repetem na família Buendía.

Os herdeiros de García Márquez exigiram que a adaptação preservasse a essência da obra e fosse filmada em espanhol, na Colômbia, com um elenco latino-americano. A decisão permitiu que milhões de espectadores conhecessem Macondo em sua língua, seus sotaques e seu contexto cultural originais.

Para Mora, porém, nenhum país abraçou a série com tanto entusiasmo quanto o Brasil:

— Estive em São Paulo há alguns meses e fiquei muito feliz ao perceber o quanto vocês amam o romance. Brasileiros e colombianos se entendem profundamente nesse aspecto. Existe um sincretismo e uma linguagem poética muito familiares às duas culturas. Tenho a impressão de que vocês compreendem García Márquez de uma maneira muito próxima da nossa.

O alcance internacional da produção também permitiu à diretora observar como fãs de diferentes partes do mundo interpretam a obra de maneiras distintas.

— Há acontecimentos na história que eles veem como genuinamente mágicos e extraordinários, e que para nós, latino-americanos, são apenas parte do cotidiano — diz a diretora.

Se, nos anos 1960 e 1970, “Cem anos de solidão” ajudou a impulsionar o boom da literatura latino-americana, Mora espera que a adaptação desperte a curiosidade de uma nova geração de leitores, justamente em um momento em que autoras como Mariana Enríquez, Fernanda Melchor, María Fernanda Ampuero e Samanta Schweblin voltam a projetar a ficção do continente no cenário internacional. Por sinal, são nomes que também trabalham feridas latina-americanas com um olhar singular, não raro buscando aproximações com o fantástico.

— Admiro profundamente autoras como Mariana Enríquez, mas acredito que essa nova geração tenha uma identidade muito própria — diz Mora. — Se a série servir como porta de entrada para García Márquez, e também para essas novas vozes latino-americanas, já teremos feito algo muito importante.


BS20260720080312.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/07/20/nova-temporada-de-cem-anos-de-solidao-recupera-dimensao-politica-da-obra-de-garcia-marquez.ghtml

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