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Produto foi criado por pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis, fundada com o apoio da FAPESP, por meio do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento

Pesquisadores da Plataforma Biotecnológica Integrada de Ingredientes Saudáveis (PBIS), sediada no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas, transformaram grãos quebrados de feijão carioca, tipo mais consumido no Brasil, em um ingrediente proteico de alto valor.
Eles desenvolveram uma proteína concentrada a partir da “bandinha” – os grãos quebrados e desvalorizados que sobram durante o processo de beneficiamento da leguminosa. Além de agregar valor a um subproduto agrícola, o novo ingrediente pode ajudar a reduzir a dependência da indústria alimentícia nacional de proteínas vegetais de soja ou ervilha, que hoje são, em grande parte, importadas.
Criada em 2021 com o apoio da FAPESP, por meio do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs), a plataforma reúne o Ital, as universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), além de nove empresas do setor de alimentos e a Fundação Shunji Nishimura de Tecnologia, com o objetivo de desenvolver ingredientes saudáveis, sustentáveis e inovadores a partir de matérias-primas nacionais, como o feijão.
“Nosso objetivo foi obter uma proteína de uma fonte vegetal brasileira. Como o Brasil é um grande produtor de feijão carioca, pensamos em transformá-lo em um ingrediente proteico para ser usado pela indústria alimentícia”, contou Mitie Sonia Sadahira, pesquisadora do Ital e coordenadora do projeto.
Para obter a proteína, os pesquisadores o fracionamento a seco, considerado mais ecológico por não utilizar solventes e consumir menos água e energia do que os métodos convencionais de extração úmida.
Nesse processo, o grão de feijão é moído e transformado em farinha integral e, por separação mecânica, é dividido em duas frações: uma amilácea (rica em amido) e outra proteica. A fração proteica obtida atingiu uma concentração de 40% a 50% de proteína. Porém, o grande trunfo está na qualidade nutricional do novo alimento.
Ao comparar o perfil de aminoácidos da proteína do feijão carioca com o padrão de referência estabelecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), elas constataram que o ingrediente supera as metas, apresentando todos os aminoácidos essenciais ao organismo humano. Por conta disso, ele é autossuficiente nutricionalmente.
“Normalmente, as proteínas vegetais apresentam um ou dois aminoácidos essenciais a menos [que o necessário] e, por isso, precisam ser complementadas com uma proteína de cereal. Na farinha que obtivemos, isso não aconteceu”, afirmou Sadahira.
Graças a métodos de pré-tratamento térmico aplicados ao feijão antes da moagem, também foi possível reduzir em até 95% o teor de fatores antinutricionais naturalmente presentes em feijões, como fitatos, inibidores de protease, taninos, lectinas e oligossacarídeos. Esses compostos dificultam a absorção de nutrientes essenciais e causam desconforto digestivo. Essa redução drástica, somada ao processo de fracionamento, permitiu a obtenção de um ingrediente proteico com capacidade de digestão e absorção pelo organismo (digestibilidade) superior a 60%.
“Por meio do pré-tratamento térmico, também conseguimos melhorar muito a qualidade sensorial da proteína, que tem sabor neutro e coloração clara, o que facilita a aceitação pelos consumidores e a aplicação na formulação de alimentos”, avaliou Sadahira.
O novo produto, além de tudo é versátil, podendo ser usado em outras aplicações. A fração proteica deu origem, por exemplo, a um pó instantâneo para cappuccino sem açúcar, com concentração de 5 gramas de proteína por porção. Também originou pós instantâneos combinados com frutas tropicais, como manga e maracujá, que foram utilizados para formular bebidas vegetais fermentadas saborizadas, sem a necessidade de aromas ou corantes artificiais.
Até mesmo a segunda fração, amilácea — que ainda retém de 10% a 20% de proteína — também foi inteiramente aproveitada. Ela serviu para a criação de salgadinhos tipo snack nas versões neutra, salgada e doce, à base de um pó de manga desidratada enriquecido com 8% de proteína.
As tecnologias para a obtenção da proteína do feijão e sua aplicação em alimentos serão oferecidas ao mercado na forma de pacotes tecnológicos, prontos para serem transferidos, seguindo um modelo de inovação aberta adotado pela PBIS.
As empresas participantes da plataforma, que investiram diretamente no desenvolvimento das pesquisas, têm preferência exclusiva no licenciamento das patentes e processos que, em quatro anos e meio de operação, resultaram na criação de mais de 30 ingredientes alimentícios e mais de 20 novos processos industriais.
Caso as indústrias parceiras da plataforma não manifestem interesse comercial dentro de prazos predefinidos, as soluções saem da esfera do consórcio e são disponibilizadas para o mercado geral, podendo ser licenciadas por outras indústrias alimentícias, startups ou spin-offs acadêmicas.
BS20260818141406.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/08/18/pesquisadores-transformam-graos-quebrados-do-feijao-carioca-em-ingrediente-proteico-de-alto-valor-entenda.ghtml

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