POLÍTICA

PF faz operação para investigar atuação de publicitário ligado a Vorcaro que fez devassa em dados sigilosos de jornalistas e executivo

10 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Mandados de busca e apreensão foram determinados pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF

Daniel Vorcaro, do Banco Master – Reprodução

A Polícia Federal fez uma operação nesta quinta-feira para investigar a atuação do publicitário Thiago Miranda, que agiu ao lado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para intimidar a jornalista Malu Gaspar, colunista do GLOBO, e outras pessoas que eram vistas como “obstáculos” pela suposta organização criminosa.

Os mandados de busca e apreensão foram cumpridos por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que destacou o “grau de periculosidade da organização, conferindo-lhe contornos de máfia”. A Procuradoria-Geral da República (PGR) endossou a manifestação da PF a favor da operação.

A apuração aponta que os investigados usaram uma plataforma que oferece serviços de venda de dados não autorizados, inclusive financeiros, para levantar informações sobre a jornalista. O objetivo, de acordo com a PF, era encontrar “elementos potencialmente desabonadores”.

O ministro destacou ainda que Miranda e Vorcaro tinham em mãos informações sobre a família da jornalista e patrimônio. A mesma forma de atuação, segundo o inquérito, foi usada contra outras pessoas que eram encaradas como “obstáculos”, como o executivo Milton Maluhy, CEO do Itaú, concorrente do Master.

“Os elementos analisados apontam que Thiago Miranda desempenhava papel central nessas iniciativas, sendo o principal responsável por realizar pesquisas e levantamentos acerca da vida privada da jornalista em questão. Ainda de acordo com as conversas analisadas, Thiago Miranda costumava informar o andamento das buscas, relatar sobre a análise de processos judiciais antigos e coordenar a mobilização de equipe dedicada a localizar informações que pudessem ser consideradas sensíveis ou comprometedoras para a jornalista”, afirmou Mendonça na decisão.

Procurado, o Itaú informou que não irá se manifestar sobre o assunto.

Ao solicitar as medidas, a PF afirmou que Miranda e Vorcaro agiram para “proteger o núcleo dirigente da organização criminosa; manipular a opinião pública; coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central”.

“Observando-se latente abuso ao buscar informações de cunho familiar para atingir os objetivos de intimidação e coação, em cenário apto a configurar a potencial prática do crime previsto no art. 154-A do Código Penal”, afirmou a PF, fazendo referência ao crime de invasão de dispositivo informático.

O inquérito revela também que Miranda usou recursos oriundos das “fraudes financeiras” do Master para promover “campanha de desinformação na mídia”. O mandado autoriza a apreensão de celulares e outros equipamentos eletrônicos, além de documentos, e determina a extração de conversas contidas nos aparelhos, inclusive na nuvem.

As conversas entre Vorcaro e Miranda


Diálogos obtidos pela PF mostram que a insatisfação de Miranda e Vorcaro surgiu a partir de reportagens que abordaram investigações sobre a instituição financeira devido a operações fraudulentas e manipulação de preços. Após as reclamações do banqueiro, o publicitário afirmou que iria “revirar a vida” da jornalista, e repassou ao dono do Banco Master informações sobre familiares, contas bancárias e endereço da profissional.

As mensagens extraídas do celular de Vorcaro, em posse da Polícia Federal, são de março e abril de 2025. Àquela altura, o Master já enfrentava a crise financeira que culminaria, em novembro do mesmo ano, na decretação de sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central (BC).

No diálogo, Vorcaro afirma que precisa “frear a Malu Gaspar”, que “iria dar trabalho nos próximos dias” após ter tido uma entrevista “bem ruim” com ela. Miranda, então, concorda com o ex-banqueiro e encaminha uma reportagem da jornalista sobre as suspeitas de fraude envolvendo o banco. As mensagens foram divulgadas pelo site Fatos on-line e confirmadas pelo GLOBO com investigadores.

Já no dia seguinte, Miranda envia a Vorcaro outra reportagem. No material, a colunista divulgou que as demonstrações financeiras do Master em 2024 mostravam que o banco não tinha disponibilidade de caixa para honrar todos os compromissos assumidos até o final de 2025. À época, o Master estava sendo negociado com o Banco de Brasília (BRB), processo que terminou sendo reprovado pelo BC.

“Ela não para”, escreveu Miranda, que também enviou dados sobre as contas bancárias e rendimento mensal de Malu. “Realmente, meu amigo, não tem absolutamente nada”, desabafou o publicitário, que em outro trecho da conversa afirma que precisava “arrumar uma forma de calar essa mulher”.

Em mensagens posteriores, Vorcaro menciona a possibilidade de fazer uma “proposta milionária” para Malu. Vorcaro responde, então, que quem deveria tentar a contratação era o próprio Miranda.

Sobre esses fatos, O GLOBO publicou a seguinte nota:

“O GLOBO repudia a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar, uma das mais respeitadas jornalistas do país. A ação, como deixa claro a troca de mensagens, visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal. Os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público.”

A Associação Nacional de Jornais (ANJ) também divulgou nota na ocasião em que afirmou receber “com indignação” as informações sobre a tentativa de intimidação contra a jornalista Malu Gaspar, classificando a atuação atribuída a Daniel Vorcaro e Thiago Miranda como “métodos mafiosos”. A entidade também cobrou investigação imediata sobre o acesso aos dados pessoais da colunista e defendeu a proteção garantida pela LGPD.

Em nota, a defesa de Miranda afirmou “refutar, de forma categórica, a prática de qualquer ilegalidade”. “Thiago Miranda sempre pautou sua atuação profissional pela legalidade, pela transparência e pelo respeito às instituições e pelo livre exercício da liberdade de expressão, não tendo praticado qualquer ato criminoso, tampouco participado de conduta destinada a intimidar, coagir, constranger ou violar direitos de terceiros”, diz o texto.


BS20260709191436.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/09/pf-faz-operacao-para-investigar-atuacao-de-publicitario-ligado-a-vorcaro-que-fez-devassa-em-dados-sigilosos-de-jornalistas-e-executivo.ghtml

Artigos Relacionados