POLÍTICA

Pivô da crise ‘afaga’ Flávio e Michelle em vídeo ao confirmar ausência em ato no Ceará

10 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Priscila Costa embarca para encontro de mulheres conservadoras em Portugal, enquanto pré-candidato à Presidência lança outro pré-candidato ao Senado no estado, em acordo criticado por ex-primeira-dama

Priscila Costa e Michelle Bolsonaro — Foto: Reprodução

A vereadora Priscila Costa (PL), pivô da crise entre Michelle Bolsonaro (PL) e Flávio Bolsonaro (PL), publicou um vídeo em que faz acenos à ex-primeira-dama e ao senador enquanto confirma a ausência no ato do pré-candidato à Presidência no estado onde se iniciou o racha familiar. Flávio viaja nesta sexta-feira para lá, orientado a não fazer referências públicas aos atritos com a madrasta, importante cabo eleitoral junto a mulheres e evangélicos.

Flávio encarregou Priscila, que era vice de Michelle no PL Mulher, de coordenar a mobilização feminina para o evento. Mas a própria vereadora não estará no ato de lançamento, em Fortaleza, da pré-candidatura ao Senado de Alcides Fernandes (PL), pai do deputado federal André Fernandes (PL-CE) — Michelle sempre defendeu que Priscila compusesse a chapa majoritária e criticou a aliança do PL no estado com Ciro Gomes (PSDB) — em nota, André Fernandes contrariou a primeira-dama e disse ainda que a decisão de apoiar ao pré-candidato ao governo estadual “está tomada”.

No vídeo, Priscila afirma que segue para uma “missão internacional”: a participação no encontro de Mulheres Conservadoras em Portugal, ao lado de parlamentares de diferentes países da Europa.

— Chegando ao aeroporto para uma missão internacional. Já abracei meus pais, já celebrei ao telefone com a Michelle Bolsonaro a alegria de participar [do encontro] — destacou ela, em referência explícita à aliada, antes de citar o pré-candidato à Presidência. — Mas agora a minha responsabilidade ficou dobrada. Isso porque, agora, Flávio Bolsonaro me entrega uma importante missão.

Na sequência, Priscila acrescenta ao vídeo imagens do próprio senador, nas quais ele destaca a volta de agenda nos Estados Unidos, onde tentou conter os desgastes pela associação dos Bolsonaros às ameaças de uma nova taxação americana sobre produtos brasileiros, e incumbe Priscila da “missão”:

— Você está decolando para o exterior para cumprir essa missão nobre também, em meu nome, para defender a vida. Você já sabe, a gente assumiu um compromisso de, assim que voltarmos à Presidência da República, vamos retomar o maior pacto de proteção da vida de bebês desde o ventre e assim a gente vai combater o avanço do aborto no Brasil, cuidando da vida de cada nascituro — afirma.

Priscila Costa em vídeo com Flávio Bolsonaro — Foto: Reprodução/Instagram

Flávio disse que, caso seja eleito, colocará o Brasil de volta no Pacto de Genebra para “desfazer as besteiras” que Lula fez durante o mandato. Em 2023, em mais um passo para se distanciar da política externa bolsonarista, o petista retirou o país do Consenso de Genebra, grupo criado em 2020 pelo presidente americano, Donald Trump — em uma declaração coautorada por Jair Bolsonaro, — para tentar barrar avanço de pautas sobre direitos reprodutivos em fóruns multilaterais. A justificativa era que votações sobre o tema abririam caminho para a legalização do aborto.

Como mostrou O GLOBO, a avaliação do entorno do senador é que o episódio com Michelle deve permanecer como uma página virada, enquanto ele concentra o discurso em temas considerados prioritários para a pré-campanha, como segurança pública, críticas ao governo Lula, especialmente no Nordeste, e propostas voltadas ao eleitorado feminino.

Segundo relatos feitos à reportagem, Priscila ficou responsável por organizar a participação das mulheres no ato no Ceará, gesto interpretado por aliados como uma tentativa de demonstrar que o rompimento com Michelle não contaminou toda a rede política construída pela ex-primeira-dama.

O gesto também busca reduzir um desgaste simbólico. Foi justamente a candidatura de Priscila ao Senado que desencadeou o rompimento público entre Michelle e Flávio. A ex-primeira-dama defendia que a vereadora fosse a candidata do PL à vaga, enquanto o senador conduziu as negociações que resultaram no apoio do partido à pré-candidatura de Alcides Fernandes, como parte do acordo firmado com o PSDB do ex-governador Ciro Gomes no estado.

Apesar da tentativa de pacificação, o impasse político que deu origem à crise continua sem solução. Priscila mantém a pré-candidatura ao Senado e seus aliados defendem que o PL preserve seu nome na disputa até o prazo final para registro das candidaturas. O grupo argumenta que o acordo costurado no ano passado previa duas candidaturas do partido ao Senado e resiste à decisão de abrir uma das vagas para acomodar a aliança com o PSDB. A palavra final caberá ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Em contrapartida, aliados de Flávio afirmam que ela deve concorrer à Câmara dos Deputados.

Mais do que lançar oficialmente as candidaturas do partido à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa do Ceará, o ato passou a ser tratado pela campanha como um teste para medir se o PL conseguirá virar a página da crise aberta entre Flávio e Michelle justamente no estado onde ela começou. A orientação transmitida ao senador é evitar qualquer comentário sobre o conflito e reforçar a imagem de unidade da legenda.

Michelle não deve ir ao Ceará

A indefinição também alcançou o evento desta sexta-feira. Inicialmente, a expectativa era que Michelle e Flávio dividissem o mesmo palanque no lançamento das candidaturas do partido no Ceará. Depois do rompimento, porém, a presença da ex-primeira-dama passou a ser considerada improvável. Até esta quinta-feira, interlocutores afirmavam que ela ainda não havia cancelado oficialmente a agenda, mas reconheciam que a tendência era de ausência para evitar novos desgastes.

A divergência extrapolou o Ceará depois que Michelle publicou um vídeo acusando o grupo político de André Fernandes de trabalhar para retirar Priscila da disputa e questionou por que a vaga não havia sido cedida pelo próprio pai do deputado. Na mesma gravação, afirmou ter sido humilhada e desrespeitada por Flávio.

Dias depois, Michelle anunciou sua saída da presidência do PL Mulher, aprofundando a crise entre os dois. Desde então, aliados do senador passaram a trabalhar para reduzir o desgaste provocado pelo episódio e reconstruir pontes com parte das lideranças femininas ligadas à ex-primeira-dama.

Embora seja considerada uma das principais aliadas de Michelle e ocupe a vice-presidência nacional do PL Mulher, Priscila tem adotado um discurso de pacificação. Na semana passada, publicou um vídeo afirmando que não iria “alimentar qualquer tipo de conflito” e defendeu a união do campo conservador.

— Quem luta pela mesma causa, mesmo que em algum momento possa machucar ou se ferir, não pode ficar enfraquecido no meio do caminho enquanto o verdadeiro inimigo se fortalece. Agora precisamos unir forças — afirmou.

Na mesma manifestação, a vereadora elogiou Michelle e a liderança exercida por ela à frente do PL Mulher, mas ressaltou que Flávio tem a responsabilidade de conduzir “esse momento da nação de reconstruir o Brasil”.

A postura já havia ficado evidente dias antes, quando Priscila participou da reunião promovida por Flávio com parlamentares e lideranças femininas em Brasília, mesmo após Michelle recusar o convite para comparecer ao encontro. No evento, a vereadora afirmou que o governo Jair Bolsonaro deixou um legado na defesa das mulheres e declarou que Flávio daria continuidade a esse trabalho.


BS20260710092909.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/10/pivo-da-crise-afaga-flavio-e-michelle-em-video-e-confirma-ausencia-em-ato-no-ceara.ghtml

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