ECONOMIA

Quase metade dos filhos dos 25% mais pobres não consegue deixar essa condição na vida adulta, diz estudo

31 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Atlas da Mobilidade Social mostra que 48% dos nascidos nos lares com menor renda domiciliar permanecem nesta condição na vida adulta. E apenas 8,32% chegam ao quarto mais rico da população

A taxa de desemprego em 2021 entre a população parda é de 16,2% – Foto: Tânia Rêgo/ABr

“Apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. A canção de Belchior, conhecida na voz de Elis Regina, expressa a realidade de muitos brasileiros que, embora possam ter alcançando alguma melhora de renda em relação aos seus pais, pouco avançam na distribuição socioeconômica do país.

Entre aqueles que nasceram em famílias que pertencem aos 25% mais pobres do Brasil, 48% continuam nessa mesma faixa de renda quando chegam à vida adulta. E, dentro deste grupo, um quarto fica no andar dos ainda mais pobres, que estão na base da pirâmide social (grupo dos 10% que têm a menor renda do país).

Os dados fazem parte da nova versão do Atlas da Mobilidade Social, plataforma pública e interativa desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab.

Mesmo entre os 52% que conseguem ver avanços na renda, quase três em cada quatro ainda permanecem na metade da população com menor renda quando chegam à faixa dos 25 aos 29 anos, mostra o estudo.

Avanço pífio

Embora haja 73,76% de chance de os filhos das famílias mais pobres alcançarem uma posição de renda pelo menos 10% superior à dos pais, o número não representa necessariamente uma grande ascensão social. Como o ponto de partida é muito baixo, esse avanço pode ser insuficiente para mudar de classe.

Além disso, as chances de alcançar o topo são bem menores. Apenas 8,32% conseguem chegar aos 25% mais ricos, e 1,28% passam a integrar o grupo dos 10% com maior renda do país.

Para Fernando Veloso, diretor de pesquisa do IMDS, esses números indicam uma grande desigualdade de oportunidades no Brasil:

— Para que esse quadro mude de forma mais significativa, é necessário oferecer melhores oportunidades para os filhos de famílias mais pobres, como educação de qualidade e empregos com remuneração mais elevada. Também é necessário eliminar mecanismos que favorecem a perpetuação das desigualdades, como privilégios e isenções tributárias que favorecem os mais ricos — destacou.

No estudo, o grupo dos 25% mais pobres reúne famílias cuja renda domiciliar mensal — soma dos rendimentos recebidos por todos os moradores da casa — era de até R$ 2.183,41, em valores de dezembro de 2019.

Já a metade de menor renda, para os filhos já adultos, inclui aqueles que recebiam individualmente até R$ 1.641,34 por mês, entre os 25 e os 29 anos.

Melhor condição na classe média

As chances já mudam para os jovens de classe média. Entre eles, 17,57% chegam aos 25% mais ricos na vida adulta, mais que o dobro da proporção registrada entre os filhos das famílias mais pobres, embora ainda não seja um número tão expressivo.

Já entre os filhos dos 25% mais ricos, 56,54% continuam no mesmo estrato na vida adulta. Além disso, 30,88% chegam ao grupo dos 10% com maior renda do país. Isso indica que, assim como as desigualdades, as vantagens econômicas também tendem a ser transmitidas de pais para filhos.

A classe média, segundo o Atlas, abrange famílias com renda domiciliar mensal entre R$ 2.183,41 e R$ 7.266,03, em valores de 2019. Elas estavam entre os percentis 26 e 75 da distribuição de renda.

Avanço entre gerações é limitado

A comparação entre diferentes gerações mostra uma pequena melhora na mobilidade, mas a renda dos pais continua sendo determinante para o futuro dos filhos.

Entre os nascidos em famílias mais pobres de 1983 a 1987, 7,9% chegaram ao grupo dos 25% mais ricos. Já na geração nascida entre 1988 e 1990, a proporção subiu para 8,8%, uma diferença de 0,9 ponto percentual.

O avanço foi um pouco maior entre os jovens de classe média. A chance de alcançar o quarto mais rico da população passou de 16,6% na primeira geração para 18,6% na segunda, alta de 2 pontos percentuais.

O Atlas acompanha cerca de 7 milhões de brasileiros nascidos entre 1983 e 1990. O levantamento compara a renda bruta média da família durante a infância e a adolescência com os resultados alcançados pelos filhos entre os 25 e os 29 anos, combinando registros administrativos e pesquisas domiciliares do IBGE.



BS20260731030120.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/31/atlas-da-mobilidade-social-sair-da-pobreza-so-e-viavel-para-metade-das-familias-brasileiras-nesta-situacao.ghtml

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