POLÍTICA

Quem é Mariângela Fialek, a Tuca, apontada por Dino como ‘braço executor’ de Valdemar e Cunha em desvios de emendas

13 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Ex-assessora de Arthur Lira (PP), servidora é apontada como responsável por atuar em favor de políticos sem mandato na indicação de verbas parlamentares

Mariângela Fialek, a Tuca, ex-assessora de Arthur Lira — Foto: Reprodução/LinkedIn

Apontada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), como responsável por atuar em favor do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, na indicação de emendas parlamentares, a servidora Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, também tinha aval do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), para atuar na indicação de emendas parlamentares por Eduardo Cunha (Republicanos). As informações constam na representação enviada pela Polícia Federal a Dino, a partir de provas coletadas pelas investigações.

Tuca foi assessora do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), e hoje está lotada na liderança do PP na Casa, com salário de R$ 23.732,92. Segundo Dino, há “múltiplos indícios” de que ela atuava junto com outros dois servidores como “longa manus’ (executor de ordens) de Valdemar dentro da Câmara dos Deputados — que não poderia indicar emendas, já que não possui mandato.

“A atuação desses três servidores extrapola a função burocrática e adentra em um espaço de cogestão irregular, no qual eles não apenas cumprem instruções, mas orientam, cobram, organizam e adaptam destinações conforme diretrizes informais atribuídas a Valdemar”, diz o ministro, na decisão que bloqueou os bens do líder partidário, na sexta-feira passada.

Em outra ação, Dino determinou o bloqueio de até R$ 6,15 milhões em bens de Cunha em uma investigação que apura o desvio de emendas parlamentares da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados. No documento produzido pelos investigadores, a Polícia Federal argumenta que o conjunto de elementos coletados, como a interceptação de diálogos mantidos entre Tuca e Cunha, revelam que o ex-presidente da Câmara operava com poderes equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício.

“Tudo indica que Tuca contava com pleno aval da presidência da Casa (Motta) para promover os desvios de emendas em favor de Cunha, intensificando um altíssimo grau de promiscuidade na deliberação do chamado orçamento secreto”, afirma a PF.

Dona da ‘chave do cofre’ e ex-braço-direito de Lira

Tuca chegou a ser alvo de buscas da Polícia Federal em dezembro do ano passado. A operação apurava suspeitas de direcionamento indevido de recursos enviados pelos deputados a seus redutos eleitorais.

Servidora da Câmara, Fialek tinha um raro status em Brasília: era tratada como chefe de Poder em reuniões na Esplanada dos Ministérios. Requisitada, a ex-assessora de Arthur Lira (PP-AL) teve a chave do orçamento secreto e foi alvo de operação da Polícia Federal (PF), em dezembro do ano passado, após ser acusada de trabalhar “sem preocupação” ou “interesse republicano” para o encaminhamento de emendas de comissão, um novo flanco de investigação sobre o mau uso de verbas por congressistas.

Funcionária importante também para a gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB), Tuca dizia a pessoas próximas que tinha registro de tudo o que fazia, desde conversas presenciais até ligações e anotações do dia a dia.

Não por acaso, o temor se espalhou entre deputados, preocupados com os desdobramentos da chamada “conta de padaria” identificada pela PF. Em dezembro, quando parlamentares foram surpreendidos pela decisão do ministro Flávio Dino de afastá-la do cargo, uma onda de solidariedade foi gerada pelos deputados.

Senhas de acesso

Segundo relatos, Tuca auxiliava prefeituras, deputados e ministérios, tendo inclusive acesso a algumas senhas em sistemas específicos para o dinheiro chegar ao destino acordado. Sua sala, no segundo andar do Anexo 2 da Casa, se tornou ponto recorrente de circulação de parlamentares interessados em formalizar pedidos.

Na sede da Presidência, local em que integrantes do governo frequentemente trabalham sob pressão para liberar recursos, uma simples chamada telefônica de Tuca era capaz de interromper uma reunião.

O GLOBO mapeou a circulação da assessora na Esplanada e no Palácio do Planalto. Apenas na sede da Presidência, ela esteve 23 vezes durante o atual governo.

Tuca circulou por pastas como Cidades, Desenvolvimento Regional, Saúde, Turismo, Educação e Fazenda, além do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), sempre vinculando sua atuação à execução de emendas.

Entre todos os parlamentares ouvidos pelo GLOBO que conviveram com ela, há o reconhecimento do seu papel gerencial, uma mulher que resolvia problemas e era “incisiva” quando necessário.

Para a PF e o ministro Flávio Dino, relator de ações que tratam sobre o mau uso de recursos, Tuca é suspeita de “direcionar” emendas sem critérios técnicos. No caso específico que desencadeou a operação, um deputado foi o responsável por relatar a precariedade das destinações.

Segundo José Rocha (União Brasil-BA), presidente de comissão responsável por emendas repassadas pelo Ministério da Integração, Tuca enviou, em nome da Presidência da Câmara, planilhas prontas para assinatura. Eram, de acordo com o parlamentar, documentos que indicavam a destinação de R$ 1,125 bilhão sem informar autores, objetos ou beneficiários.

Deputados e a própria Tuca afirmam que sua função sempre foi exercida por delegação. Ela atuava como “cumpridora de ordens”. Neste sentido, a investigação sobre seu trabalho e a decisão de afastá-la são compreendidas por congressistas como um ataque à Câmara. Por isso, os deputados querem que ela retorne às suas funções e trabalham para que sua reputação seja restaurada.

Como informou O GLOBO, a Mesa Diretora da Câmara pediu ao STF em dezembro que ela retorne ao cargo, em processo que corre em sigilo.

Integrantes da cúpula da Câmara afirmam que há uma tentativa de criminalizar as emendas. Segundo eles, não há irregularidades no apontamento dessas indicações. Além disso, dizem que há inconsistências nos depoimentos de deputados que embasaram a operação.

Tuca tem um longo histórico de trabalho com políticos, chegando a trabalhar nos governos de quatro presidentes.

No Legislativo, no início da atual gestão de Lula, quando a equipe econômica ainda buscava reorganizar sua relação com o Congresso e compreender as mudanças com o fim do orçamento secreto, sua palavra tinha peso.

Reunião

Embora ocupasse formalmente o cargo de assessora parlamentar, atuava como interlocutora direta de Lira, então presidente da Câmara. Em 22 de março de 2023, por exemplo, Tuca foi levada pelo líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), a uma reunião no Ministério da Fazenda.

O encontro reuniu integrantes do núcleo duro da área econômica: o então secretário-executivo da pasta e hoje presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; o chefe de gabinete do ministro, Laio Corrêa; e o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron.

Técnicos que participaram da reunião relataram ao GLOBO que Tuca foi apresentada como representante de Lira para tratar de emendas e o que ela falava era “como se fossem as palavras de Arthur Lira”.

A reunião consta nas agendas oficiais das autoridades envolvidas, embora sem detalhamento do motivo. Um participante minimiza a participação dela e diz que o tema principal do encontro foi discutir uma medida provisória. Questionado se foi um pedido de Lira levar a Tuca à Fazenda, Guimarães disse não saber responder.

— Não sei te responder! Se teve a reunião, tudo teria sido feito em função da tramitação das emendas. Nem lembro disso. Lira não me pediu isso, não — disse Guimarães.

A atuação como emissária política se repetiria em outras pastas. Às 16h52m do dia 5 de outubro de 2023, Tuca esteve no Ministério das Cidades, onde se dirigiu ao gabinete do então secretário-executivo Hildo Rocha (MDB-MA). Levava uma cobrança objetiva: as emendas de comissão listadas por Lira ainda não haviam sido empenhadas.

Segundo relatos, técnicos da pasta informaram que os recursos seriam pagos — o que posteriormente ocorreu.

Na lista de prioridades estavam emendas indicadas por Rogério Marinho (PL-RN), Josimar Maranhãozinho (PL-MA) e Júnior Mano (então PL-CE) — os dois últimos réu e investigado, respectivamente, por suspeita de desvio de recursos. Tuca também falava em nome de Lira. Naquele momento, o governo havia determinado a retenção de recursos como instrumento de barganha.

Pessoas que trabalharam diretamente com Tuca disseram que ela sempre se destacou por ser organizada e pelas relações que mantinha no meio político. Uma delas lembra das planilhas que fazia para organizar o fluxo do dia a dia. Outra diz que ela sabia na ponta da língua questões que precisavam ser resolvidas

Atuação na Codevasf

Tuca também ocupou uma cadeira no Conselho Fiscal da Caixa Econômica Federal, banco que tem no comando um indicado de Lira. Tuca também teve uma passagem pelo governo Michel Temer: em maio de 2016, foi nomeada subchefe de Assuntos Parlamentares da Secretaria de Governo, função na qual participava da articulação com congressistas.

Durante a gestão de Lira na presidência na Câmara, além da função de coordenar a liberação de recursos do orçamento secreto, Fialek acumulou cargo no Conselho Fiscal da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Paranaíba (Codevasf), conhecida como “estatal do Centrão”, por concentrar boa parte dos recursos enviados pelos parlamentares.

(Colaboraram Eduardo Gonçalves, Patrik Camporez, Victoria Azevedo, Mariana Muniz e Yago Godoy)


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