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Estudo da Transparência Brasil referente a 2025 aponta que recursos são operados de forma semelhante ao ‘orçamento secreto’; autoria é atribuída aos líderes partidários

Um estudo divulgado pela Transparência Brasil nesta segunda-feira mostra que, em 2025, a Câmara dos Deputados destinou R$ 1,3 bilhão em emendas de comissão sem identificar os parlamentares que realmente indicaram os beneficiários dos recursos. O valor corresponde a 16% de toda a quantia indicada pela Casa na modalidade. Segundo a organização, a autoria do montante foi assumida por líderes partidários.
O Congresso Nacional apresentou R$ 11,7 bilhões em indicações para as emendas de comissão na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025, conforme a Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO). Do total, R$ 3,8 bilhões são do Senado, e R$ 7,9 bilhões, da Câmara.
O estudo aponta que todas as 4.415 indicações feitas por comissões do Senado no ano passado são associadas a um parlamentar específico. Por outro lado, dentre as 12.231 indicações da Câmara, 1.341 possuem autoria associada à liderança partidária, sem identificar o deputado.
O Rio de Janeiro lidera como o estado que mais recebeu tais recursos, com R$ 224,5 milhões, seguido pelo Piauí, que somou R$ 216,5 milhões. A comissão permanente com a maior verba destinada é a da Saúde, com R$ 818 milhões distribuídos em 808 indicações.
“As ‘emendas de liderança’, emendas de comissão cuja indicação é associada às lideranças partidárias, operam em lógica semelhante às extintas emendas do relator-geral do orçamento, popularmente conhecidas como orçamento secreto”, destaca a Transparência Brasil.
As emendas em questão foram operadas por sete bancadas partidárias: Progressistas (PP), União Brasil, Republicanos, Partido Liberal (PL), Avante, Podemos e Solidariedade.
Nesses casos, nas planilhas de indicações da Câmara, o bloco destinado ao preenchimento do “parlamentar solicitante” aparece com o termo “liderança”, em vez de conter o nome do deputado.
O PP é o partido com maior volume, representando R$ 428,7 milhões em 2025 ー um terço do total nesse exercício. O líder da sigla na Câmara é o deputado Dr. Luizinho, eleito pelo Rio de Janeiro, mas somente 23% desses recursos foram destinados ao estado fluminense.
O Piauí ficou com mais da metade do montante (R$ 216,4 milhões), valor que representa 354 das 464 indicações. O Rio, por sua vez, teve 12 indicações que somaram R$ 100,8 milhões.
“É pouco factível que o parlamentar tenha destinado três quartos dos recursos para estados alheios ao seu reduto e seja, assim, o real autor de todas as indicações”, aponta o estudo.
De acordo com a Transparência Brasil, embora as emendas de comissão devam ser destinadas a “ações orçamentárias de interesse nacional ou regional”, a sua utilização, na prática, tem sido desvirtuada. Isso ocorre devido à fragmentação do mecanismo em milhares de beneficiários indicados por parlamentares, contemplando interesses locais e políticos, aponta a organização.
“Isso reforça o entendimento de que as ‘emendas de liderança’ não correspondem à cota individual dos líderes, tampouco representam uma decisão exclusiva deste parlamentar, pois a fragmentação em beneficiários de diversos entes sugere múltiplos autores ocultos”, diz a organização.
Em 2026, até o final de maio, foram registrados R$ 373,8 milhões em recursos com autoria de lideranças partidárias. A Transparência Brasil afirma que o recorte é “parcial e subnotificado”, além de frisar que o mecanismo se estendeu para outras comissões que não haviam sido identificadas no ano passado.
Das sete lideranças com indicações que ocultavam o autor da emenda em 2025, apenas a do Solidariedade não aparece nos registros de 2026. O PT passou a integrar o grupo, com R$ 107,5 milhões vinculados à sua liderança. Os dados parciais também mostram que cerca de um terço das emendas de liderança deste ano é de autoria do Republicanos, totalizando R$ 126,5 milhões.
Ainda conforme o estudo, o cenário é agravado pela não disponibilidade de atas e planilhas das reuniões de bancadas partidárias, o que resulta na impossibilidade de verificar se as emendas “decorrem de consenso das respectivas bancadas”.
A Transparência Brasil, a partir da publicação, recomenda a extinção das chamadas “emendas de liderança” e a “imediata vedação” das emendas de comissão. Segundo a organização, a suspensão da execução dos recursos deve ocorrer até que o Congresso e Executivo “passem a operar e dar transparência”.
A entidade sugere, dentre outras coisas, a criação de um identificador único para cada indicação de parlamentares às emendas de comissão, garantindo o vínculo da informação com os documentos de execução dos recursos. Também solicita a imediata publicação das atas das reuniões, além do registro, pelas próprias comissões permanentes, de todas as suas indicações nos sistemas do governo federal.
As emendas parlamentares das comissões permanentes (RP8) não são impositivas — sua execução não é obrigatória —, mas, segundo a Transparência Brasil, elas assumem esse caráter por conta de manobras nas leis orçamentárias e por acordos políticos.
Conforme estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF 854, as emendas, em geral, devem assegurar a transparência por meio da identificação desde o parlamentar autor até o beneficiário final do recurso.
Em 2024, as emendas de comissão chegaram a ser suspensas pela Suprema Corte. No mesmo ano, os pagamentos foram liberados pelo relator, o ministro Flávio Dino, desde que assegurados os princípios de rastreabilidade e controle público.
Os valores pagos em 2022 representaram R$ 136 milhões em valores correntes. Dois anos depois, o montante saltou para R$ 8,3 bilhões, chegando a R$ 9,3 bilhões em 2025.
Para garantir a rastreabilidade das indicações de RP8, as normas obrigam as comissões a registrar e divulgar atas e planilhas das reuniões de deliberação. Os documentos são produzidos em três etapas: durante a discussão e aprovação das emendas à Lei Orçamentária; após a sanção da lei, quando os parlamentares indicam os beneficiários dos recursos durante a execução do orçamento; e em eventuais alterações do que foi inicialmente estabelecido.
A lei brasileira estabelece que qualquer parlamentar pode indicar beneficiários para as emendas de comissão. Após a publicação da Lei Orçamentária, os congressistas apresentam suas indicações, e a bancada delibera a aprovação em até 15 dias.
Depois, as comissões permanentes se reúnem e deliberam sobre todas as indicações, definindo as que serão, efetivamente, apresentadas ao governo federal por meio de ofícios com planilhas associando cada beneficiário a um autor.
BS20260713030037.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/13/camara-destinou-r-13-bilhao-em-emendas-de-comissao-sem-identificar-deputados-que-indicaram-recursos.ghtml

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