Quando minha filha mais velha fez dois anos, a pedido de minha mãe, fizemos uma festa em Recife. A única data disponível no buffet infantil escolhido por ela – por minha mãe – era o dia 4 de março. Eu faço aniversário no dia 3 e minha irmã no dia 5. Lara é o dia 21, mas como ‘tinha que ser’ naquele buffet e naquela cidade, topei adiantar o evento.

Conhecendo minha mãe como conhece, minha irmã lhe fez um pedido assim que recebeu o convite. O aniversário é da Lalá, então, por favor, não puxe um parabéns para gente. Claro, eu nunca faria isso, foi a resposta que ouviu.

Na véspera da festa, lhe repeti o mesmo texto. Mas bastou o rá-tim-bum da menina terminar para os monitores entrarem com um bolo confeitado, maior do que o primeiro, chamando a mim e a minha irmã para o parabéns surpresa. Já em casa, minha mãe se justificou dizendo que entendeu que a gente lhe disse que não precisava, mas que, no fundo, ela sabia que queríamos. Precisar é diferente de querer, ela repetia.

Lembrei dessa história essa semana, porque o gatinho sobre o qual falamos esses dias adoeceu; rinotraqueíte. Eu tentei ao máximo evitar levá-lo a uma clínica veterinária. Ele sofreria, é um bebê, se assustaria com a caixinha, o carro, as pessoas na sala de espera, o próprio veterinário. Depois, estamos em uma pandemia, seria muita exposição. Procurei, procurei e encontrei uma indicação de um veterinário que o atendesse em casa. Dois vivas para o dr. Guilherme!

Diagnóstico feito, ele me pede para segurar o bichinho pelo pescoço e pelas patinhas para a injeção de antibiótico que viria a seguir. Eu nunca gostaria que me segurassem pelo pescoço, imaginei o mesmo para o bebê gatinho. E o segurei assim, como que pega um bebê no colo. Mas foi a seringa encostar para, obviamente, voar unhada de gato pra tudo que é lado. Resultado, somente metade da dose foi aplicada e minhas duas mãos precisaram ficar enfaixadas até ontem. Hospital para curativo,  vacina e exposição para mim; possibilidade de uma nova injeção – caso não melhore até amanhã – para ele. Querer é diferente de precisar.

Vocês, que me conhecem há anos, sabem que eu nem queria, nem precisava do bolo. Vocês que nem precisam conhecer meu gatinho, sabem que diante de uma doença, o que ele quer ou não quer não pode estar embolado com o que precisa ser feito. Enfim, boa semana, queridos.

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quemmandaaquisoueu – Verdadesinconfessàveissobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…
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