Sem plano de controle do gasto público, ciclo de corte de juros acaba este ano, diz Mansueto Almeida
30 de outubro, 2026
| Por: Agência O Globo
Economista-chefe do BTG Pactual avalia que cenário econômico ‘não está tão ruim’, mas demanda ajuste, emesmo um compromisso com o fortalecimento do atual arcabouço fiscal seria positivo
Mansueto Almeida defende um plano fiscal com apoio político para conter o crescimento dos gastos públicos e melhorar a confiança dos investidores. (Foto: Divulgação/EQI Investimentos)
O economista-chefe do BTG Pactual, Mansueto Almeida, que integrou a equipe econômica do governo Michel Temer, acredita que o presidente Lula terá de anunciar planos de ajuste nas contas públicas para conseguir iniciar seu novo mandato, em janeiro de 2027, com o ciclo da queda de taxa de juros mantido pelo Banco Central. Do contrário, a tendência seria a interrupção dos cortes ainda neste ano para mitigar as perspectivas de inflação.
— Se conseguirmos controlar o crescimento do gasto público, nós iremos para um cenário que o Banco Central irá continuar o ciclo de queda de juros. Mas, se não tiver esse controle, possivelmente o ciclo de corte de juros do Brasil acabou. Significa que vamos começar 2027 com a taxa de juros de 13,75%, que é muito alta. Com uma taxa nesse patamar, muita gente vai adiar investimento — afirmou, num evento do banco em São Paulo.
Almeida aposta na definição da equipe econômica e de um plano fiscal nos próximos 30 dias, de modo a acalmar os ânimos do mercado, que operou em baixa na B3 e com desvalorização da moeda desde a vitória do petista contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), no último domingo. Ele diz que mesmo um compromisso com o fortalecimento do atual arcabouço fiscal seria positivo e que o cenário econômico “não está tão ruim”, mas demanda ajuste.
— O único grande problema para a economia, no curto prazo, é justamente uma taxa de juros que não é sustentável nem para o setor privado, tampouco para o setor público. Mas, para essa taxa de juros baixar sem a inflação explodir, precisamos controlar o crescimento do gasto público, não há alternativa — avalia.
O economista do BTG observa uma reacomodação do mercado não apenas pelo resultado eleitoral, mas também pelo patamar atual do preço do petróleo, que eleva a expectativa de inflação em praticamente todos os países. A demora na sinalização da política econômica, no entanto, estaria adiando uma recuperação, com analistas rodando modelos pessimistas e o BC menos propenso a reduzir a taxa Selic sem essas garantias.
Ele acredita que a economia de 2027 deve começar com “nível de atividade fraco independentemente do que aconteça, porque ela já vem esfriando desde o final do segundo trimestre”. Isso porque o crescimento surpreendente do PIB em quatro anos, no patamar de 3%, estaria ligado à queda da taxa de desemprego, e não ao aumento da produtividade. A eventual queda nos juros teria como consequência ainda uma valorização das empresas e o estímulo à oferta de ações.
Almeida aponta que o controle do gasto público passa, necessariamente, por ajustes nas despesas obrigatórias e que o governo precisará comunicar adequadamente essa necessidade para mudar o cenário. Ele defende ainda uma reforma administrativa com um teto salarial eficiente para todas as carreiras, a revisão de incentivos tributários que geram “custo de ineficiência para todo mundo” e uma agenda robusta de concessões, aliada ao fortalecimento das agências reguladoras e ao respeito aos contratos pelos governantes.