ECONOMIA

Supermercados estão longe da meta de só vender ovos de galinhas livres de gaiolas. Entenda por quê

14 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Dados são monitorados pelo Observatório do Ovo, que advoga por bem-estar dos animais e vê a falta de regulamentação como um fator de insegurança para produtores

Granja que produz ovos com galinhas livres — Foto: Divulgação

Com a aproximação do prazo final estabelecido pelas próprias redes de supermercados brasileiros para só venderem de ovos de galinhas livres de gaiolas (cage-free, em inglês), a maior parte desses estabelecimentos está longe de cumprir a promessa. É o que mostra um levantamento com dados de 2025 divulgado hoje.

Dados do Observatório do Ovo, produzido pela ONG Alianima, mostram que 64% de redes de hiper e supermercados que aderiram ao compromisso ficaram estagnadas ou até reduziram a participação de ovos produzidos por galinhas livres em suas vendas, ainda que o prazo estabelecido por elas, de forma voluntária, esteja chegando cada vez mais perto: o fim de 2028.

São consideradas galinhas livres aquelas que são criadas foras de gaiolas, em espaços que respeitam o convívio animal em vez do confinamento com o objetivo exclusivo de produzir ovos. Em gaiolas, é possível adensar 28 galinhas num único metro quadrado. Já quando elas são criadas livremente, a capacidade cai para onze.

— É bastante significativa a liberdade de movimento. Elas ainda não possuem acesso externo à granja, como as caipiras, mas o movimento permite a elas cumprirem sua necessidade comportamental. Nas gaiolas, sequer espaço para bater as asas elas possuem. É uma alternativa que respeita o bem-estar desses animais. As galinhas são seres muito inteligentes — diz Maria Fernanda Martin, zootecnista e gerente de Bem-estar Animal da Alianima.

O custo ainda é um obstáculo. Os ovos de galinhas livres custam entre 10 e 18% mais que o de animais engaiolados, diz a ONG.

De acordo com o levantamento, quatro de 17 redes que se comprometeram a realizar a oferta de ovos de galinhas livres jamais apresentaram dados de suas vendas. Pelo menos duas até demonstraram redução na fatia da venda deste tipo de ovo, mesmo enquanto o consumo da proteína em todo o país cresceu.

Oferta limitada

No relatório, divulgado nesta terça-feira, as redes apresentam dificuldades para completar a transição dos ovos tradicionais para os produzidos por galinhas livres. O Assaí, por exemplo, aumentou em um ponto percentual (de 6% para 7%) as vendas do produto de galinhas livres, apontando limites na oferta dos produtores.

O argumento é acompanhado pelo Carrefour, que também elenca a logística como fator retardante, além da preferência de consumidores e o custo como entraves. A rede registrou redução de mais de um ponto percentual na fatia de ovos de galinhas livres em suas vendas (de 21,4% para 20,2%). Ainda assim, um a cada cinco ovos vendidos na rede é deste tipo.

O GPA, dono das redes Pão de Açúcar e Extra Mercado, também elenca a “baixa maturidade em relação às práticas de bem-estar animal” como motivo para o cenário. As unidades venderam três pontos a menos que em 2024 (de 44% para 41%), mas ainda têm dois a cada cinco ovos vendidos vindos de galinhas livres.

Apesar do prazo final em 2028, algumas redes de supermercados dizem já ter atingido a meta de vender exclusivamente ovos de galinhas livres, como Festval e St.Marche.

Vantagens da criação livre

Além do bem-estar das galinhas, os produtores também extraem ganhos, como a redução de infecções pelos animais, que demandam gastos com remédios, além de uma maior resistência da casca do ovo. Isso diminui as perdas da granja e do produtor, já que a proteína ainda precisa ser transportada até as gôndolas.

Desde 2015, grandes empresas do setor alimentício e de hotelaria passaram a anunciar compromissos públicos para substituir gradualmente os ovos provenientes de galinhas criadas em gaiolas por sistemas livres desse confinamento. Atualmente, mais de 160 empresas brasileiras já assumiram esse compromisso, com metas concentradas entre 2025 e 2030.

Insegurança desestimula produtores

A adoção da meta é completamente voluntária, e, pelo atual patamar, Maria Fernanda vê chances de as redes chegarem ao fim do prazo sem cumpri-la. Ela afirma que o engajamento das grandes redes na causa é importante e que, apesar de o ovo de galinha livre custar entre 10 e 18% acima do de galinhas criadas em gaiolas, a falta de regulação local sobre esse tipo de proteína — diferentemente dos ovos caipiras e orgânicos — é um dos principais fatores que impedem o crescimento das fatias pelos supermercados:

— A regulação dá previsibilidade para o produtor, já que não é barato em relação a investimento. Muda mão de obra, maquinário, há necessidade de mais área para a criação. E os produtores ficam sem saber, inseguros para vender: se vier legislação diferente e estiver errado, vou ter que mudar tudo que investi? E ficam num limbo, sem saber o que fazer — ela diz, afirmando que as normas são fundamentais para azeitar a cadeia entre os supermercados e os produtores.

Foco na comunicação

Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram que o consumo de todos os tipos de ovos, no geral, subiram 7% no Brasil em 2025, para 288 ovos por habitante, ante 269 em 2024. A produção brasileira da proteína também subiu 8% no ano passado, a 62,2 milhões de unidades, ante 57,68 mi um ano antes.

De acordo com Maria Fernanda, os 27 países-membros da União Europeia, além de Suíça e Noruega, já possuem legislação que afasta a produção de galinhas em gaiolas. A Índia proibiu novos granjeiros neste estilo, enquanto Canadá e Austrália possuem desenho para alterar toda a produção local para galinhas livres até 2036.

O que dizem os supermercados

A Associação Brasileira dos Supermercados (Abras), também vê o preço e a cadeia como fatores que devem ser desenvolvidos para a popularização e o alcance das metas pela rede supermercadista. Ainda assim, a entidade afirma que um dos principais desafios atuais é fortalecer a comunicação com o consumidor, já que a diversidade de atributos e produtos é muito maior hoje do que no passado:

— Entendemos que é fundamental construir uma comunicação integrada entre produtores, indústria e varejo, utilizando embalagens, sinalização nas gôndolas e ações de informação que expliquem, de forma simples e objetiva, o significado da produção livre de gaiolas e seus atributos — diz o vice-presidente da entidade, Marcio Milan.

Para ele, o consumidor brasileiro possui crescente interesse em sustentabilidade e bem-estar animal, mas precisa de informação para tomar as decisões de compra.



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