SAÚDE

Vacina contra dengue: estudo encontra taxa maior de reações alérgicas graves com a Qdenga e sugere aplicá-la apenas em unidades de saúde

2 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Análise de dados de Belo Horizonte identificou 61,6 casos de anafilaxia por um milhão de doses aplicadas, efeito considerado raro, mas superior ao observado pelo Ministério da Saúde

Vacina – Foto: Pablo Jacob /Governo do Estado de SP

Um estudo publicado na última semana na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical encontrou uma taxa mais elevada que o esperado de reações alérgicas graves com a vacina contra a dengue Qdenga, da farmacêutica Takeda. O evento adverso é considerado raro e já faz parte da bula do imunizante, mas os responsáveis pelo trabalho, assim como a Takeda, recomendaram que a aplicação da vacina seja feita apenas em locais com condições para lidar com a emergência, como postos de saúde e clínicas especializadas.

O trabalho não tem relação com a vacina contra a dengue do Instituto Butantan, também utilizada no Brasil, mas que foi suspensa temporariamente no início de junho após o registro de 42 reações adversas com sinais de alerta, incluindo duas mortes, que estão sendo investigadas para entender se há de fato uma relação de causa com o imunizante.

No caso da Qdenga, os achados do novo estudo não alteram o perfil de segurança da vacina, que segue em uso. Em fevereiro, o Ministério da Saúde já havia publicado uma nota técnica em que analisou dados de março de 2023 até setembro de 2024, período em que 3,4 milhões de doses foram aplicadas no Brasil, e encontrou 124 casos de anafilaxia, 36,4 por milhão de doses aplicadas.

Segundo a pasta, a anafilaxia é uma reação de hipersensibilidade aguda, que ocorre geralmente dentro de 15 minutos após a vacinação, e se manifesta principalmente com edema das vias aéreas, dispneia (falta de ar), hipotensão, náusea e vômito. Todos os casos relatados receberam tratamento e ficaram bem.

Esse efeito, porém, não havia sido observado nos estudos clínicos. Ele foi detectado durante o monitoramento da vacinação em larga escala no mundo real, prática conhecida como farmacovigilância. Esse acompanhamento é importante, pois pode identificar reações raras, que apenas aparecem quando números muito maiores de indivíduos são imunizados.

Mas, no novo estudo, a taxa de anafilaxia foi maior que a observada pela pasta da Saúde. Pesquisadores analisaram dados de Belo Horizonte de fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025, quando 145,1 mil doses foram aplicadas, e identificaram nove casos de anafilaxia: 61,6 por um milhão de doses. A idade média dos casos foi de 9,4 anos, e o tempo até o início dos sintomas foi de 31 minutos.

Todos os pacientes receberam atendimento médico, tiveram recuperação total e foram liberados em menos de 24 horas. No entanto, a proporção maior de casos levou os responsáveis pelo estudo a recomendarem uma restrição dos locais que podem aplicar a vacina, explicou o pesquisador da Faculdade de Saúde Santa Casa de Belo Horizonte, Alexandre Sampaio Moura, um dos autores do artigo, em entrevista à Agência Bori:

— A grande mensagem do artigo é que devemos ter cautela. Não recomendamos que essa vacina seja aplicada fora de unidades de saúde, como em escolas ou shoppings.

Em nota enviada ao GLOBO, a farmacêutica Takeda reforçou que os achados não alteram o perfil de segurança da Qdenga. “Trata-se de um recorte epidemiológico local e retrospectivo. Atualmente, os sistemas de monitoramento já registram uma redução significativa de notificações na região em comparação ao período citado no estudo”, disse.

O laboratório frisou ainda que acompanha sistematicamente os dados de farmacovigilância da vacina, que já teve mais de 10 milhões de doses aplicadas no Brasil, e que também recomenda a administração do imunizante “exclusivamente em ambientes de saúde adequadamente estruturados e regulamentados (sejam postos fixos do SUS, clínicas privadas, laboratórios ou farmácias autorizadas)”.

Ainda em fevereiro, diante da detecção dos casos de anafilaxia em âmbito nacional, o Ministério da Saúde passou a recomendar que, antes da administração do imunizante, fosse realizada uma triagem para identificar se o indivíduo tem histórico de alergias graves, especialmente relacionadas a vacinas.

A pasta orientou que as pessoas sejam observadas por pelo menos 30 minutos pós-vacinação, caso tenham histórico de reações alérgicas graves, e pelo menos 15 minutos, para a população geral. Os profissionais envolvidos na imunização devem estar aptos para o manejo da anafilaxia, e o local deve ter acesso imediato ao tratamento necessário.

A nota técnica também estabeleceu que a vacinação contra a dengue fora da sala de vacinação, como em escolas, seja evitada, mas somente caso não seja possível cumprir as recomendações de disponibilidade de itens suporte de vida e medicamentos.

O Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) também investigou a presença de endotoxinas nos lotes de vacina implicados em casos de anafilaxia, mas descartou contaminação bacteriana durante a fabricação ou armazenamento das doses.



BS20260702145012.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/07/02/vacina-contra-dengue-estudo-encontra-taxa-maior-de-reacoes-alergicas-graves-com-a-qdenga-e-sugere-aplica-la-apenas-em-unidades-de-saude.ghtml

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