ECONOMIA

Vale elege conselheiros, após polêmica com pedido da Previ

22 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, membro independente do Conselho, foi eleito presidente do órgão, como sugeriu o fundo de pensão dos funcionários do BB, que terá agora apenas um indicado no colegiado

Foto: Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Os acionistas da mineradora Vale, em assembleia extraordinária (AGE) nesta quarta-feira, aprovaram a eleição de Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira, conhecido como Ollie, que já é conselheiro independente da mineradora, foi eleito como presidente do Conselho de Administração da companhia.

A AGE também elegeu Ieda Gomes Yell como membro do colegiado, na vaga deixada por Daniel Stieler, que era presidente do órgão e renunciou no início do mês, após a Previ, fundação de Previdência dos funcionários do Banco do Brasil (BB) e principal acionista da Vale, ter pedido sua destituição.

Com a entrada de Ieda, o fundo de pensão ficará com apenas uma indicação no Conselho da mineradora — Stieler chegou ao colegiado quando era presidente da Previ, em 2021, e o atual presidente da fundação, Márcio Chiumento, também é conselheiro. Ollie teve o apoio da Previ na eleição para presidente do órgão.

A AGE desta quarta-feira foi convocada por causa do pedido de destituição feito pela da Previ, que alegou publicamente querer reforçar a independência da alta administração da companhia com a decisão.

As mudanças começaram com uma carta divulgada em 11 de junho pela Previ. Nela, a principal acionista da Vale pediu a saída de Stieler da vaga de conselheiro, indicou um novo nome para o colegiado — José Mauricio Pereira Coelho, que foi presidente da Previ de 2018 a 2021 — e sugeriu Ollie, executivo português com formação na África do Sul e décadas de experiência na mineração global, como presidente do Conselho.

Perdas e ganhos

Ao apreciar o pedido da Previ e convocar a AGE desta quarta-feira, o Conselho da Vale recomendou aos acionistas que rejeitassem a destituição de Stieler, mas, ao mesmo tempo, indicou o nome de Ieda para concorrer com Coelho, caso os investidores decidissem pela saída do ex-presidente do colegiado.

E também aceitou a candidatura de Marcelo Gasparino, atual vice-presidente do Conselho, como concorrente de Ollie.

Stieler tentou resistir. Na reunião do colegiado que tratou do pedido da Previ, acusou a entidade de “falsidade ideológica administrativa”, por causa das justificativas apresentadas para pedir sua destituição, e de “abuso do direito de voto”, quando um acionista vota em interesse próprio, em detrimento da companhia.

Pouco depois, porém, Stieler renunciou à vaga de membro do Conselho da Vale. Com isso, o pedido de destituição feito pela Previ perdeu o objeto e sequer foi votado na AGE.

Pelo resultado da votação, a Previ perdeu na disputa pela vaga de Stieler, mas ganhou na eleição da presidência do Conselho.

Turbulências de volta

O movimento da Previ voltou a espalhar polêmica e turbulências na alta administração da Vale, após uma conturbada sucessão na vaga de CEO, entre 2023 e 2024.

Apesar da alegação de aumento de independência na governança, o momento do pedido de destituição de Stieler por parte da Previ levantou suspeitas.

Afinal, os mandatos de todos os membros do Conselho da Vale terminam em abril de 2027, quando uma assembleia ordinária (AGO) elegerá uma nova composição para o colegiado.

Como a gestão da Previ tem a influência do comando do BB, sempre paira um fantasma de interferências do governo federal — fontes ouvidas pelo GLOBO nas últimas semanas negaram isso.

A colunista do GLOBO Malu Gaspar citou a interferência de disputas internas da Previ, marcadas pela influência do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Já o colunista do GLOBO Lauro Jardim revelou que, na reunião em que o Conselho convocou a AGE, em 19 de junho, Gasparino afirmou que Stieler informou os demais membros do colegiado sobre “fatos graves que tomou conhecimento nos últimos anos”.

Segundo outros observadores, a Previ poderia apenas estar se antecipando à disputa que já ocorreria na AGO de 2027, como também informou a agência Bloomberg nesta quarta-feira.

Essas disputas ainda ecoariam a reestruturação societária de 2020, com antigos acionistas controladores remanescentes — Previ, Bradespar e Mitsui — enfrentando investidores globais que ampliaram sua participação desde então — Black Rock e Capital à frente.

Polêmicas até a véspera

As polêmicas se estenderam até a AGE desta quarta-feira. No fim da noite de terça-feira, a Vale divulgou sua defesa num processo administrativo aberto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o regulador do mercado, rebatendo acusações, feitas por acionistas minoritários, de que o movimento da Previ contrariaria regras internas da própria companhia.

A abertura do processo pela CVM foi revelada pelo jornal Valor na segunda-feira. O xerife do mercado instaurou o procedimento após uma consulta, feita na semana passada, por dois acionistas minoritários da Vale — o fundo Geração L. Par e o Banco Clássico, do bilionário José João Abdalla Filho, conhecido no mercado como Juca Abdalla, que se destacou como minoritário de companhias como Petrobras, Eletrobras (hoje Axia) e Eneva.

Na consulta, os minoritários questionam se, ao apoiar o nome de Ollie como candidato a presidente do Conselho da Vale, a Previ não estaria descumprindo regras internas estabelecidas em 2021.

Na ocasião, para garantir a boa governança no modelo de Corporation, ficou estabelecido que, a partir dos mandatos iniciados em 2023, os presidentes do Conselho não poderiam mais ter vínculo com os acionistas. Teriam que ser classificados como “independentes”. Para os minoritários, com o apoio da Previ ao nome de Ollie, o executivo teria deixado de ser “independente”.

Na defesa, a Vale informa que, “ao contrário do que alegam” os minoritários, “a Previ não indicou candidato ao cargo de presidente do Conselho”, tendo apenas “manifestado apoio ao atual Lead Independent Director (cargo ocupado por conselheiro independente que é referência no Conselho), o Sr. Manuel Lino Silva de Sousa Oliveira”.

Na AGE desta quarta-feira, o assunto voltou a ser tratado. João Vicente Silva Machado, representante do Geração L. Par e do Banco Clássico, colocou o ponto em consulta como questão de ordem. O questionamento foi refutado, já que não seria pertinente à ordem do dia da AGE.

Capital pulverizado marca disputa por poder

Desde uma reestruturação societária no fim de 2020, a Vale tem capital pulverizado, sem controlador definido, com uma base de acionistas formada em boa parte por investidores estrangeiros que atuam globalmente.

A Previ é principal acionista, mas tem menos de 10% das ações — 6,8% são detidas diretamente, mas a fundação previdenciária também é acionista das empresas de participações Litel e da Litela, que têm participação somada de cerca de 3%.

Entre os grandes investidores estrangeiros, os destaques são as gestoras americanas Black Rock (considerada a maior do mundo em ativos, com 7,13% da Vale) e Capital World Investor (com 5,13%) e o conglomerado japonês Mitsui (com 6,45%).

Mais de 70% das ações da mineradora estão dispersos entre acionistas minoritários.

No modelo de capital pulverizado, é comum que as principais decisões estratégicas, como a composição do Conselho, sejam definidas por meio de voto em assembleia de acionistas, exigindo composição entre os acionistas.

O modelo também incentiva que conselheiros profissionais amealhem apoio entre acionistas minoritários para conseguirem votos suficientes para ocupar o cargo, em busca de poder e salários. O presidente do Conselho da Vale tem remuneração anual de R$ 3,3 milhões, segundo dados públicos.


BS20260722135416.1 – https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2026/07/22/vale-elege-conselheiros-apos-polemica-com-pedido-da-previ.ghtml

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