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A jornada do navegante é a inspiração do filme protagonizado por Filipe Bragança que estreia hoje nos cinemas

Em 1984, um navegante brasileiro ousado decidiu sair da Namíbia, na África, e ir sozinho até a Bahia em um pequeno barco a remo, aventura jamais realizada até aquele momento. Amyr Klink é o nome do marinheiro que desbravou o Oceano Atlântico com a força de seus braços. Ele agora tem a história de sua jornada contada no filme intitulado com o tempo de duração da viagem, “100 dias”, dirigdo por Carlos Saldanha e protagonizado por Filipe Bragança. No embalo para a estreia da obra, que chega aos cinemas nesta quinta-feira, Amyr detalha a motivação de sua travessia transatlântica.
— Li o livro de um cara chamado Gérard d’Aboville, que atravessou o Atlântico Norte, indo de perto de Nova York, nos Estados Unidos, até a Bretanha, na França. Ele fez a travessia, mas a família e um grupo de jornalistas alugaram um barco e foram buscá-lo no mar. Eles o rebocaram nas últimas 20 milhas. O cara não terminou a viagem por conta própria. Fiquei amigo dele e senti que a grande frustração da vida dele foi não ter concluído a viagem. E essa intervenção da família ainda aconteceu outra vez. Eu mataria se alguém tentasse fazer isso comigo — revela Klink.
As histórias do amigo francês aconteceram, segundo o brasileiro, em 1980 e em 1983, respectivamente. A frustração vista em Gérard foi o motor propulsor para Amyr querer atravessar o Atlântico Sul a remo em sua própria companhia. Em 12 de junho de 1984, o paulista, que tinha 28 anos, partiu de Lüderitz, na Namíbia, com destino à capital baiana, Salvador. O trajeto com cerca de 5,6 mil quilômetros foi completado em exatos 100 dias; o desembarque do marinheiro aconteceu na Praia da Espera, em 18 de setembro daquele ano.
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A jornada transatlântica, que nunca tinha sido feita anteriormente, foi até condecorada: Klink é reconhecido pelo “Guinness book”, o livro dos recordes, como a primeira pessoa a atravessar o Atlântico a remo. A aventura exaltada internacionalmente foi descrita em detalhes por Amyr no livro “Cem dias entre céu e mar” (Companhia das Letras), publicado em 1985. Os relatos do navegante serviram como base para o filme “100 dias”, a nova obra a se desdobrar sobre a viagem marítima.
A expedição se tornou um marco pela combinação de planejamento, autonomia e preparo técnico necessários para enfrentar o oceano em uma embarcação de pequenas dimensões, construída especialmente para aquela viagem por Klink em parceria com o engenheiro naval José Carlos Furia. Ao longo dos 100 dias, Amyr precisou lidar com o isolamento e as condições imprevisíveis do mar enquanto, sozinho a bordo, era responsável pela própria alimentação, navegação, comunicação e manutenção do barco.
As condições de alta complexidade exigidas para o sucesso da viagem também recaíram sobre a preparação de Filipe Bragança para dar vida ao marinheiro nas telonas. Perder 12 quilos em três meses foi apenas um dos feitos do ator no seu preparo para o filme. O artista de 25 anos gravou o longa aos 23, em 2024, quando precisou embarcar numa exigente travessia corporal e mental.
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— Meu maior desafio físico foi o processo de emagrecer para interpretar Amyr. Fui de 80kg para 68kg em três meses — conta Bragança.
O artista, que costuma manter um corpo mais musculoso que o porte esguio do marinheiro, combinou exercícios físicos a uma dieta balanceada, num processo tão focado que preocupou Carlos Saldanha, o diretor do filme.
— Teve uma hora em que eu disse para ele parar. Falei: “Não quero que você fique doente, pelo amor de Deus!” — revela Saldanha.
A dieta regrada não só fez o ator ficar mais semelhante fisicamente com o navegador, mas também o preparou para encenar a disciplina alimentícia que Klink precisou ter durante a sua longa viagem em um pequeno barco. O marinheiro levou consigo comidas desidratadas, separadas rigorosamente para cada momento que viesse a encarar. Havia desde sacos com alimentos específicos para constipação a refeições ideais para aliviar eventuais diarreias. Tudo preparado para ser hidratado e cozido com água do mar, o que tornou a logística de estoque no espaço reduzido viável. Ele comia, pontualmente, quatro vezes por dia.
— Ele (Filipe) era muito certinho, levava a comida toda regrada e balanceada. Era quase o Amyr no barco (risos) — brincou o diretor do filme.
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Além de perder peso, Bragança precisou aprender a remar. O ator teve experiências prévias com o mar quando interpretou o mergulhador Victor Dantas, na série “Dom”, do Prime Video, mas nada comparável à intimidade que criou com a navegação para viver Amyr Klink.
— Aprendi o básico de mergulho e veleiro em “Dom”. Durante a preparação para “100 dias”, tive que aprender mesmo a remar. Tive aulas semanais com barcos de verdade e canoas esportivas. E fui muito feliz nesse processo. Um dos privilégios da minha profissão é poder viver essas experiências — afirma.
Klink remava 8h por dia na sua viagem, o que é bem retratado no filme, que é majoritariamente composto por cenas na embarcação. Dessa forma, a solidão no mar também exigiu uma introspecção de Filipe, que chegou a passar uma noite sozinho no barco cenográfico, sem celular.
— A preparação foi solitária. Tentei me isolar do mundo e ter o mínimo de estímulo externo. Ficar sozinho e desfrutar da própria companhia é muito bom — conclui.
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Economista de formação, com especialização em administração, Amyr não era um navegador profissional, mas, desde seus primeiros anos de vida, é apaixonado pelo mar. Nascido na capital paulista, Klink começou a frequentar Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, ainda aos 2 anos, durante viagens com a família. Foi ali que sua relação com o mar começou a ganhar forma. Aos 10 anos, comprou sua primeira canoa, batizada de Max, dando início a uma história com embarcações que o acompanharia por toda a vida.
Em contato com a navegação desde a infância, Amyr entendia bem as complexidades do mar. Tendo isso em vista, ele começou a planejamento da travessia do Atlântico dois anos antes de iniciar a viagem. Para tudo dar certo, houve minuciosos estudos de rotas, condições climáticas, cálculo de recursos e o desenvolvimento de um barco próprio capaz de sobreviver ao Atlântico Sul sem vela ou motor, contando apenas com os remos, as correntes e a capacidade de a embarcação se recuperar de uma eventual capotagem.
Após o sucesso da primeira travessia, Amyr, que hoje está com 71 anos, continuou a desbravar oceanos. Em 1989, o explorador passou 13 meses na Antártica, sendo sete deles imobilizados pelo gelo. Ao todo, foram 642 dias de viagem e cerca de 50 mil quilômetros percorridos. Anos depois, em 1998, voltou aos mares gelados para realizar outra façanha: uma circunavegação polar solitária, navegando pelos oceanos Atlântico, Índico e Pacífico. Foram 88 dias e 14 mil milhas náuticas, em uma viagem marcada por ventos de até 120 km/h, um iceberg de cerca de 40 metros de altura e uma tempestade que o obrigou a passar 50 horas acordado ao leme do Paratii.
BS20261029070000.1 – https://extra.globo.com/entretenimento/noticia/2026/10/100-dias-amyr-klink-revela-por-que-decidiu-cruzar-o-oceano-atlantico-a-remo.ghtml

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