Aliados de Lula fazem rodada de conversas com Centrão por espaço no governo e cobram maior fidelidade no Congresso
5 de novembro, 2026
| Por: Agência O Globo
Entendimento do governo é que será necessário arregimentar uma base mais coesa ainda neste ano
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Ricardo Stuckert.
Aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciaram as conversas com dirigentes partidários do chamado Centrão e da esquerda para tratar da eventual participação dessas legendas no Ministério do petista a partir do próximo ano. O presidente do PT, Edinho Silva, é quem está à frente das conversas, mas há esforço de outros aliados de Lula para buscar esse diálogo com os partidos, entre eles os ex-ministros Rui Costa (PT-BA) e Camilo Santana (PT-CE).
Na terça, ocorreram conversas com representantes do Podemos e do PSB. Nesta quarta e quinta-feira, estão previstos encontros com PP, União Brasil, PSD, Republicanos e MDB. A ideia é que sejam ouvidos presidentes de partidos.
No caso do União Brasil, por exemplo, além do presidente, Antonio Rueda (RJ), deve participar também o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Já no PP foi destacado o líder da sigla na Câmara, Doutor Luizinho (RJ), a pedido do presidente, Ciro Nogueira (PI). Segundo relatos, Edinho também buscou contato com siglas como Avante e PSDB, e encontros com dirigentes desses partidos devem ocorrer nos próximos dias.
De acordo com relatos, as conversas estão sendo descritas como uma sondagem inicial, para ver a disposição dos partidos em integrar o governo Lula 4. Em todas elas, no entanto, Edinho tem reforçado o princípio dessa aliança: maior fidelidade dos partidos em votações no Congresso que tiverem representantes na Esplanada.
Integrantes do governo que despacham no Palácio do Planalto dizem que só deve ser base e, portanto, indicar aliados para cargos no Ministério, quem de fato votar seguindo os interesses do Executivo no Parlamento.
Um dirigente partidário diz que considerou positiva o que chamou de mudança de postura do governo, ao buscar o diálogo com o presidente de cada sigla e não mais com representantes do partido que historicamente são alinhadas a Lula. Ele avalia que isso retoma uma relação institucional e dá mais peso às negociações. Diz ainda que Edinho afirmou que a prioridade do governo é garantir uma parceria com os partidos que dê estabilidade para o governo federal na Câmara e no Senado. A expectativa é que será necessário arregimentar uma base mais coesa ainda neste ano, diante do crescimento expressivo do PL a partir da próxima legislatura.
Neste mandato, Lula teve uma relação marcada por altos e baixos com o Congresso e de tensionamento. Com minoria da esquerda, o presidente distribuiu ministérios para partidos do Centrão que se declaravam independentes.
No segundo turno, a maioria deles declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que foi derrotado nas urnas, após terem ficado neutros na primeira rodada do pleito, numa costura que envolveu participação do próprio Lula. A migração dos partidos para a candidatura adversária foi criticada por integrantes do Palácio do Planalto, e levou o governo a exonerar indicados desses políticos que tinham cargos na máquina federal, a exemplo de indicados de Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara.
Segundo relatos, a ideia é que Edinho faça essa primeira sondagem com os partidos sem entrar nos detalhes de qual espaço cada um deles ocupará. Ele deverá juntar essas informações —assim como discutir com demais petistas que atuam nessa frente — e levá-las ao presidente Lula.
Outro dirigente partidário diz que pesa a favor do governo neste momento o fato de uma insatisfação de setores do centro com a postura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que fugiu do país após ser derrotado nas urnas. Ele afirma que isso abre a possibilidade de o Planalto se aproximar de setores que acabaram se afastando de Lula nos últimos meses e diz ter percebido um indicativo de governistas de uma intenção de se aproximar desse segmento.
A expectativa de aliados de Lula é que o presidente se debruce sobre a montagem de seu governo ao voltar do giro internacional que fará para a COP31 — o petista tem compromissos internacionais a partir do dia 11 e deve retornar ao Brasil até o dia 16. Dois interlocutores do presidente apostam que ele usará, inclusive, a viagem internacional para conversar com seus auxiliares e já apontar para qual caminho deverá tomar na escolha dos ministérios e partidos.
Lula convidou Alcolumbre e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para acompanhá-lo, gesto que foi interpretado por aliados dos políticos como um momento para conversar com os dois sobre a montagem de governo. Ainda não há confirmação da participação deles na comitiva. A expectativa do Palácio do Planalto é que os dois sejam reconduzidos à frente do Congresso em fevereiro e possam ajudar a azeitar a base de apoio.
Eles deverão ter aliados indicados na Esplanada, a exemplo de como já ocorre hoje. Alcolumbre tem dois apadrinhados: os ministros Waldez Góes (Desenvolvimento Regional) e Frederico de Siqueira Filho (Comunicações), além de uma série de indicações como a presidência da Codevasf. Motta emplacou o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, além de indicações na máquina federal.
Um político de centro diz que é preciso reconhecer que houve um erro de avaliação dos partidos em declarar apoio a Flávio e afirma que o governo começa com maior força diante da virada histórica de Lula. Isso não significa, porém, que haverá consenso interno nas siglas por apoiar o petista. Mesmo que exista essa busca de maior lealdade das siglas nas votações, dificilmente o governo terá apoio integral de todos os parlamentares, já que há muitos nomes da oposição a Lula nas legendas.
Além disso, interlocutores do Centrão se queixaram da postura do PT nas eleições. É o caso de Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do PP que buscava a reeleição ao Senado no estado. Ele costurou um pacto de não agressão com Lula (oficialmente negado pelo PT estadual), mas viu o petista criticá-lo, ainda que sem citá-lo nominalmente, durante uma agenda eleitoral no Piauí. Aliados de Ciro dizem que ele está ressentido com a posição de Lula e culpam esse ato do petista como motivo para o senador ter sido derrotado nas urnas. Petistas dizem que, nesse primeiro momento, o contato não será com Ciro, mas avaliam que ele poderá se aproximar do Palácio do Planalto mais adiante.