POLÍTICA

Após crise entre Michelle e Flávio, Damares diz que silêncio de pré-candidatos diante de ataques a mulheres é “conivência”

1 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Sem citar o presidenciável do PL, senadora criticou declarações de Paulo Figueiredo e afirmou que há “gente que não suporta” mulheres em espaços de poder

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Damares Alves (Republicanos-DF) no plenário do Senado Federal — Foto: Saulo Cruz/Agência Senado

A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou nesta quarta-feira que homens que já estão “em cima de palanques” e em pré-campanha eleitoral são “coniventes” com a violência política contra mulheres caso permaneçam em silêncio diante dos ataques. A declaração foi feita durante reunião da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado, presidida pela própria parlamentar, um dia depois de Michelle Bolsonaro anunciar que deixará a presidência do PL Mulher em meio à crise com o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Sem citar nominalmente Flávio, Damares direcionou um recado aos homens que já participam da disputa eleitoral.

— Agora é para todos os homens que estão em cima de palanques, em palcos, já fazendo pré-campanha. Se vocês não nos defendem, o silêncio de vocês é conivência.

Em seguida, reforçou a cobrança.

— Há os homens que estão no processo político eleitoral. Se vocês se silenciam diante do ataque e da violência política contra a mulher, vocês são coniventes com o ataque, vocês são cúmplices dos ataques. Venham, colegas. Venham para essa luta. Venham conosco, não deixem apenas mulher defender mulher.

Interlocutores de Damares afirmam que o recado não foi direcionado apenas a Flávio Bolsonaro, mas a todos os homens que disputam cargos eletivos e permaneceram em silêncio diante de episódios recentes de violência política contra mulheres, inclusive o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo pessoas próximas à senadora, os ataques se agravaram nos últimos dias após Michelle divulgar um vídeo com críticas públicas ao enteado, episódio que mobilizou a base bolsonarista nas redes sociais e desencadeou uma série de ataques contra mulheres ligadas ao grupo político, dentre elas a própria ex-primeira-dama e a própria Damares.

Ao longo do discurso, a senadora afirmou que mulheres de diferentes espectros políticos têm sido alvo de violência política de gênero e incentivou novas candidaturas femininas, apesar dos ataques.

— Não recue. Não tenha medo. Venha para a política. Participe, se engaje. Vão tentar te desanimar? Vão. Mas você precisa ser forte.

Damares também criticou declarações feitas pelo influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo e afirmou que os ataques recentes colocaram até mesmo em dúvida a capacidade das mulheres de participar da vida política.

— Chegaram ao absurdo, essa semana, de colocar em dúvida se a mulher tem capacidade de votar. Se a gente sabe escolher ou se merece ser escolhida.

A senadora não citou Figueiredo nominalmente, mas a fala foi uma clara referência às declarações do aliado de Eduardo Bolsonaro, que disse em live esta semana que “estatisticamente mulheres votam mal”.

Na sequência, afirmou que o crescimento da participação feminina na política tem provocado reações de setores que resistem à presença das mulheres em espaços de decisão.

— Nunca tivemos tantas mulheres candidatas como agora. Nós estamos chegando ao poder e tem gente que não suporta isto.

Sem mencionar diretamente a crise interna do PL, Damares saiu em defesa de Michelle Bolsonaro e afirmou que a ex-primeira-dama também foi alvo de uma campanha de ataques após o embate público com Flávio.

— Eu vou fazer referência a uma mulher de direita que eu sou amiga, irmã, uma espécie de mãe conselheira, que é a Michelle Bolsonaro. Vocês não têm ideia do que fizeram com a Michelle Bolsonaro nesses últimos dias. As imagens, inteligência artificial, a manipulação de imagens… atacaram a filha dela também. Duvidam, inclusive, que a menina seja filha do ex-presidente da República.

Segundo a senadora, a violência política contra mulheres ultrapassa diferenças ideológicas e atinge parlamentares de diversos partidos.

— São mulheres de direita e mulheres de esquerda atacadas o tempo todo. Nessa legislatura, uma senadora do PT foi atacada de forma vil. Eu fui uma das primeiras a defendê-la. Mas essa semana são as mulheres de direita que estão sendo atacadas.

Crise no clã Bolsonaro desencadeia onda de ataques

Na semana passada, Michelle divulgou um vídeo de 26 minutos no qual acusou Flávio Bolsonaro de tratá-la com desrespeito e afirmou que Eduardo e Carlos Bolsonaro fizeram ataques “coordenados” contra ela nas redes sociais. A crise teve início após divergências sobre a articulação do PL para a disputa ao Senado no Ceará e levou o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, a atuar para tentar pacificar a relação entre madrasta e enteado.

Na terça-feira, Michelle anunciou que deixará a presidência do PL Mulher. Em nota, afirmou que a decisão foi tomada após conversar com o ex-presidente Jair Bolsonaro e informou que pretende dedicar-se integralmente aos cuidados com o marido e com a filha do casal. A ex-primeira-dama não mencionou a crise com Flávio no comunicado, atribuindo a decisão exclusivamente ao momento vivido pela família.

Também nesta quarta-feira, Flávio reuniu deputadas e outras lideranças conservadoras, em Brasília, para apresentar os três eixos da agenda voltada ao eleitorado feminino de sua pré-campanha. Damares, no entanto, não participou do encontro. Segundo aliados da senadora, ela decidiu não comparecer por ter ficado chateada com a ausência de uma manifestação pública de Flávio em defesa dela e de Michelle diante dos ataques sofridos nos últimos dias. Para interlocutores da parlamentar, foi justamente essa insatisfação que motivou o recado dado durante a reunião da Comissão de Direitos Humanos.


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