POLÍTICA

‘Criei grupo para facilitar nossa interlocução’, diz ex-chefe do BC que recebia R$ 760 mil por mês de Vorcaro

11 de setembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Segundo relatório da PF, banqueiro simulou prestação de serviço para ‘esquentar pagamentos’ a Belline Santana, que também era agraciado com viagens ao exterior

Belline Santana
Belline Santana — Foto: Reprodução/ Instagram

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro simulou contratos de prestação de serviços fraudulentos para justificar o pagamento de propinas a Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, segundo relatório da Polícia Federal (PF), obtido pelo GLOBO. Santana teria criado um grupo de WhatsApp com Vorcaro para prestar uma espécie de consultoria especializada ao banqueiro. A ligação de ambos começou em 2023 e durou até o fim de 2025, quando a relação de ambos foi tornada pública.

Na noite de quinta-feira (10), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo dessa e de outras investigações relacionadas ao Banco Master, após solicitação do presidente da corte, Edson Fachin.

Nas conversas extraídas do celular de Vorcaro pela PF, o servidor afastado e o empresário trocam diversas mensagens. Inicialmente, os diálogos eram mais simples e rápidos. “Bom dia. Preciso falar com você”, disse o ex-diretor ao então dono do Master. Na sequência, os investigadores observaram registros de ligações por telefone. Porém, com o passar do tempo, as relações foram se tornando maiores e as conversas foram aumentando, ao ponto de Belline criar o grupo com o “chefe”.

A atuação do servidor, ainda segundo os investigadores, era de aconselhamento, revisão de documentos e de resoluções de questões que seriam de sua alçada. Em abril de 2024, Santana agendou uma reunião presencial com Vorcaro para tratar de “visão prospectiva e estratégica”. A escolha do local ficou a cargo do banqueiro, podendo ser na sede do BC em Brasília ou no Banco Master, na mesma localidade.

Em mensagem enviada em 15 de abril de 2025, Santana pergunta a Vorcaro se ele conseguiu “enviar a minuta”. Como resposta, o banqueiro diz que “sim” e que “estamos mexendo números”. Na sequência, o servidor responde: “Ok, estou por aqui”. Às 16h daquele dia, Daniel Vorcaro envia um documento a Santana, intitulado “Ofício Banco Master ao diretor de Organização do BC”.

Para a Polícia Federal, a relação de ambos foi aumentando, ao ponto de, em outubro de 2025, na ocasião em que Vorcaro tentava negociar o Banco Master para escapar de uma liquidação que ocorreria no mês seguinte, Santana informar que criara um grupo para “facilitar nossa interlocução”. “Muitas vezes, a comunicação é aprofundada com chamadas de voz entre os participantes. Porém, as mensagens de texto associadas, via de regra, indicam a atuação conjunta na defesa de interesses do Banco Master”, diz o relatório da PF sobre a atuação de ambos.

Pagamentos milionários

A forma como Belline Santana recebia seus “vencimentos” do Banco Master também ocorria por meio de ilegalidades, segundo a PF. Em outubro de 2024, o servidor recebeu R$ 760 mil após simular a prestação de serviços para uma entidade de fachada. “Para “esquentar” os pagamentos, simulam uma prestação de serviços, em que Belline é contratado pela Varajo Consultores para compor o grupo de desenvolvimento, voltado a desenvolver “estudo técnico, econômico e social focado na inserção de jovens no mercado financeiro”, diz o relatório da Polícia Federal. Outros pagamentos, de R$ 1 milhão, R$ 750 mil, entre outros, também constam como executados nas planilhas apreendidas pelos investigadores.

Além de receber propina em dinheiro, o ex-servidor do Banco Central também era agraciado com outras formas de remuneração, como o custeio de viagens ao exterior. Em setembro do ano passado, ele e a mulher embarcaram para Paris, com tudo pago pelo Master, incluindo jantares em restaurantes caros.

Quando o escândalo do Master tornou-se público e Belline foi implicado juntamente com Daniel Vorcaro, o ex-servidor foi chamado para prestar esclarecimentos no BC. No início deste ano, ele esteve na Procuradoria-Feral do Banco Central e tentou se explicar. Afirmou que os valores recebidos a partir de 2023 foram oriundos da elaboração de projetos sociais, mas que não sabia que os montares vieram de um banco, no caso o Master.

Em março deste ano, no mesmo processo que determinou a prisão de Vorcaro, a Justiça estabeleceu diversas medidas cautelares contra Belline Santana. Veja abaixo:

  • Proibição de acesso às dependências do Banco Central;
  • Proibição de manter contato com as pessoas investigadas na Operação Compliance Zero;
  • Proibição de se ausentar da comarca onde reside;
  • Suspensão do exercício de função pública exercida junto ao Banco Central;
  • Monitoração eletrônica.

Procurado por meio de seus advogados, Belline não respondeu.

BS20260911151612.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/11/criei-grupo-para-facilitar-nossa-interlocucao-diz-ex-chefe-do-bc-que-recebia-r-760-mil-por-mes-de-vorcaro.ghtml

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